Rede de pesquisadores inicia o mais amplo estudo sobre as condições de trabalho já feito no Brasil
Unicamp sedia reunião do comitê gestor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, Trabalho, Inclusão e Equidade (INCT)
Membros do comitê gestor do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia, Trabalho, Inclusão e Equidade (INCT-Trabalho), órgão ligado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CPNq), deram início ao mais amplo diagnóstico sobre as condições dos trabalhadores já realizado no Brasil. O grupo, que se reuniu no final da semana passada na Unicamp, projeta lançar até 2030 pesquisas, seminários, atividades de interlocução com a sociedade e uma série de publicações, incluindo livros virtuais, artigos e capítulos acadêmicos voltados ao debate sobre inclusão, equidade social, precarização e desvalorização do trabalho.
Dividida em oito eixos temáticos (veja quadro), a iniciativa reúne cerca de 60 pesquisadores brasileiros e 38 estrangeiros, de países da América Latina, Europa e Canadá, todos articulados em torno de uma rede interdisciplinar de estudos. As atividades prometem apresentar um diagnóstico aprofundado da situação atual do trabalho no país, avançar na reflexão teórico-metodológica referente aos estudos desse setor e propor diretrizes para futuras políticas públicas relacionadas ao tema.
Além disso, os integrantes do INCT querem promover mais visibilidade e qualificação do debate público sobre o tema do trabalho e contribuir para seu reposicionamento na agenda nacional. O grupo prevê a implementação de um programa de pesquisa próprio, articulado a uma interlocução ativa com atores sociais estrategicamente posicionados no mundo do trabalho.
Integram o comitê gestor os professores da Unicamp José Dari Krein, do Instituto de Economia (IE), e Andréia Galvão, professora do Programa de Pós-Graduação em Ciência Política do IFCH; além deles, participam também Renata Dutra, da Universidade de Brasília (UnB), Adalberto Cardoso, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), José Ricardo Ramalho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Maria Aparecida Bridi, da Universidade Federal do Paraná (UFPR), coordenadora-adjunta do grupo, e Roberto Veras de Oliveira, da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), coordenador dos trabalhos.
Avaliação
O projeto parte da avaliação de que o país enfrenta uma crise marcada por mudanças econômicas, sociais, tecnológicas e ambientais que afetam especialmente as classes trabalhadoras. Segundo os pesquisadores, fatores como a financeirização da economia, a reorganização produtiva global e a crise ambiental se somam a problemas históricos brasileiros, como informalidade, desigualdade estrutural e fragilidades institucionais.
“Temos muitos desafios. A reunião nos ajudou a avançar no planejamento das atividades, na divisão do trabalho entre o comitê gestor e os pesquisadores e na definição de mecanismos e critérios para promover a maior integração dos eixos. Almejamos produzir dados novos, quantitativos e qualitativos, por meio de pesquisas sobre as transformações nas relações e condições de trabalho. Isso requer analisar de modo sistemático uma série de fatores que interferem nesse processo”, afirma Andréia Galvão, citando o papel do Estado em seus diferentes níveis, as políticas de desenvolvimento de diferentes governos, o papel do empresariado e a atuação dos sindicatos e movimentos que lutam por direitos sociais e trabalhistas, além das questões tecnológicas, ambientais e demográficas, com recorte de gênero, raça e idade.
“O planejamento das atividades nos ajuda na condução das pesquisas coletivas, na realização do trabalho analítico, mas também a dimensionar nossa capacidade de intervenção no debate público sobre esses temas. Ele visa a realizar pesquisas coletivas no interior de cada um dos eixos, o que requer atribuir tarefas muito precisas a seus participantes, para que todos possam se engajar”, acrescenta ela.
O professor José Dari Krein lembra que o INCT é resultado de uma articulação construída ao longo de mais de uma década e fortalecida a partir da criação da Rede de Estudos e Monitoramento Interdisciplinar da Reconfiguração do Trabalho (Remir Trabalho), formada inicialmente para acompanhar os desdobramentos da reforma trabalhista no Brasil.
“O projeto parte da premissa de que o trabalho continua sendo um elemento estruturador da vida social e que sua centralidade precisa ser reposicionada diante das mudanças econômicas, tecnológicas e culturais das últimas décadas. O diagnóstico desenvolvido pelo grupo considera fatores como o avanço da inteligência artificial, da automação e da internet das coisas, além das transformações provocadas pela globalização, mudanças climáticas e aumento da precarização das relações de trabalho”, comenta Krein. “Esse conjunto de mudanças ampliou a insegurança social e reduziu mecanismos de proteção aos trabalhadores.”
Precarização
O INCT foi criado para analisar as transformações contemporâneas do mundo do trabalho no Brasil e seus impactos sobre a sociedade. Reunindo pesquisadores de diferentes áreas, a iniciativa busca compreender fenômenos como a precarização do trabalho, a flexibilização das relações trabalhistas, os efeitos das novas tecnologias e o aprofundamento das desigualdades sociais. Os oito eixos temáticos que serão trabalhados nos livros virtuais correspondem a situações críticas do mundo do trabalho contemporâneo.
Ações
O INCT adota uma estrutura de governança colegiada e em rede para coordenar suas atividades de pesquisa, formação e interlocução social. A organização foi concebida para integrar diferentes áreas do conhecimento e dar suporte à amplitude temática e territorial do projeto.
OS EIXOS DA PESQUISA
1 – A incapacidade de as políticas de desenvolvimento gerarem melhorias de renda consistentes e duradouras para as classes trabalhadoras
2 – A persistência das desigualdades sociais e sua articulação com os padrões de trabalho
3 – As implicações das transformações demográficas sobre o mundo do trabalho
4 – A tendência de flexibilização do trabalho e a desconstrução dos direitos laborais
5 – Os efeitos das inovações organizacionais e tecnológicas nas dinâmicas ocupacionais e nas relações de trabalho
6 – As implicações da crise ambiental e da transição energética para o trabalho
7 – As fragilidades das lutas das classes trabalhadoras por direitos
8 – As inconsistências das políticas de inclusão laboral e de promoção da equidade
Fonte: INCT-Trabalho
Matéria: Fábio Gallacci | Fotos: Lúcio Camargo | Jornal da Unicamp.






