Sobre o romance “Piracicaba”, e seu autor David Antunes
Obra retrata a cidade e seus tipos humanos no final do século XIX
Capa da segunda edição em livro de “Piracicaba”, de David Antunes, de 1959, com ilustração de Angelino Stella, e publicada pelo Departamento Municipal de Cultura da cidade.
Antunes não era piracicabano, nasceu na cidade de Santa Branca, no Vale do Paraíba. Foi criado em Jaú, mas viveu em Piracicaba durante 11 anos, tendo trabalhado como gerente do Banco do Brasil e aqui se aposentou, tendo sido casado com Ida de Moraes Barros, piracicabana sobrinha de Prudente de Moraes. Titinha, como era carinhosamente chamada, ajudou-o na pesquisa de costumes, expressões linguísticas, modas, enfim, do ambiente social e humano de Piracicaba no final do século XIX.
Infelizmente, ela viu somente a história publicada na versão em capítulos, no “Jornal de Piracicaba”, e na primeira edição em livro, uma brochurinha, de 1956, segundo escreve no prefácio Fortunato Losso Netto, editor-chefe e proprietário do jornal, “publicado à revelia do autor”. Titinha faleceu em 1958, sem ver uma edição “caprichada”, como se viu em 1959, com capa ilustrada e bancada pela prefeitura de Piracicaba.
Quem deseja ler a obra hoje enfrenta dificuldades, já que o livro se tornou uma raridade. A primeira
publicação da “novela de bons costumes”, como dito acima, foi publicada pelo JP em brochura de pequeno formato (aproximadamente 20 cm x 15 cm), sem revisão e sem ilustrações, mesmo na capa, provavelmente com escassa tiragem. Em 1959, o Departamento Municipal de Cultura de Piracicaba publicou a obra revisada, com ilustração de capa de Angelino Stella e um novo prefácio, desta vez do próprio autor, mais uma dedicatória à esposa falecida.
É possível encontrar a obra para empréstimo na Biblioteca Pública de Piracicaba “Ricardo Ferraz de Arruda”, e para quem quiser adquiri-la, através de sebos pela internet.
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Embora a história seja ficcional, o dia-a-dia da família Cardoso é apresentado pelo autor com o pano de fundo da história do Brasil e das suas repercussões em Piracicaba. Arthur é apresentado como descendente de Felipe Cardoso, primeiro proprietário de terras em Piracicaba, no início do século XVIII. Marta, sua esposa e a filha do casal, Eliana, além da galeria de curiosos personagens que pretendem mostrar como era o ambiente social da Piracicaba do fim do século XIX.
A descrição da cidade nos anos que antecedem a queda do Império e a Abolição da escravatura, assim como no começo do século XX, é encantadora e junta-se à análise psicológica dos tipos humanos da época.
As festas populares, expressões do dialeto piracicabano próprias do período, a descrição da rua do Porto, do centro da cidade, do rio Piracicaba naqueles tempos juntam-se à exposição das ideias políticas e como o povo reagia e as adotava. A disputa entre monarquistas, “tradicionalistas”, e republicanos, “progressistas”, tem lugar em batalhas de retórica, num paralelo muito vivaz com a polarização política da atualidade brasileira. O autor é muito hábil em expor essas lutas políticas na forma de discussões de vizinhos, considerados inconvenientes e intolerantes, outras vezes, descrevendo mudanças de opiniões.
Também uma das tramas paralelas, que acompanha o drama de uma mãe negra, ex-escrava da família protagonista, mostra a situação dos escravos recém-libertos, gerada pela Abolição, despreparados em assumir uma posição nova na sociedade brasileira, praticamente abandonados por muitos de seus antigos donos (o que não é o caso da família Cardoso), já que não receberam absolutamente nada para prosseguirem na vida, a não ser a liberdade.
Breve biografia de David Antunes
Natural da cidade de Santa Branca/SP, próxima a São José dos Campos, nasceu em 1891. Casou-se em 1918 com a piracicabana Ida de Moraes Barros, a “Titinha”, sobrinha de Prudente de Moraes.
Foi criado em Jaú, frequentou a Academia de Comércio de Juiz de Fora (MG) e atuou como comerciário antes de construir carreira no Banco do Brasil.
Residiu em Piracicaba de 1947 a 1958, onde atuou como gerente do Banco do Brasil e integrou-se intensamente à vida cultural local, colaborando com o Jornal de Piracicaba.
Foi um dos organizadores do I Salão de Belas-Artes de Piracicaba, em 1953, com Arquimedes Dutra e Fortunato Losso Neto, e foi presidente da 3.a edição do SBAP em 1955.
Adotou o pseudônimo, em alguns artigos para a imprensa, de “Iago Joé”. O romance “Bagunça” e a novela “Briguela” tiveram reconhecimento da crítica e foram sucessos relativos de vendas, tendo atraído a atenção de personalidades como Monteiro Lobato.
Outros trabalhos de sua autoria são “Incenso e Pólvora”, “Caminhos Perdidos” e “Obsessão”, “O Pastor e as Cabras”, além de “Piracicaba”, além de artigos de jornal e ensaios, alguns deles Reunidos em livro.
Antunes é incluído, por vários autores, entre os membros do chamado “Grupo de Piracicabanos do Estadão”, também conhecido como “Turma de Piracicaba” e “Bloomsbury Caipira”, que atuaram na vida cultural da capital paulista como intelectuais influentes, a maioria pertencente ou influenciada pelo escritor e empresário Monteiro Lobato.
Jairo Ribeiro de Mattos escreveu, no número 1 de dezembro de 1991 da Revista do IHGP, o texto “David Antunes e Piracicaba”, tratando sobre a obra literária, mas principalmente, sobre o caráter e personalidade do escritor, que foi seu padrinho de batismo.
Antunes foi membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo e da Academia Campinense de Letras. Recebeu o título de Cidadão Piracicabano em 1965. Faleceu em 19 de novembro de 1969, tendo passado seus últimos anos sob os cuidados de sua sobrinha, Martha Antunes, na cidade de Campinas. O nome de uma rua na Vila Monteiro o homenageia.



