Persona literária luta com o ID e perde feio
Ao menos, no ringue da realidade nua e crua, onde a pornografia fiscal e judiciária jogam sujo e não perdoam escorregões conceituais nem frescuras
Você tem uma persona literária. Ela admite vergonhas em primeira pessoa, moraliza para o leitor ou, babando de delícia, narra os deslizes de terceiros. Constrói, ou descreve, personagens mais humanos que uma barata ou cachorros sarnentos usando sapatos.
Você pode se achar um deus enquanto está teclando suas bizarrices poéticas, ou o rei dos espaços infinitos.
Mas, na casca de noz1, a persona literária não livra a sua pessoa física - o seu CPF -, de responder a um processo judicial2.
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A pessoa física paga impostos, bate cartão de ponto e se justifica com atestados médicos em segundas-feiras, celebra negociação de parcelamento de empréstimo, faz a compra do mês no supermercado e reclama dos preços.
Portanto, dói-lhe o bolso, o que pode ser um rascunho de sentimento. Não chega perto, porém, de se comover com o menino vendendo chicletes, com o idoso ou o PCD mostrando-lhe o cartaz de papelão escrito “ESTOU COM FOME – me ajude”.
Vai demorar muito, ou não chegará nunca, o dia em que a pessoa física – número com 11 dígitos - irá meditar sobre um poema de João Cabral que lhe cortou a pele.
Jamais você verá a pessoa física – reflexo, sombra ou fantasma da sua carne e alma – parada na calçada, em frente a uma loja, intrigada com a estranheza de uma frase, num cartaz amarelo, traçada a pincel atômico.
Quando ainda existiam, assinava cheques. Hoje, tira dinheiro no caixa eletrônico, renova a carta de motorista, paga a multa da justiça eleitoral por não ter comparecido ao segundo turno.
É melhor para todos que a sua pessoa física, na real, migre inteira para o digital. Não, meu senhor, agora tudo isso é feito pelo celular: já baixou o aplicativo? É melhor, mais prático e mais rápido: será necessário ter a última versão do Android para tornar-se robô.
Outra versão de si, no mundo fantasmo da internet. Reflexo, sombra, CPF, ID. Outra sequência de números. Tudo a mesma coisa? Não é bem assim.
Um robô-fantasma, o ID, representante de um representante: a sua pessoa física. Preposto que fará o servicinho sujo em seu lugar, gritando “presente!” nos pântanos ermos e sem vida da internet morta.
Apesar de fantasmal, nada neste espírito de constituição binária (falo da matemática, não da identidade sexual) trará alguma esperança ou vislumbre para a sua persona literária (retomarei o assunto, não perca a sequência). Espiritualidade nominal, analogia ou metáfora fraca, simbologia capenga; talvez explicável por teoria semiológica de um russo esquecido, impressa num livro encalhado da editora Perspectiva.
Eis, portanto, a #metapessoafísica, ID de cada um, no universo onde os dados ditam o Ser. Cosmo onde a Deus não é permitido jogá-los, embora muitos cosplays do Altíssimo circulem por aí.
O ID, robô-fantasma-sombra, embora dependa do referente, por meio dos dedos daquele que desliza a touch screen, não possui nem forma nem substância. Possui uma existência que outros testemunham, mas que não dá as caras de fato. Usam-na, mas é oculta: uma sombra que vive nas sombras. Todos precisam dela, mas ela vive, no escondimento: uma vida alusiva.
Quando digo vida alusiva, quero dizer: alimenta algoritmos diversos e indiferentes, no mundo real que está cada vez mais cheio de fantasmas: a caixa de loja, o atendente do Disk Farmácia ou iFood, mas também os robôs implacáveis dos sites de buscas, de compras, de trocas e aqueles que nem conhecemos: os datacenters das Big Techs, governos, organizações e empresas de mala direta.
O homem-etiqueta de Drummond chegou a esse ponto: da etiqueta visível que aparenta o que não vemos, à etiqueta etérea, eletrônica, que é mais uma chave abrindo a conta bancária do seu proprietário.
O maior risco existencial para cada um de nós é confundir-se com a pessoa física e, em seguida, com o próprio ID. E a ambos equivaler a identidade. Como se o ID fosse o ego.
O fantasma-ID-sombra ronda o limiar de nosso ser. Nós, comovidos com suas facilidades, corremos o risco de a ele nos abraçarmos e nos fundirmos.
Há uma finalidade envolvida em tal evolução da humanidade? Ao final, corrermos o risco de ganharmos os louros, depois de combater um bom combate? Um triunfo ou um gemido? Talvez nunca saibamos.
Consolados, nossos dedos sôfregos seguem. Chamam de “decisões” o que a zona morta da internet exige do nosso ID, ao fazer compras com 1 click. “Graças!”, suspiramos, aliviados, “ah, ainda tenho livre-arbítrio”.
Doce ilusão! A sombra-fantasma-ID delimita o que um dia foi uma consciência (quem sabe, nem tinha nascido). Os contornos da sombra são cancelas, onde a vida é barrada e não entra mais3.
Nota 1: Se quiser saber mais sobre essas imagens de reis e cascas de noz, dê uma olhadinha em Hamlet, de William Shakespeare. Dizem que é bom: assino embaixo. Embora isso não queira dizer nada, também gosto de Marcos Rey.
Nota 2: Mesmo que certos humoristas aleguem, judicialmente, que suas personas artísticas, e não suas pessoas físicas, tenham cometido o que eles consideram piadas, e os ofendidos, ofensas. Cabe à Justiça dar o veredito de como se separam, ou se juntam, vida, arte e diversão?
Nota 3: E a persona literária, para onde foi? Ou nem chegou. Decepção abundante, certo, mas subentenda que ela está embuçada nestas linhas, clamando por atenção, obscurecida pelos conceitos sobrecarregando esta página. O céu nublado das modernices informatizadas atrapalha qualquer cristão ou pagão, indiferente, o tempo ruge, com relâmpagos e perigos. Necessário dizer que a previsão é desfavorável para tempos ensolarados, primaveras de expressão literária? A nublagem ameaça borrascas muito maiores, como a Inteligência Artificial. Nem a mencionei, e no entanto ela está aí, com risco de nos roubar até o senso de identidade mais rasteiro, expresso em comentários de redes sociais vomitando ódio a celebridades e defendendo políticos de estimação.



