Piracicaba e seus apelidos poéticos (e um deles nem tanto)
Apelidos mostram o carinho e pertencimento à cidade, como “Noiva da Colina” e “Pira”
Cidades, assim como pessoas, grupos e até países, recebem apelidos. O apelido é informal, a maior parte das vezes carinhoso. Em alguns casos, não muito. A maioria é descritiva, para bem ou para mal, e acabam falando de como as pessoas enxergam o local.
Os nomes que o povo lhes dá, descrevendo o ponto como referência, como Monjolinho, Pau d’Alho, Tijuco Preto (“tijuco” é de origem indígena e significa “atoleiro, brejo”, lugar sujo e mal-cheiroso) podem se tornar os seus nomes oficiais.
E também “Pirassicava”, “Piraçicava” ou “Piracicaba” (“lugar onde o peixe para, se ajunta”), referindo ao local próximo da cachoeira em que os peixes se juntam e pulam por cima, rumo à nascente, na época da piracema. Este tipo de nome, descritivo do local, é o mais comum no mundo inteiro.
Outras vezes, são diminutivos ou até siglas que se tornam populares: “Sampa” (São Paulo), “Floripa” (Florianópolis), “BH” (Belo Horizonte). Em nossa cidade, “Pira” tornou-se corrente há mais ou menos uns 30 anos.
Os apelidos têm sentido carinhoso, revelam intimidade com o lugar e para muita gente, marca seu pertencimento à cidade.
Escritores, poetas ou prosadores, artistas, jornalistas e políticos, há séculos apelidam localidades com “nomes poéticos” ou títulos, que pretendem elogiar, ou também, denegrir. “Cidade Maravilhosa” (Rio de Janeiro), “Terra da Garoa” ou “Pauliceia Desvairada” (São Paulo), mas também “Atenas Brasileira” (São Luís do Maranhão), “Veneza Brasileira” (Recife), “Cidade das Andorinhas” (Campinas”, e muitos outros.
Vamos conferir alguns dos apelidos, alcunhas e expressões dos quais Piracicaba já foi chamada, ou ainda é. Todos elogiosos, menos um.
Primeiros apelidos
“Joia de São Paulo”, foi a forma como José de Alencar referiu-se a Piracicaba em seu romance “Til”, publicado em 1872, que se passa numa fazenda da região (hoje em Santa Bárbara d’Oeste). Talvez tenha sido o primeiro cognome poético, o primeiro apelido, dado à cidade – que não “pegou”.
A ideia da “joia” pode ter inspirado o apelido “Pérola dos paulistas”, que é noticiado pela historiadora Marly Germano Perecin e pelo jornalista Cecílio Elias Netto, mas do qual não encontramos, ainda, referências documentais.
O nome poético mais recorrente e ainda hoje usado é o de “Noiva da Colina”, criado pelo então promotor público em Piracicaba, dr. Brasílio Augusto Machado de Oliveira, no poema “Piracicaba”, publicado em 1876 no livro “Madressilvas”, e em 01/08/1886 no jornal Gazeta de Piracicaba, que começa assim:
Sacode os ombros nus, ó Noiva da Colina,
Que a luz da madrugada encheu o largo céu;
E arranca-te das mãos o manto da neblina,
Que ondula sobre o rio, enorme e solto véu.
Machado criou a imagem da cidade como noiva e do véu da noiva, a partir da neblina que emergia do salto do rio Piracicaba ao amanhecer. As imagens da noiva e seu véu ainda são usadas por poetas, músicos, literatos e artistas visuais como símbolos da cidade. Um exemplo é a “Noiva da Colina” mostrada junto a um bandeirante e cortadores de cana, no mural de mosaico de autoria de Clemência Pizzigatti e alunos, retratando poeticamente a história de Piracicaba no Parque do Mirante (1978).
“Niágara Paulista” é apelido menos recorrente. A referência são as Niagara Falls, famosas cataratas do estado de Nova York, nos EUA, e sua relação com o Salto do rio Piracicaba. O seu uso deve-se, talvez, ao fato do Barão de Rezende ter alterado o nome da “Empresa do Engenho Central” para “Companhia Niágara Paulista” em 1891. O seu uso é noticiado por Cecílio Elias Netto em artigo do jornal “A Província”, em que conta ter sido usada a expressão em um cartão postal, do qual é proprietário, com uma foto do Salto, data não informada. Embora haja muitas referências na imprensa paulista da década de 1890 à companhia do Barão de Rezende, não encontramos na pesquisa o uso do apelido aplicado a Piracicaba.
Ateneu e Atenas: confusão entre escritores e pintores
Roberto Capri, empresário e viajante, escrevia livros cujo assunto eram cidades ou estados do Brasil, no início do século XX, espécies de “almanaque”, mas com verniz de respeitabilidade bem maior. Tanto, que ele lhes dava o nome de “Livro de Ouro”. Eram sempre elogiosos, pois seu objetivo principal era o de vender anúncios de empresas do local.
Em 1911, no “Livro de Ouro de Piracicaba”, Capri cunha um dos cognomes mais honrosos e também um dos que mais causaram confusão:
“Piracicaba pode se orgulhar de ser uma das cidades paulistas onde a educação é tida em altíssima conta; pode se considerar o ‘Ateneu Paulista’”
O grifo nosso, e a tradução também; o original está em italiano.
Em Atenas, na Antiguidade clássica, havia um local consagrado a Palas Atena, deusa grega das letras, das artes e da sabedoria, onde os poetas e literatos liam suas obras, chamado Ateneu. Por ser um local onde também professores particulares davam aulas, o termo passou a designar estabelecimentos de ensino.
Devido ao grande número de escolas no início do século XX, incomum para uma cidade do interior na época (40 escolas em 1912), Capri associa Piracicaba ao epíteto clássico. Ficou implícito, mais tarde, também a quantidade de escritores, principalmente da geração do “Grupo de Piracicabanos do Estadão”, do qual fizeram parte Leo Vaz, Brenno Amaral, Sud Mennucci, Mario Neme etc., todos piracicabanos ou ligados fortemente à cidade, e que tiveram êxito em carreiras literárias na capital paulista.
Com o tempo, trocou-se o substantivo “Ateneu” por “Atenas paulista”. A historiadora local Marly Perecin já apontou este uso como uma confusão, uma citação corrompida que sustituiu “Ateneu” por “Atenas”. Mas a expressão acabou consagrada pelo uso, mesmo errada.
Os artistas e os políticos utilizam a expressão com muita frequência. A distorção de “Ateneu” para “Atenas”, porém, reflete uma noção que encontrou eco numa percepção coletiva: Piracicaba seria uma terra de artistas plásticos (especialmente pintores) com quantidade e qualidade similares ao da Atenas clássica.
A arte acadêmica, que se baseia na herança clássica, e com presença forte entre nós por conta de pintores como os irmãos Dutra, a família Thomazi, Joaquim de Mattos, etc., justificaria este apelido. Por extensão, todos os artistas, de todas as correntes e filiações, também se incluem nesta imagem de uma cidade com atividade artistica incomum.
De modo algum, no entanto, o apelido é único ou original. A expressão foi usada antes de ter sido aplicada a Piracicaba, e é usada até hoje, para elogiar outras cidades. A diferença é a evocação de Atenas quanto aos seus escritores, e não aos artistas visuais.
Assim, São Luís do Maranhão é a “Atenas Brasileira”, Iguaçu, no estado do Rio de Janeiro, a “Atenas Fluminense”, Juiz de Fora a “Atenas Mineira”, Cachoeiro de Itapemirim a “Atenas Capixaba”, Palmares a “Atenas Pernambucana”, Viçosa a “Atenas Alagoana” e assim por diante.
O uso da expressão “Atenas Paulista”, na primeira metade do século XX, não era exclusivo de uma só cidade no estado de São Paulo. Praticamente, qualquer cidade na qual houvessem escritores e se desejava elogiar, era utilizado o título. Os exemplos são abundantes, principalmente quando se consultam jornais e revistas. Na edição 4 da Revista da Academia Paulista de Letras de 1941, o termo “Atenas Paulistas”, no plural, é empregado para falar de várias cidades que teriam vocação para as letras, uma delas sendo citada como Araçatuba.
As cidades de Jacareí e Jaboticabal também foram chamadas pelo cognome de “Atenas Paulista” e ambas ainda conservam o título. Encontramos também muitos artigos de jornal na hemeroteca da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro que se referem a Campinas pelo título “Atenas Paulista”, do início do século XX até meados da década de 1950, em uma época em que não era aplicado a Piracicaba. Itapetininga é chamada de “Atenas do Sul Paulista”.
O primeiro uso do apelido, referindo-se à Piracicaba, foi encontrado com data de 1940. Silveira Peixoto, escritor paulistano que foi amigo de Sud Menucci, Léo Vaz, Carlos Sodero, intelectuais da “Grupo de Piracicabanos do Estadão” ou “Bloomsbury Caipira”, utiliza a expressão quando escreve sobre Léo Vaz em seu livro “Falam os escritores”:
“De sua vida de estudante, nessa Atenas dos paulistas que é Piracicaba...”
A percepção dos piracicabanos é de que o apelido é antigo, ou seja, teria sido usado desde o início do século XX, pelo menos. Mas a expressão não é encontrada nem mesmo na tese de doutorado, defendida em 1972 pelo professor Arquimedes Dutra, líder dos artistas acadêmicos da cidade.
Somente em 1981 há novo registro do uso do apelido. O crítico de arte fluminense Walmir Ayala, amigo do médico e também crítico de arte piracicabano Umberto Cosentino, em artigo do “Jornal do Commercio”, do Rio de Janeiro, utiliza a expressão “Atenas Paulista” no título do artigo. Ayala afirma que “a efervescência cultural apresentada hoje por Piracicaba, na música, nas letras e, sobretudo, nas artes plásticas, dá a certeza de que ela retoma, com força e brilho, o seu cognome de Atenas Paulista”. O texto foi publicado em 08/03/1981, e depois comentado pelos jornais piracicabanos “Jornal de Piracicaba” em 13/03/1981 e “O Diário”, em 14/03/1981.
Celeiro de artistas
O aumento da atividade cultural e artística que Piracicaba viveu, a partir da década de 1990, leva à retomada do apelido “Atenas Paulista” e à adoção de outro, como um reforço da ideia.
Encontramos a expressão “celeiro de artistas” e sinônimos como “celeiro das artes”, “celeiro de talentos” etc., a partir daquela década.
A expressão, muito usada em todo o Brasil, foi muito utilizada no meio político, no executivo e legislativo, ao lado da “Atenas Paulista”, quando pretendeu-se falar de um ambiente propício à origem de novos artistas, mas também reforçou a ideia de uma tradição artística local antiga.
No requerimento de 09 de março de 1995 da Câmara de Vereadores, o vereador Luiz Dias dos Reis envia congratulações à Escola de Música de Piracicaba - EMPEM:
“São orgulho para Piracicaba tantos anos de arte instrumental distribuindo a beleza imorredoura da sonoridade musical, promovendo tantos e tão gloriosos festivais, trazendo para levarem o calor das palmas, o apoio da cultura, a admiração das inteligências, a graça dos sons extraídos da variedade de instrumentos.
Por isso é justo e inadiável que a Casa da representatividade popular piracicabana, se irmane ao júblio [sic] à Casa da representatividade musical desta terra, celeiro de cultura e arte e que já sustentou o honroso título de Atenas Paulista. [os grifos são nossos.]”
Encontramos a expressão “Celeiro de talentos” no título do texto, presente no catálogo do 31o Salão Internacional de Humor de Piracicaba, em 2004, de autoria da diretora do CEDHU – Centro Nacional de Humor Gráfico, Maria Ivete Araújo.
Quem consagrou o seu uso, no entanto, foi a sra. Rosângela Camolesi, secretária municipal de Ação Cultural entre 2005 e 2020, que utilizava-se bastante da expressão, em textos na imprensa local e discursos. Por causa disto, o uso da expressão aumentou no período, usado por outros personagens da cena cultural na cidade.
Um exemplo: na edição 07 da revista local Tutti Estilo, de maio de 2013, em matéria sobre exposição da artista Denise Storer: “Denise é bastante otimista em relação às artes na cidade. ‘Piracicaba sempre foi um celeiro de excelentes artistas’ [grifo nosso]”.
Percebe-se, pois, que as ideias de Piracicaba como um “celeiro de artistas” e suposta “Atenas Paulista” são, na verdade, muito recentes, ou pelo menos é o seu uso registrado na imprensa e literatura.
Títulos menos usados
Há apelidos que são usados de forma menos frequente, mas que reforçam as qualidades da cidade. “Florença Brasileira”, ou paulista, associa a cidade à artes, como faz “Atenas Paulista” e “celeiro de artistas”. A ideia é compará-la com a capital do Renascimento italiano, ligando a tradição piracicabana de artistas acadêmicos à dos mestres florentinos. Seu uso foi consagrado pelo jornalista Cecílio Elias Netto, no livro “Piracicaba, a Florença Brasileira”, de 2017.
“Capital da Cana-de-Açúcar” e “Vale do Agronegócio” enfatizam o agronegócio, setor fortíssimo e no qual a cidade é referência nacional e internacional, por conta da Esalq e da atividade econômica sucroalcooleira.
E o título depreciativo “Amsterdam Paulista” foi cunhado por uma reportagem da TV Globo, levada ao ar em 1984, comparando a liberdade do uso de drogas entorpecentes na cidade holandesa com a atividade do narcotráfico em Piracicaba na época, abordado pela matéria televisiva.
Sempre “Noiva da Colina”
Piracicaba sempre será a “Noiva da Colina”, enquanto durar o Salto e o rio Piracicaba (parafreseando Octavio Prates, na primeira charge publicada em Piracicaba, em 1917), integrados à paisagem da cidade que cresceu ao seu redor.
Como diz a música “Minha Noiva sem rival”, de autoria do músico piracicabano Chicoca:
Meu berço amado de belezas mil
Entre as noivas ela é a mais linda
Sobre uma colina, sob um céu anil
E a canção “Madrugada Piracicabana”, de frei Marcelino de Angatuba:
Piracicaba, Noiva da Colina,
Quando a neblina cobre o teu luar,
Também te envolve no teu véu macio
Que sai do rio como de um tear.
(Curiosamente, o “Hino a Piracicaba”, de autoria de Newton de Mello, não faz nenhuma menção à imagem da noiva).
O apelido poético “Noiva da Colina” e o poema que lhe deu origem, publicado em 01 de agosto de 1886, faz aniversário da publicação em jornal de 140 anos em 2026.





