Piracicaba e James Joyce, parte 02
Antunes não tinha senso trágico em sua literatura, algo que iria aparecer somente na obra de Cecílio Elias Netto
Vejamos como podemos comparar a escrita de James Joyce e o romance “Piracicaba”, de David Antunes, se é que podemos. Pois pode parecer muito injusto comparar um autor reconhecido mundialmente, reformador não da religião católica, mas um Lutero da literatura moderna; e Antunes, um autor desconhecido hoje, que alcançou uma relativa visibilidade nas décadas de 1930 a 1950.
Joyce tem um dia celebrado em todo o mundo, por seus fãs, relembrando o dia que é descrito em “Ulisses”, o chamado “Bloomsday”, todo dia 16 de junho (que aliás, foi por estes dias; exatamente no dia 16, estávamos mais preocupados com a Copa do Mundo; aliás, foi uma bela partida da Argentina contra Senegal e uma atuação impecável, magistral, de Messi). E é incensado como um dos maiores escritores modernos, ao lado de Kafka, Freud, Proust, Beckett. Alguns críticos arriscam dizer que é o maior entre todos.
Antunes corre o risco de ser lembrado, hoje, somente em Piracicaba, justamente pelo romance que tem o nome da cidade como título. Embora tenha escrito outros livros - “Bagunça”, “Incenso e Pólvora” (que se passa na Revolução de 1932), “Briguela”, “Obsessão”, e outros ainda mais esquecidos. Não só por curiosidade, mas porque os méritos do romance curto, ou novela, “Piracicaba”, costumam ser apontados mais como históricos do que literários pelos dois ou três gatos pingados que escreveram sobre Antunes e sua obra, por aqui.
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Provavelmente, mais do que a alma de Dublin, nos contos de “Dublinenses” ou no romance “Ulisses”, seja a alma de James Joyce que esteja ali descrita. Mas, coincidência ou não, os tormentos da alma de um pretendente a escritor que se contorce entre as concepções da mentalidade católica vigente na Irlanda do início do século XX (e que define, até hoje, a própria identidade do país) e a modernidade que, necessariamente, dela se distancia, são os mesmos tormentos da alma do Homem moderno de sua época, e de novo, sem coincidência, da alma de um distante país tropical do hemisfério sul.
Como disse no primeiro artigo que as histórias de “Dublinenses” poderiam se passar em qualquer cidade do mundo, mesmo Piracicaba. Com certeza, houve epifanias do tipo joyciano em Piracicaba, mas, se houve, disso não saberemos lendo romances como “Piracicaba” de David Antunes, ou os livros de Tales Castanho de Andrade, ou mesmo os de Marly Germano Perecin ou até os de Cecílio.
Não me entendam mal: isto não é uma crítica negativa, como uma cobrança do tipo: “não tem, mas deveria ter”. Creio que cada autor tem lá seus interesses, seus objetivos, com a escrita. Como o próprio Cecílio diz não gostar de Joyce, nem de Guimarães Rosa, por se preocuparem tanto com a linguagem, que deixam de lado o prazer que seus livros poderiam provocar no leitor. Não diz, mas poderia dizer até que causam sofrimento, pela necessidade de consulta a dicionários ou gramáticas. Cada um escreve o que pensa e pensa aquilo que quer. Cecílio não é diferente, nem por isso é pior ou melhor que Joyce. Suas qualidades – e defeitos - são outros.
Marly Perecin tem como objetivo, em seus romances, construir ambientes, mais que personagens, onde possa tratar daquilo que mais ama – a História não só de Piracicaba, mas de toda a saga da ocupação das cidades do Vale Médio do Tietê, entre os séculos XVII e começo do XX. Por isso seus personagens são pouco mais que expositores de mentalidades e ações próprias de cada época retratada, e não tipos humanos marcantes, como poderíamos esperar de romancistas interessados em traçar retratos de personalidades. Mas sua contextualização histórica é monumental, descendo a minúcias – mais que uma cidade, Marly Perecin trata épocas como personagens.
Poderíamos dizer o mesmo de David Antunes, no único romance que trata de uma época diferente da que escreve realizado pelo autor. Mas o tratamento de Antunes é outro: ele não é historiador, e não possui a ânsia de rigor nem de reconstituição histórica e antropológica que move Perecin. Antunes é memorialista, e sua matriz é literária: percebe-se uma preocupação em descrever personagens, ou melhor, de criar grupos de personagens curiosos, nos quais se movem pessoas e histórias. O autor, no entanto, parece um tanto inconsciente de que está tão preocupado em tecer grupos sociais, a fim de tratar de uma cidade toda como um ambiente peculiar de uma determinada época, que se esquece, na maior parte da história, de criar uma história interessante que mova o romance para a frente. É mera descrição, na maior parte do volume, do dia a dia da família Cardoso, seus desentendimentos com o vizinho, ferrenho republicano, e suas reações à Abolição da Escravatura e da Queda do Império.
O que se nota é um hábil artesão que gosta de contar a história de vida de cada um dos seus tipos humanos, os cacoetes e manias de determinadas personagens. Mas não se espere nenhum “romance de ideias”, nem um “romance de formação” de Eliana.
Se Bentinho toca a própria Beleza (episódio que Joyce chamaria de epifanias) quando, adolescente, escova os longos cabelos de Capitu, nada disso pode ser encontrado em “Piracicaba”. Há histórias de dar pena, quando o preto Liberato some, imediatamente após ser libertado, junto com todos os outros escravizados, quando da promulgação da Lei Áurea. O que causa pena é a sua mãe, que insistentemente o procura, pois em meio aos festejos dos pretos recém-libertos, ele some e ela não sabe se ele morreu por conta de algum excesso, ou se mudou para outro recanto.
Esperem-se episódios deste tipo, que mostram a vida de uma família de classe média alta da Piracicaba do final do século XIX e emolduram a resposta romanceada a uma pergunta que o próprio Antunes deve se ter feito: “como os piracicabanos reagiram à Abolição e à Proclamação da República”?
O que poderia cobrar, talvez, seja uma percepção, uma sensibilidade que não aparece na “novela de bons costumes” de Antunes, mas sim no romance “Bagaços da Cana”, de Cecílio: o senso de que escolhas do dia a dia podem ter consequências imensas, e inimagináveis, para além da pessoa que fez essas escolhas. Os personagens de “Piracicaba” não têm nenhum senso trágico, como o preto Liberato, ou a filha única do casal Cardoso. Ambos fazem escolhas que poderiam ser exploradas de maneiras muito mais avassaladoras; é verdade que muitas vezes essas escolhas não repercutem assim tão profundamente na nossa vida real, concreta. Mas um romance não é a vida real, e não precisa ter as mesmas regras de escrita que a vida tem, como James Joyce tornou-se careca de tanto saber, ou melhor, perceber. Mas ele também sabia que, às vezes, a vida se torna absurda, e o que parecia arte torna-se real: por isso, a verossimilhança, aquela qualidade que nos convence que uma representação é realista, nos convence não pelo tipo de evento que descreve, e sim, pela forma que o faz.
Por isso, os eventos que poderiam gerar uma história mais interessante estão presentes, todos, em “Piracicaba”, mas nenhum deles é tratado pelo autor como nada mais que eventos curiosos, que poderiam se comentar assim: “olha só que curioso, o que as pessoas daquele tempo fizeram, o que disto falaram, ou deste modo reagiram”.
É encantador passear pelas ruas de Piracicaba na década de 1880, ler as descrições de uma casa de classe média do centro da cidade nesta época, e mesmo a descrição de uma casa de família pobre, como faz o autor, é interessantíssima. E são curiosas e engraçadas as descrições dos saraus na casa dos Cardosos, as tiradas de Lucianinho, as festas como o Carnaval...
Possível dizer, por estarmos em plena Belle Époque, especialmente na segunda metade do livro, uma época associada geralmente a tranquilidade, refinamento e cultura, que nada mais agitado poderia acontecer, que suscitasse epifanias ou reflexões metafísicas, ou mesmo, filósoficas, embora de ordem menor. Diferente do período conturbado que é contexto de “Bagaços da Cana”, plena ditadura militar, com perseguição política. Mas não se trata disso: é muito mais importante falar do assassinato de Almeida Júnior, um crime passional que causou escândalo, do que da eventual repercussão da Revolta de Canudos, que foi reprimida a mando do “presidente piracicabano” Prudente de Moraes...
Por fim, o livro trata a religião católica de forma muito moderna, ou seja, com uma indiferença exemplar, sua adoção sendo um fato natural, e a observação das suas ocorrências fossem dados antropológicos, embora profundamente enraizado no imaginário popular do país. Joyce encara o catolicismo de frente, como um dado entranhado na cultura irlandesa de forma, talvez, desentranhável. Será um fantasma que o perseguirá por toda a vida, algo que renega mas do qual não consegue se desvencilhar, e por isso nem tenta, incorporando-a às suas histórias como algo natural, mas sempre como um espinho. Por isso, zomba da religião em vários pontos de suas narrativas, sendo a cena de abertura de “Ulisses” um bom exemplo disto.
Em “Piracicaba”, em vários pontos da história, as devoções estão ligadas às pessoas simples. Pessoas de cultura são mundanas, e somente os empregados da casa, primeiro escravizados, depois assalariados, assim como “beatas”, ligam-se à religião de forma sincera – e por isso, encarados como ingênuos. Por isso, o desfecho do romance causa surpresa, pois se o casal era tão “esclarecido”, com uma cultura digna de pessoas cultas do final do século XIX, que não se apegava a crendices, embora professassem a religião católica e fossem até monarquistas, religiosos sem serem beatos nem devotos, não se espera, nem tem muita lógica, o destino de Eliana, sua filha única, episódio que fecha a história e o volume.



