Sobre a minha pessoa
Saúde acerta ao criar um protocolo específico para pacientes com suspeita de câncer
Recentemente, a prefeitura de Piracicaba divulgou um novo protocolo para caso de pessoas com suspeita de câncer (Leia aqui!). Achei o passo essencial para o desenvolvimento do SUS e para o bem-estar dos pacientes.
O sistema público ainda vive refém de problemas nesse sentido que pareciam incontornáveis. Vou explicar o que afirmo com um exemplo envolvendo a minha própria pessoa, como diria Mike Wazowski, de Monstros S.A.
Nãos e trata de lamentação, mas de um testemunho das dificuldades do SUS e também de sua grandeza. É fato que existe um vácuo terrível entre sua fraqueza e seu momento de excelência, como vocês poderão observar em meu depoimento. Espero apenas que isso ajude alguém.
Em 2023, passei por uma fase difícil com a minha saúde. Eu estava bem anêmico e a família fazia observações nesse sentido, me pedindo para consultar um médico. Eu achava que tudo era sintoma de insatisfação com o meu trabalho e meu desempenho na vida profissional.
Mesmo assim, fui a postos de saúde várias vezes. Cheguei a ir ao pronto-atendimento também, para ver o que os médicos diziam. O diagnóstico era sempre relacionado à gripe ou à falta de alguma vitamina. Os médicos até pediam exames de sangue, mas as atendentes – pelo menos nas várias vezes em que fui ao SUS para investigar o meu caso – diziam para eu voltar na semana seguinte, quando abriria vaga para agendar exames de sangue. Eu desistia de esperar, claro.
Percebi que os médicos da rede básica e da emergência não estavam preparados para diagnosticar algo além do básico. O olhar deles parecia inclusive um tanto quanto distante de qualquer outra possibilidade que não se curasse com um simples antibiótico.
Até que a minha situação piorou. Em meu aniversário, em 2023, tive que abandonar a minha própria festa junto aos amigos porque comecei a tossir sem parar. Minhas irmãs me ajudaram muito, mas eu sabia que não poderia depender mais do SUS.
Agendei uma consulta com o Dr. Tufi Chalita, infectologista (paga). Assim que ele viu meu exame de sangue e de imagem, que fiz em laboratórios particulares, a seu pedido, ele foi enfático: “Procure um hematologista”.
Olhando para a lista da Unimed, vi um nome simpático: Carlos Kruzick. “É este”, pensei. A escolha, para ser sincero, foi devido ao sobrenome, que se pareceu com o meu, Cruz, só que de algum país do leste europeu. Também paguei a consulta.
Ele me atendeu prontamente. Assim que olhou o exame, começou a tamborilar em seu teclado e a falar ao mesmo tempo. “Não sei como você está em pé, rapaz. Estou fazendo aqui um pedido de internação imediata. Você vai para o pronto-atendimento e será encaminhado ao HFC, para receber sangue.
Fiquei perdido, chorei, mas ele pediu calma e explicou que minha imunidade estava baixa demais e que os indicadores diziam que eu estava com alguma doença hematológica grave.
“Pelo que observo aqui, você pode estar com Leucemia ou com Mieloma Múltiplo. Vamos torcer para que você esteja com Mieloma”, sentenciou.
Fui encaminhado de volta ao SUS, desta vez ao pronto-atendimento do Piracicamirim, onde fui muito bem atendido. Era final de tarde. De lá, em um tempo relativamente curto, eu estava como vaga-zero no corredor do HFC, com a ajuda de amigas do SAMU. Ainda de madrugada, eu estava tomando sangue. Foram quatro bolsas.
Se eu não tivesse gasto uma boa grana para fazer os exames de imagem e de sangue que o dr. Calil havia me pedido, possivelmente eu teria morrido, como observou o dr. Carlos Kruzick. Mas fui abençoado. Se não me engano, só o exame de imagem ficou em R$ 700, mais as consultas e exames de sangue, o investimento ficou próximo de R$ 2 mil
Internado no HFC pelo SUS, demoraram 15 dias para se descobrir o que eu tinha e Kruzick foi certeiro: Mieloma Múltiplo. Tudo isso pelo SUS, vejam só. Ou seja, a grande falha do SUS está na rede básica e no pronto-atendimento, que carece ainda de um protocolo eficaz para casos de câncer.
Faço esse relato para elogiar a iniciativa da Secretaria de Saúde de criar um protocolo específico que encaminhe rapidamente os pacientes com suspeita da doença. Se eu não tivesse um pouco de condições financeira, não sei qual seria o meu fim. Mas deu tempo e estou aqui.
Fiz o autotransplante pelo SUS, com a ajuda das minhas amigas do Postão. Até que um médico me disse: “Quer mesmo ter um seguro de vida, faça um plano de saúde privado”. Corri e fiz Unimed. Em pouco tempo, eu já estava sendo tratado com medicamentos de ponta, que não são oferecidos pelo SUS.
Uma coisa muito legal. A médica que me acompanha é a dra. Camila, esposa do Dr. Kruzick. Tenho a certeza de estar em boas mãos. Conto também com o apoio amigo e fundamental do dr. André Gervatoski, que compõe a equipe de hemato do HFC.
A pergunta que fica é o seguinte: Quantas pessoas não têm o mesmo privilégio que eu e ficam pelo meio do caminho, à base de aspirina para curar metástase?



