Piracicaba e James Joyce, parte 01
A singeleza de David Antunes teria alguma relação com cotidiano de epifanias de Joyce?
À esquerda: foto do escritor irlandês e dublinense James Joyce, tirada por volta de 1930, em Zurique, Suiça. À direita: foto de 1949, publicada no jornal “A Manhã”, do escritor brasileiro David Antunes, nascido em Santa Branca/SP, , autor de romances e novelas como “Bagunça”, “Briguela”, “Incenso e pólvora”, e o mais citado de todos, “Piracicaba”, ao menos por aqui.
Poucas cidades, fora as grandes capitais ou cidades importantes, possuem histórias que podem se chamar de suas. É fácil lembrar da Eneida, que descreve a fundação mítica de Roma; mais próximas de nós, “Brás, Bixiga e Barra Funda”, de Alcântara Machado, e a “Pauliceia Desvairada”, de Mario de Andrade, que se tornou apelido da capital paulista.
Virou lugar-comum dizer que tal e tal cidade não é só cenário, mas personagem, como “Roma, cidade aberta”, de Roberto Rosselini, a Tóquio de “Dias Perfeitos”, de Wim Wenders, ou a Nova York dos filmes de Woody Allen. Tanto, que Allen transformou o recurso em fórmula; vendeu a si mesmo como diretor capaz de traduzir cidades, como em “Vicky Cristina Barcelona”, ou “Meia-noite em Paris”. Independente da eficácia do recurso – que gerou tanto filmes bons quanto ruins - é triste ver criatividade transformada em rotina formulesca. Paciência.
Quando a atenção de um romance ou filme cai sobre uma cidade pequena, ou pouco conhecida, ou mesmo inexistente, o tom nessas histórias é de curiosidade, por vezes mórbida, centrada nos “tipos do interior”. Ou do litoral. Onde encontramos tipos curiosos, e vemos desfilar toda a miséria humana. Nesse tom, estão a Ilhéus de “Gabriela, Cravo e Canela”, de Jorge Amado, o citado livro de contos “Brás, Bexiga e Barra Funda” e a cidade inventada por Stendhal, Verrières, em “O Vermelho e o Negro”.
A Recife de João Cabral de Mello Neto, em “Morte e Vida Severina”, é lugar de dor, amor, sofrimento e alegrias, é trágica e ao mesmo tempo lírica. Nesta mesma vibração, lemos “Pauliceia Desvairada”, de Mario, em chave lírica.
Outro tropo é o do lugar esquisito, diferentão. É assim com a a Macondo de “Cem Anos de Solidão”, é assim com a Antares de Érico Veríssimo, que se vê cenário de um evento inusitado, quase um “Walking Dead” das paragens do sul brasileiro, com pitadas (fartas) de um realismo fantástico digno de García Márquez. E por aí vai.
Dizer que uma cidade é representante no formato “microcosmo” de toda a humanidade também virou lugar-comum. Talvez tenha sido James Joyce quem tenha dado a partida, na literatura moderna, para este chavão. Depende, é claro, do que chamamos “literatura moderna”: se olharmos para a “Comédia Humana” de Balzac, tanto Paris, quanto a França, e sua galeria interminável de tipos, podem abraçar a espécie humana toda, com folga, e ainda vão sobrar personagens com personalidades que talvez o próprio autor tenha criado, e que passaram a existir, de carne e osso, depois da publicação dos seus livros. Mas Balzac é típico de uma sensibilidade romântica que algumas vezes, temos dificuldade em adentrar, em compreender, não intelectualmente, mas emocionalmente. Joyce está mais próximo de nós, e por isso, usei o adjetivo “moderna”.
Em pelo menos dois dos seus livros, Dublin tem tanta importância quanto os tipos humanos que por ela desfilam (embora seja possível defender que Dublin está em toda a obra joyciana, de “Dublinenses” a “Exilados”, até “Finnegan’s Wake”. Adiante.). Em “Dublinenses”, a capital irlandesa é palco de histórias tão rés-de-chão quanto as do romance “Piracicaba”, de David Antunes, dos romances de Cecílio Elias Netto (“Um Eunuco para Ester”, “Bagaços da Cana”) e de Marly Germano Perecin (“Candeias em Espelho d’Água”, “O Encontro das Águas”, “Ypié”, “Rosarinho”). Histórias que poderiam se passar em muitas cidades do mundo, capitais, interiorianas ou à beira-mar - ou mesmo em Piracicaba.
Foi nesta edição que li “Dublinenses” da primeira vez. Em minha cabeça, imagino a Dublin de Joyce com a atmosfera da foto desta capa, edição da Civilização Brasileira.
Em “Dublinenses”, Joyce aplica seu recurso de “epifanias”, diferentes do significado comum da palavra, que descreve um encontro em pessoa com um deus ou deusa, ou com o sagrado, para Joyce esses episódios se dão na vida interior, vivenciados de maneira profundíssima – muito mais do que “cair uma ficha”, é mais como dar-se conta de que tudo o que já se viveu ou viverá é irrelevante, e “o momento sublime do agora” é vivido intensamente. A semelhança com a epifania tradicional é o sublime que toca a pessoa, algo de “outro mundo”, mas que ao contrário da epifania religiosa, vem de dentro e dentro se desenrolam, se desenvolvem e desabrocham. Essas epifanias originam-se de fatos comuns, como acontece em “Os Mortos” a Gabriel Conroy, que tem uma epifania sobre a Morte, quando sua esposa lhe conta sobre um namorado da juventude, Michael Furey, que morreu com dezessete anos. A ocorrência não recebe luz do transcendente exterior, e sim, de um transcendente interior, ou do divino que há dentro de nós: Santo Agostinho na veia. Forte sinal da formação de Joyce, católica até a raiz dos cabelos. Mesmo que a negue depois (declara-se até como inimigo da Igreja, e que luta contra ela), dela não irá se desvencilhar jamais (é só ler “Retrato do Artista quando Jovem”, a versão joyciana das “Confissões” de Agostinho, e você irá entender, ou quem sabe, já o tenha lido, e já saiba).
Mas embora a experiência aconteça como episódio da vida interior – como o monólogo interno famosíssimo, celebrado como marco da literatura moderna, uma verdadeira conquista, o “fluxo de consciência” de Molly Bloom, em “Ulisses” - embora eu a tenha descrito como originada da formação católica do autor, não é Deus, nem Jesus, nem a Virgem Maria, nenhuma outra figura sagrada do panteão católico, que dá origem a essas epifanias – e sim, de forma moderníssima, o próprio indivíduo, cabendo ao fato cotidiano somente o estopim, o que acende o pavio da explosão. Afirma-se de maneira quase solipsista (algo a que Samuel Beckett, anos depois, alcançará, chegando ao limite possível da representação da autoconsciência, na literatura ocidental, na beira do precípicio da dissolução do ego), quase dizendo que ao eu basta o próprio eu, que não é necessário um ser transcendente, externo ao ego, para se ter uma experiência sublime, próxima do misticismo - mas sem Deus, se é que isso é possível.
Enquanto escrevo isto tudo, chegando a conclusões inéditas para mim mesmo antes de sentar-me para escrever este artigo, penso se é verdade mesmo que as histórias de “Dublinenses”, com as devidas cores locais ajustadas, poderiam se passar em qualquer outra cidade do mundo, quem sabe até mesmo Piracicaba. Quem disse isso primeiro foi Ezra Pound, em 19351, e não eu; evidentemente, sem a referência à Noiva da Colina.
O que talvez seja possível afirmar é que as histórias, sem suas conclusões epifânicas, sejam possíveis de serem transplantadas para qualquer lugar. A festa da Noite de Reis, em “Os Mortos”, poderia ser uma das festas da casa de Arthur e Marta, os protagonistas de “Piracicaba”, de Antunes. Mas seria outra festa, e outros os resultados: é impossível imaginar a cena final entre Gabriel Conroy e Gretta no romance de Antunes, e talvez em qualquer outra obra literária piracicabana, com a possível exceção de Cecílio Elias Netto – que, curiosamente, sempre declarou não conseguir ler o “Ulisses”, cuja edição, comprada nos anos 1960, tenta ler a cada cinco anos, mas que a leitura nunca desembucha.
De fato, várias festas são descritas em “Piracicaba”, mas nenhuma tem desenlace com qualquer cena picante, muito menos com epifanias ou filosofia de qualquer espécie. O máximo que podemos esperar são as piadas do Lucianinho – um tipo que se poderia esperar em qualquer livro de Lima Barreto ou Orígenes Lessa. Deste último, podemos até pensar em ecos da vida aborrecida do protagonista de “O Feijão e o Sonho”, o poeta Campos Lara, quando se muda com a família para uma cidade do interior, que poder-se-ia dizer, é uma das “Cidades Mortas” de Monteiro Lobato. Uma daquelas cidades que Lobato descreve como possuindo um único exemplar do romance “As Aventuras de Rocambole”, de Ponson du Terrail, repleto de personagens curiosos, e que circula pelas casas dos moradores daquele lugar esquecido pelo mundo...
1 Pound, Ezra (1935). “Dubliners and Mr James Joyce,” Literary Essays of Ezra Pound. London: Faber and Faber. p. 401. disponível para consulta em <https://archive.org/details/in.ernet.dli.2015.504260/page/n7/mode/2up>




