Pesquisa da Unicamp dá origem a memorial nacional sobre a pandemia de Covid-19
Plataforma que será lançada nesta terça-feira reúne registros científicos, sociais e culturais

A partir de uma pesquisa que nasceu na Unicamp, os anos da pandemia, que tanto alteraram a vida coletiva e deixaram marcas profundas na história recente, foram preservados na plataforma Memorial Digital da Pandemia de Covid-19, lançado neste 7 de abril, Dia Mundial da Saúde. O portal reúne, organiza e disponibiliza registros científicos, institucionais, culturais e sociais produzidos ao longo da crise sanitária no Brasil. Mais do que um site de consulta, o projeto consolida uma política pública de memória.
A trajetória que desemboca no lançamento do memorial começou ainda nos primeiros meses de 2020, quando a pandemia impôs uma experiência inédita de perdas, isolamento, cuidado coletivo e reorganização da vida cotidiana. No Centro de Humanidades Digitais (CHD) da Unicamp, uma pergunta passou a orientar a pesquisa coordenada pelo professor do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) e atual coordenador do Arquivo Público do Estado de São Paulo, Thiago Nicodemo: como preservar as fontes que, no futuro, permitiriam contar a história da pandemia?
“O projeto nasceu na Unicamp, literalmente em um fundo de garagem”, lembra Nicodemo. Uma ideia que começou como investigação acadêmica mobilizou estudantes e pesquisadores da Universidade e, seis anos depois, se transformou em uma infraestrutura pública de preservação digital. “Percebemos que, no meio das catástrofes, grupos sociais se articulam para produzir e armazenar memórias sobre sua identidade.”
Desde 11 de março de 2020, quando a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou o estado de pandemia, milhões de pessoas em todo o mundo passaram a registrar suas experiências diante de um acontecimento tão incerto quanto traumático. No Brasil, esse movimento também se fez presente: a população documentou o cotidiano do isolamento, as perdas, as formas de cuidado, a mobilização coletiva e as desigualdades aprofundadas pela crise sanitária.
Foi a partir dessa realidade que o CHD passou a mapear as múltiplas formas de registro. “Eu percebi que havia um grande fenômeno da memória no mundo contemporâneo”, destaca Nicodemo. Dessa reflexão surgiu o Coronarquivo, projeto desenvolvido pelo CHD como um “arquivo de arquivos” dedicado a mapear iniciativas de memória da pandemia em todo o país.
Ao longo da pesquisa, foram identificadas mais de 120 iniciativas, envolvendo universidades, museus, escolas, coletivos, movimentos sociais, comunidades indígenas, associações de moradores e organizações da sociedade civil. O trabalho revelou um fenômeno significativo: grande parte das memórias da pandemia estava sendo produzida fora dos arquivos públicos tradicionais. Fotos, vídeos, relatos, mensagens, postagens em redes sociais e documentos diversos passaram a ser organizados por grupos comunitários, pesquisadores e cidadãos comuns, frequentemente de forma voluntária e criativa.
“O potencial disso é infinito, porque nos permite criar soluções de memória que deem conta da escala e da diversidade do mundo digital”, afirma Nicodemo. Segundo ele, o projeto articula uma dimensão clássica das humanidades com a experimentação tecnológica e a resolução de problemas sociais concretos. “É ciência, porque resolve um problema real, existente na sociedade.”
Solução de memória
Mais do que um repositório de documentos, o memorial oferece acesso gratuito a depoimentos, entrevistas, produções artísticas, fotografias, mapas, registros sonoros e filmográficos, documentos normativos, publicações científicas e referências bibliográficas relacionadas à pandemia, além de permitir a incorporação contínua de novas coleções.
Essa abundância de registros, no entanto, também evidenciou um problema central: a fragilidade do ambiente digital. Computadores quebram, HDs deixam de funcionar, senhas são esquecidas, plataformas deixam de existir e formatos se tornam obsoletos.
“Sem infraestrutura adequada, uma parte significativa dessa memória corria o risco de desaparecer”, ressalta. “O projeto não é apenas um repositório. É uma solução de memória.”
O acervo contempla documentos formais e informais, individuais e coletivos, relacionados às diferentes experiências da Covid-19 no Brasil. Estão presentes registros produzidos por povos indígenas, comunidades periféricas, movimentos sociais e grupos historicamente marginalizados, tornando visíveis dimensões muitas vezes apagadas da crise sanitária, como desigualdade social, racismo, violência de gênero e violações de direitos.
Para Nicodemo, preservar essas memórias é também uma forma de enfrentar a cultura brasileira do esquecimento. “O Brasil tem uma tradição de não processar suas feridas”, afirma. “Foi assim com a ditadura, foi assim com a escravidão, e há o risco de acontecer o mesmo com a pandemia. O memorial é parte do processo de reconhecimento e elaboração do que aconteceu.”
Segundo ele, embora exista um certo esgotamento social em relação ao tema, consequência dos anos em que a pandemia ocupou integralmente o cotidiano, o trabalho de memória continua sendo indispensável. “É um evento que matou 700 mil pessoas no país e não pode ser subestimado”, diz. “A memória é um trabalho terapêutico para quem foi diretamente envolvido, mas também é uma responsabilidade coletiva.”
Desde 2021, a equipe do CHD também vem realizando entrevistas de história oral com responsáveis por arquivos digitais sobre a Covid-19 no Brasil e outros países da América Latina, ampliando o escopo da pesquisa e consolidando uma rede internacional de preservação.
Os resultados desse percurso foram sistematizados em diversos artigos acadêmicos e no livro Por uma história da Covid-19: iniciativas de memória da pandemia no Brasil, organizado por Ian Kisil Marino, pesquisador do projeto, e por Nicodemo, publicado em 2023.
Em 2024, Marino defendeu, no IFCH, a tese “Arquivando a pandemia: transformação digital e luta pela memória na América Latina”, para a obtenção do título de doutor em História, na área de Dinâmicas e Linguagens Políticas. No mesmo ano, Nicodemo defendeu a tese de livre-docência “Arquivo Digital: história e memória diante dos desafios do século XXI”, também no IFCH.
Dimensão institucional
A partir de 2024, a iniciativa ganhou dimensão institucional. Em março daquele ano, o Ministério da Saúde realizou, em Brasília, o Seminário Memorial da Pandemia de Covid-19, marco importante para a formalização do projeto.
O encontro resultou na assinatura de um memorando de entendimento entre os ministérios da Saúde e da Cultura, consolidando a criação do memorial no Centro Cultural do Ministério da Saúde. A iniciativa do CHD contou ainda com a parceria com a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas).
Entre 2024 e 2025, o diálogo entre as instituições levou à construção do modelo. Para o professor, a experiência também projeta novos caminhos para a Universidade. “Tecnologia não é algo fora das humanidades. Ela precisa estar dentro desse campo, de forma crítica e experimental”, afirma. “Isso tensiona o papel da Universidade para o futuro.”
O modelo já desperta interesse para outras aplicações, como a preservação de memórias relacionadas a guerras, mudanças climáticas e saberes tradicionais de comunidades indígenas em diferentes países. “É uma área híbrida de conhecimentos que a sociedade demanda cada vez mais”, afirma. “A Universidade precisa formar gente nesses saberes híbridos.”
Além do ambiente digital, o projeto prevê ações de difusão, como exposições itinerantes em diferentes capitais e uma mostra permanente no Centro Cultural do Ministério da Saúde, no Rio de Janeiro.
No site, já está disponível uma mostra fotográfica com imagens em preto e branco produzidas pelo fotojornalista e historiador Carlos Erbs Jr., que ilustram essa reportagem. O fotógrafo acompanhou a crise sanitária desde os primeiros momentos e percorreu as ruas do Rio de Janeiro para registrar os efeitos das medidas de isolamento social, as ações de órgãos públicos, iniciativas da sociedade civil, os gestos de solidariedade e a tensão vivida pelos profissionais da linha de frente. As fotos integram o livro Vidas importam – Memória visual da pandemia COVID-19 no Rio de Janeiro (Editora iVentura, 2021).
Serviço:
Lançamento do Memorial Digital da Pandemia de Covid-19
Data: 7 de abril de 2026
Horário: 16h30
Local: Centro Cultural do Ministério da Saúde (CCMS)
Praça Marechal Âncora, 95 – Centro, Rio de Janeiro (RJ)
Matéria: Daniela Prandi | Jornal da Unicamp.







