Pesquisa pioneira da Unesp mapeia genoma do pirapitinga
O peixe brasileiro é de grande importância econômica na China; pesquisa contou com colaboração de cientistas chineses
A China é a principal produtora de peixes para consumo do mundo. Segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o país produziu, em 2023, mais de 55 milhões de toneladas de organismos aquáticos por meio da aquicultura, o que inclui camarões, moluscos, algas, entre outros. Em comparação, a produção do Brasil naquele mesmo ano correspondeu a 1,44% daquele total, ou 792 mil toneladas.
Por definição, a atividade de aquicultura limita-se à criação de seres vivos em ambiente controlado, cuja destinação final é o comércio. Logo, não entram nessa conta os animais de vida livre pescados para o mercado, embora a China também se destaque nessa atividade. Estima-se que, por ano, cada chinês consuma, em média, 42 quilos de produtos marinhos.
Há um detalhe curioso por trás da produção chinesa: cerca de 8% dos peixes consumidos no país não são nativos de lá. É o caso de espécies como o salmão, a truta, a tilápia e a pirapitinga. Esta última, cujo nome científico é Piaractus brachypomus, foi introduzida na China a partir da Região Administrativa Especial de Hong Kong, em 1985, embora não se saiba de que forma o animal chegou até lá.
Supõe-se que os primeiros espécimes de pirapitinga tenham sido inicialmente cultivados no país visando à piscicultura ornamental, ou seja, ao abastecimento de aquários e lagos decorativos, pois sua aparência é bastante semelhante à das piranhas, grupo de peixes que ganhou destaque em obras cinematográficas.
O Brasil importa mais de 1,5 milhão de toneladas de peixes todos os anos. Em nosso país, o peso das espécies não nativas no total da produção aquícola é muito maior, representando cerca de 65%. Um dos pescados mais consumidos no país é a tilápia, oriunda do continente africano e produzida, principalmente, nos estados do Paraná e de São Paulo. Porém, a pirapitinga, também conhecida no Brasil como caranha, é pouco popular no nosso setor alimentício.
Pesquisadores acreditam, no entanto, que a notável diversidade de peixes de água doce nativos que o Brasil abriga representa uma oportunidade significativa para o desenvolvimento da aquicultura sustentável.
A popularidade da pirapitinga na China, por exemplo, poderia ser reproduzida no Brasil, desde que sejam feitos estudos sobre a espécie para torná-la atrativa ao mercado. O trabalho de Ivana Felipe da Rosa, pesquisadora do Instituto de Biociências (IB) da Unesp, câmpus de Botucatu, traz contribuições neste sentido.
Sua pesquisa de doutorado na área de Biologia Geral e Aplicada no IB, sob a orientação de Rafael H. Nóbrega, professor do Departamento de Biologia Celular e Molecular do IB, produziu uma descrição inédita do genoma da pirapitinga em nível cromossômico, com um índice de completude BUSCO (Benchmarking Universal Single-Copy Orthologs) de 99,8%.
A divulgação desses dados deve gerar um impacto importante nas atividades de melhoramento genético da espécie e se refletir na produção comercial. O artigo com os resultados do estudo foi publicado em julho de 2026 na revista Scientific Data.
Melhoramento genético de espécies brasileiras
O trabalho de Rosa foi desenvolvido em parceria com pesquisadores da Academia Chinesa de Ciências da Pesca, na província de Shandong, na China, onde a cientista passou um período durante o seu doutorado. A pesquisadora segue no país asiático, agora realizando pós-doutorado na Universidade de Shandong, na mesma província.
Em seu projeto de doutorado, Rosa visava à investigação do desenvolvimento reprodutivo, com base nas gônadas, do pacu (Piaractus mesopotamicus), peixe de água doce brasileiro. A bolsa na universidade chinesa fez os planos mudarem: para seguir com o planejamento, a pesquisadora precisava de um genoma de referência. Há, no entanto, poucos genomas disponíveis de espécies nativas do Brasil. Essa condição despertou o interesse pela investigação da pirapitinga, por se tratar de uma espécie próxima do pacu que está disponível na China e é relevante para a aquicultura.
“O genoma serve como base para outros estudos. Ele abre portas para você compreender mais a fundo a localização dos genes, quais são as suas funções e como esses genes podem atuar em determinados tecidos”, explica a bióloga. “Pensando na aplicação para a aquicultura, o trabalho tem como objetivo principal tentar obter uma base genômica sólida para melhorar a compreensão da genética dessa espécie.”
Segundo a cientista, há poucos genomas disponíveis para as espécies brasileiras, com o número total girando em torno de dez. “E não basta que o genoma esteja disponível, é necessário acesso também à anotação”, explica Rosa, citando o processo de descrição de um gene individual e de suas funções. “Esses são dois passos muito importantes para desenvolver uma pesquisa sólida. Sem uma anotação boa, é muito difícil analisar as sequências dos genes de forma aprofundada.”
A compreensão das estruturas genômicas permitirá aos pesquisadores utilizar os genes como marcadores biológicos a fim de identificar, por exemplo, aqueles relacionados ao crescimento, à resistência térmica ou à resistência a doenças. Isso possibilitará o melhoramento genético da espécie, o que vai impactar positivamente o setor da aquicultura. O fortalecimento das espécies nativas reduz ainda riscos ecológicos, como os episódios de fugas de peixes não nativos que podem resultar em invasões biológicas, ameaçando a biodiversidade e a integridade dos ecossistemas.
Parceria Brasil X China
Rosa explica que a diversidade de espécies aquáticas que o Brasil abriga pode ser classificada como gigantesca, quando comparada ao que pode ser encontrado em outros países. A explicação para tamanha variedade pode estar na Bacia Amazônica e nos milhares de organismos ainda não estudados que lá vivem. No entanto, a bióloga ressalta que o Brasil está atrás da China quando o parâmetro de comparação envolve o nível de investimento e o acesso a outras estruturas tecnológicas, como as que lhe permitem conduzir seus estudos no país asiático.
“O investimento da China nessa parte da aquicultura é brutal. Por mais que sejam consumidores de carne, a alimentação base deles é composta de peixes e algas. No Brasil, acredito que exista um direcionamento maior para a produção de gado. Mas nós temos biodiversidade, temos invertebrados e vertebrados que poderiam ser mais explorados”, comenta Rosa.
Diogo Teruo Hashimoto, especialista em genética aplicada à aquicultura do Centro de Aquicultura da Unesp (CAUNESP), câmpus de Jaboticabal, acredita que os métodos desenvolvidos no Brasil podem ser aplicados na China, assim como as tecnologias orientais podem chegar ao nosso mercado.
“Eu tenho trabalhado em uma área de fronteira do conhecimento chamada fenômica, que é o uso de inteligência artificial nos programas de melhoramento genético. E tenho um parceiro da China que também está desenvolvendo IA para alcançar uma genética de precisão. Com essa colaboração, acredito que iremos conseguir chegar mais longe, pois estamos desbravando alguns caminhos que não existem em outros países ou grupos de excelência”, diz Hashimoto sobre o potencial das parcerias com o país asiático.
Rosa também comenta a visão da China sobre o Brasil no setor de aquicultura:
“Os institutos de pesquisa e as universidades chinesas enxergam o Brasil não como um ambiente inovador, mas rico em termos de biodiversidade”, diz. Segundo a pesquisadora, todos os seus colegas e mentores se mostraram muito abertos a receber os brasileiros no país, existindo um forte potencial de colaboração. “Quero enfatizar o quanto ainda existe a ser explorado no Brasil em termos de biologia e genética. Precisamos investir cada vez mais em ciência e tecnologia para seguirmos o mesmo fluxo e construirmos o mesmo futuro de um país como a China. Possuímos a nossa biodiversidade, precisamos explorá-la mais”, diz.
Matéria: Carolina Fioratti | Jornal da Unesp.







