
Setembro Amarelo lança um alerta importante: mês de combate ao suicídio. Uma pesquisa realizada pela revista JAMA Network (coleção de revistas médicas que reúne pesquisas, revisões e opiniões sobre a prática da medicina) mostra que pessoas com deficiência visual têm cerca de 2,5 vezes mais chances de apresentar comportamento suicida do que as pessoas sem a enfermidade.
Esse dado representa, na verdade, um aumento de 149% no risco de a pessoa com essa deficiência cometer suicídio, de acordo com o estudo, desse que é um dos mais importantes periódicos médicos do mundo, o qual entrevistou, para obter esses dados, 5.692.769 indivíduos ao redor do mundo. Nos Estados Unidos, de acordo com o mesmo trabalho, 7,08 milhões de pessoas vivem com perda de visão permanente – desse total, mais de 1 milhão vivem com cegueira total.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou estatísticas que revelam outro dado alarmante: uma pessoa fica cega a cada cinco segundos no planeta – hoje, a taxa mundial varia em torno de 39 a 43 milhões de pessoas totalmente cegas. Em se tratando de Brasil, os dados do Conselho Brasileiro de Oftalmologia apontam a existência de mais de 1,5 milhão de pessoas cegas, ao mesmo tempo que revelam que entre 60% e 75% dos casos de cegueira e baixa visão no País seriam evitáveis ou curáveis se o diagnóstico e o tratamento tivessem chegado a tempo, o que significa que cerca de 1,3 milhão de pessoas perdeu a vista por falta de um exame de rotina ou acesso a um tratamento básico.
O IBGE divulgou na última sexta-feira (18) a publicação Pessoas com deficiência e as desigualdades sociais no Brasil. O informativo traz dados inéditos a partir do cruzamento de dados do Censo Demográfico 2022 e da Pesquisa de Informações Básicas Municipais (Munic), além de fontes externas como o Censo Escolar e o Censo da Educação Superior, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), dados eleitorais do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Painel Estatístico de Pessoal do Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos (MGI). Em 2022, segundo o Censo Demográfico, havia 14,4 milhões de pessoas com deficiência, representando 7,3% da população com 2 anos ou mais de idade. Entre elas, havia maior quantidade de pessoas com dificuldade de enxergar (7,9 milhões).
Causas de cegueira
Um dos motivos para o número elevado de pessoas com deficiência visual é o envelhecimento da população, aliado a doenças crônicas como diabetes, conforme dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA, que lista as quatro principais causas globais de perda de visão permanente e irreversível: degeneração macular relacionada à idade (principal causa da perda de visão permanente em idosos); glaucoma; retinopatia diabética; traumas oculares e infecções graves (ferimentos domésticos, acidentes de trabalho, infecções severas da córnea), estes últimos os maiores responsáveis pela perda súbita e permanente de visão em jovens e crianças, enquanto as outras causas afetam mais os idosos, de maneira geral.
Além dos idosos, a perda de visão apresenta um componente social, atingindo com mais contundência mulheres, minorias étnicas, pessoas de baixa renda e populações rurais, de acordo com a OMS, que aponta ainda que cerca de 90% das pessoas cegas no mundo vivem em países de baixa e média renda, onde a dificuldade de acesso a serviços médicos é uma realidade. Nas regiões mais pobres, duas em cada três pessoas que precisam de óculos para corrigir erros de refração (como miopia) simplesmente não conseguem resolver seu problema por não terem acesso a eles. Quando se passa para o lado da economia, os números também são alarmantes: a perda de visão gera um impacto financeiro global estimado em US$ 411 bilhões anuais em produtividade no trabalho.
Impacto emocional
Viver em total escuridão, nem é preciso frisar, afeta diretamente a saúde mental do indivíduo, levando a um risco maior de depressão profunda – daí o risco maior de suicídio que ronda como uma sombra maligna as pessoas com deficiência visual. Segundo os psicólogos, o impacto emocional causado pela cegueira envolve, além do maior risco de depressão, um processo profundo de luto pela perda da visão, levando a casos de ansiedade e frustração. A perda de independência causa alterações na rotina, e todas as tarefas e atividades que antes eram realizadas normalmente passam a se tornar um sacrifício que a dependência de terceiros somente tende a acentuar. A perda da autonomia abala a autoestima: o indivíduo tende a se isolar socialmente, afastando-se do convívio familiar e até rompendo laços de amizade, o que apenas agrava uma situação em que sobressaem sentimentos como revolta e tristeza, momento em que os cuidados com a saúde mental precisam ser reforçados para que se chegue a alcançar o objetivo final: a aceitação da nova condição. Daí a importância do apoio psicológico, um caminho que pode ajudar na elaboração do luto e na reconstrução da identidade pessoal.
A reabilitação visual pode contribuir para afastar cenários de isolamento e desesperança ao se ancorar no aprendizado de técnicas de orientação, mobilidade e no uso de tecnologias assistivas que possam devolver a funcionalidade e a confiança ao indivíduo, num esforço que envolve ainda a participação de oftalmologistas, terapeutas ocupacionais e educadores especializados. O processo consiste em etapas que passam por fases como orientação e mobilidade e atividades de vida diária. Por orientação e mobilidade, entenda-se o apego a ferramentas como a bengala longa, à qual o indivíduo pode recorrer para identificar em seu caminho irregularidades de terreno, degraus e obstáculos, o que compreende também técnicas de autoproteção, que consistem em movimentos específicos com as mãos e braços à frente do rosto ou abdômen para evitar colisões com objetos suspensos (como portas de armários abertas ou galhos), quando a bengala não está sendo usada.
Em relação às atividades de vida diária, são importantes na medida em que recorrem a técnicas adaptadas para o autocuidado e rotina doméstica, permitindo que a pessoa viva sozinha ou minimize a dependência de terceiros, algo que é vital para quem está imerso na escuridão e que necessita, por exemplo, de organizar a casa de acordo com sua nova condição. Isso significa, por exemplo, etiquetar roupas e alimentos, valendo-se, para tanto, do braile ou relevo, recursos táteis essenciais que substituem a visão pela percepção do toque, permitindo que pessoas cegas ou com baixa visão leiam, escrevam e identifiquem objetos. O Sistema Braile, frise-se, é essencial para a educação, trabalho e sinalização em espaços públicos.

Não menos importantes são os recursos ópticos, não ópticos e tecnológicos, mas estes dirigidos especificamente para aqueles que não perderam a visão totalmente, mas possuem baixa visão (visão subnormal) e, consequentemente, precisam ampliar a imagem e melhorar o conforto visual. Para isso estão disponíveis ferramentas que podem ser classificadas como auxílios ópticos (lupas potentes, óculos prismáticos e telelupas para leitura ou reconhecimento de placas), auxílios não ópticos (controle de iluminação, uso de cadernos com linhas mais grossas e escuras e o uso de recursos de alto contraste, como pratos escuros para alimentos claros) e, por fim, tecnologia assistiva, cuja aplicação remete aos aplicativos de leitura de tela em smartphones, leitores de texto por inteligência artificial, softwares de ampliação de computadores e audiolivros.
O importante em todo esse cenário é assegurar a máxima autonomia possível para quem já não consegue enxergar ou para quem tem muita dificuldade em fazê-lo, aliviando-os da sobrecarga emocional que, “contaminando” sua saúde mental, podem levá-los facilmente a quadros de desespero, desconsolo e inconformismo, uma tríade com amplo poder para fazer surgir quadros de depressão profunda, estados de alma afetados pela desesperança a ponto de o suicídio aparecer no horizonte como uma alternativa viável – um desfecho que deve ser evitado a qualquer custo.
Anatomia do suicídio
Tema extremamente difícil com o qual lidar e com certeza evitado em reuniões sociais ou em “rodinhas” de amigos, o suicídio é, no entanto, uma realidade – e, o que é pior, a causa de mortes de muitos jovens. É considerado pela OMS a terceira principal causa de morte no mundo na faixa etária de 15 a 29 anos, justamente uma fase da vida em que tudo deveria ser luz e alegria, e não escuridão e pesar. Atentar contra a própria vida fica atrás apenas de acidentes de trânsito e da tuberculose entre esses jovens, cuja taxa de mortalidade chega a ser de duas a três vezes maior para o sexo masculino do que para o feminino, apesar de, conforme estudos globais, as jovens apresentarem taxas mais elevadas de tentativas de suicídio e pensamentos suicidas. O artigo Prevalência e determinantes sociais da ideação suicida entre estudantes brasileiros em escolas públicas do ensino médio, assinado, entre outros, pela professora Vera Paiva do Instituto de Psicologia da USP, revela que a taxa de suicídio maior entre meninos está diretamente ligada a fatores socioeconômicos, de bem-estar social e pertencimento, como a renda baixa, bullying e até ao estudo no período noturno. Jovens que estão diretamente expostos à LGBT+ fobia e que se assumem parte da comunidade LGBTQIA+ são o grupo mais afetado.
Já no livro Suicídio – Um Problema de Todos, a autora Karen Scavacini diz que o aumento da consciência por parte da comunidade pode gerar um incremento da demanda por atendimento qualificado. Ela chama a atenção também para o cuidado com as pessoas que tentaram o suicídio e com os enlutados. “O aumento da consciência pública não tem apenas o intuito de prevenir o suicídio, mas objetiva também promover uma mudança de atitude. Afinal, para muitos, o suicídio continua sendo uma ficção, até que ele acontece.” A obra é resultado da tese de doutorado de Karen, defendida em 2018, no Instituto de Psicologia da USP, sob orientação da professora Maria Julia Kóvacs, na opinião da qual o suicídio atinge todas as pessoas com intensidades diferentes, não se tratando apenas de um problema daqueles que têm inclinações suicidas ou dos familiares e amigos enlutados. “É uma preocupação fundamental aumentar a conscientização pública sobre o tema”, afirma a professora, que assina a apresentação do livro.
Daí a pertinência da campanha de conscientização Setembro Amarelo acerca do suicídio. Ela foi criada em 2014 pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) em parceria com o Conselho Federal de Medicina (CFM), tendo como um de seus objetivos quebrar o silêncio relacionado historicamente ao tema. Temia-se que falar sobre suicídio pudesse servir de estímulo, mas a campanha propôs o oposto, ancorada na crença de que expor o assunto ao conhecimento público poderia educar a sociedade, reduzir o estigma em torno das doenças mentais e mostrar para quem está sofrendo que existe saída e acolhimento. A ideia também é capacitar as pessoas comuns a perceberem quando um amigo, familiar ou colega de trabalho precisa de apoio. Os principais sinais de isolamento ou sofrimento extremo incluem frases de despedida ou desespero, mudanças bruscas de comportamento, despedidas sutis e alterações biológicas. Perpassam tais comportamentos situações como isolamento social repentino, abandono de atividades que antes davam prazer, descaso com a aparência, doação de pertences valiosos ou postagens com tom fortemente pessimista nas redes sociais e ainda distúrbios severos de sono (insônia crônica ou hipersonia) e perda ou ganho de apetite repentinos.
Matéria: | Jornal da USP.



