Perdi o humor pelo caminho
Millôr Fernandes era o gênio da reflexão rápida, do humor ácido, das ideias brilhantes.

Primeiro ato
Sempre gostei de política, mas nunca a levei a sério. Aprendi a interpretar o Brasil pela ótica do humor. Isso aqui é uma esculhambação. Entrei para a Universidade de Londrina (UEL) no final dos anos 80, e logo de cara me liguei a figuras emblemáticas da cultura brasileira: Paulo Francis, Millôr Fernandes, Ivan Lessa, Rubem Braga, Paulo Mendes Campos, etc. No campo do jornalismo, eu ficava com o rigor analítico de Cláudio Abramo, que escrevia para a Folha de São Paulo. Seus textos eram impecáveis e invejáveis para um estudante de jornalismo.
Eu lia a Folha e o Estadão, porque a Casa dos Estudantes da universidade, onde morei, assinava ambos. Eu mesmo não tinha um tostão furado para tal. Mas entrei em conflito com a Folha assim que Caio Túlio Costa (ombudsman do jornal) desafiou Paulo Francis para uma briga pública, tentando enquadrá-lo como um ser preconceituoso e antiquado. Fiz como Paulo Francis e fui para o Estadão.
Seu Diário da Corte, uma página inteira somente com observações sobre o mundo e as intrigas da alta esfera do poder global, era para mim algo muito acima da média, um remédio para o meu tédio diário. Passei a ver em Caio Túlio (barata descascada, como o chamou Paulo Francis) o embrião do mundo woke e de um ser miserável, que poderia ter ficado para a história do jornalismo como alguém com algum senso de ridículo. Mas nem para isso prestou.
Segundo ato
Millôr Fernandes era o gênio da reflexão rápida, do humor ácido, das ideias brilhantes. Conheci pessoalmente o bruxo do Méier aqui em Piracicaba, em um dos salões de humor, quando esse negócio de criticar as bobagens e falcatruas de políticos ainda era palavra de ordem do evento.
“Vim, e para provar, estou aqui”, ele disse ao lado do ex-prefeito Machado, se não me engano, em pleno Teatro Municipal Dr. Losso Netto. Tempos diferentes e ainda movido por cérebros ágeis. O Salão de Humorera nossa praia (minha e dos meus amigos, claro).
Terceiro ato
A pá de cal no Salão de Humor foi dada pelos irmãos Caruso. Acho que foi o Paulo e não o Chico que disse, com a primeira eleição de Lula à presidência, que o humor contra o governo havia acabado e estava sendo inaugurado o humor a favor. Morri. De lá para cá, o evento perdeu tudo o que tinha e hoje só gasta tinta com coisas menores. Sua função primordial foi solapada.
Havia sim o Pasquim, comandado pelo brilhante Jaguar. Mas vez ou outra comprei um exemplar do tabloide. Porque todos os seus integrantes passaram a vir para Piracicaba e deixavam a cidade energizada. Com o tempo, tudo virou de ponta- cabeça.
O fim
O humor de salão perdeu a graça. Acho que envelheci. Ou é o humor da nova geração que funciona para mim como laxante, apenas, com alguns laivos do que foi um dia. Sem sua força primordial, sem sua independência intelectual, fico apenas com a memória de outros tempos em que pensar era um livre pensar.



