A história do "Piso Paulista", presente nas calçadas e na memória
Mirthes Bernardes não recebeu reconhecimento público nem suficiente retorno financeiro pela criação
O desenho que tornou-se o padrão de calçamento das vias públicas da cidade de São Paulo, e depois, em todo o estado, hoje é um ícone tão reconhecível quanto as ondas da calçada de Copacabana ou os arcos de Niemeyer, em Brasília. Mas se perguntarmos a qualquer um, incluindo designers, arquitetos e artistas, se sabe o nome do autor ou autora do desenho, é quase 100% certo que a pessoa responda “não”.
Pois a autora do desenho do “calçamento paulista”, também conhecido como “piso paulista”, que em 2026 completa 60 anos, é a artista plástica Mirtes dos Santos Pinto, que utilizava o nome de Mirthes Bernardes. A criadora do ícone paulistano ainda carece do devido reconhecimento, assim como a designer Chu Ming Silveira, criadora do Orelhão.
Agora, um artigo publicado na revista Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material revela o apagamento de sua autora, Mirthes Bernardes. O trabalho foi baseado em documentos oficiais, recortes de jornais das décadas de 1960 e 1970 e entrevista com o sobrinho de Mirthes, Cid Freitas.
A artista, natural da cidade de Barretos/SP, nascida em 1934, formada em Pedagogia e Serviço Social, era desenhista arquitetônica da Secretaria de Obras da prefeitura de São Paulo. Em 1965, o prefeito da capital, Vicente Faria Lima (1965 a 1969), abriu um concurso que premiaria um desenho que identificasse visualmente a metrópole, e que estivesse no mesmo nível de ícones famosos, como a calçada de Copacabana já citada. O chefe de Mirthes, vendo um esboço do desenho, insistiu com ela que se inscrevesse no concurso, o que ela, a princípio, rejeitou, por considerá-lo muito simples. O seu desenho, porém, ficou entre os quatro finalistas e acabou por ganhar o certame.
“Um dos dias marcantes na trajetória de Mirthes foi quando ela viu estampado no jornal Folha de S.Paulo o resultado do concurso, em que seu projeto tinha sido escolhido como proposta vencedora, embora a publicação não tenha mencionado o seu nome em nenhuma linha”, relata Cid Freitas ao designer Pablo Figueiredo, um dos autores do artigo e mestre pela Faculdade de Arquitetura, Urbanismo e Design (FAU) da USP, sob a orientação do professor Leandro Manuel Reis Velloso e segundo autor do artigo.
A pesquisa também revela os bastidores que envolveram o calçamento paulista, como detalhes sobre as etapas do concurso, críticas à iniciativa do prefeito, imagens dos desenhos finalistas e informações sobre seus autores.
Segundo Figueiredo, “a omissão da autoria do projeto se repetiu em um memorando da Prefeitura, no qual Faria Lima descreveu o projeto vencedor referindo-se à autora apenas como “funcionária” da Prefeitura, sem citá-la nominalmente”.

Segundo informações do sobrinho Cid Freitas, tornou-se servidora da Prefeitura de São Paulo, onde atuou como desenhista e produziu algumas obras em cobre esmaltado. O sobrinho relatou que entre 1966 e 1967, sua tia foi incentivada pelos colegas da Prefeitura a fazer o pedido de patente de desenho industrial e de direitos autorais.
Na imprensa, o padrão de calçamento recebeu diferentes nomes: calçada com o mapa estilizado do Estado de São Paulo; calçada mapa de São Paulo; e piso paulista.
As quatro propostas finalistas foram aplicadas em trecho de calçada na Rua da Consolação, na técnica do mosaico de pedras portuguesas. Os outros trabalhos que concorreram com o de Mirthes foram desenhos estilizados de grãos de café, do arquiteto Raul Fagundes; outro com setas, do arquiteto Gilberto Caldas, representando sentido de direção, e uma quarta proposta anônima, que buscava representar o panorama urbano da capital composto de vales, pontes e viadutos. O prefeito convidou os jurados a visitar o trecho com os calçamentos, e Mirthes esteve presente, embora não tenha se identificado aos presenters. Segundo Freitas, Mirthes soube do resultado pelos jornais — inclusive pela reportagem da Folha de S.Paulo que, apesar de ter sido o único jornal que se posicionou a favor apenas de sua proposta, não mencionou seu nome.
Calçamento paulista
A primeira via a receber a nova padronização de calçamento foi a Rua da Consolação, devido a um projeto já aprovado anteriormente de seu alargamento. Em comunicados feitos pelo prefeito Faria Lima ao seu secretário de Obras, José Meiches, ele demonstrava preocupação em relação aos detalhes das obras e em desenvolver uma identidade urbana distinta para São Paulo.
Depois da Rua da Consolação, a Avenida Ipiranga e a Rua São Luís receberam o calçamento, seguidas da Rua Amaral Gurgel, Avenida Indianópolis e Avenida Rubem Berta. Em visita às obras, Faria Lima anunciou que pretendia adotar o mesmo calçamento de pedras portuguesas em outras obras do município.
Depois do término do mandato de Faria Lima (1969), sob a nova Constituição imposta pelo regime militar, Paulo Salim Maluf foi nomeado o novo prefeito de São Paulo, que alterou o material das calçadas de pedra portuguesa para ladrilho hidráulico. Foi somente após o fim do mandato de Paulo Maluf que Mirthes teve concedida sua patente de desenho industrial, em 27 de janeiro de 1972, e seus direitos autorais, em 7 de julho de 1981.
Logo depois do término de seu mandato, Faria Lima faleceu em setembro de 1969 e, em homenagem póstuma, uma grande avenida que se chamava Radial Oeste foi rebatizada com seu nome, recebendo também o calçamento paulista em versão adaptada para ladrilho hidráulico.
Preservação do calçamento paulista
O designer e pesquisador da USP lembra que São Paulo não mantém o mesmo cuidado com seus calçamentos que o Rio de Janeiro. Enquanto o piso de Copacabana, revitalizado por Burle Marx, é tombado e reconhecido como patrimônio cultural em âmbitos estadual e municipal, na capital paulista não houve iniciativas semelhantes. “Obras recentes no centro de São Paulo têm substituído trechos do antigo calçamento por pavimentação cimentada”, alerta Pablo Figueiredo.
Segundo Leandro Velloso, a redescoberta da história do calçamento paulista expõe não apenas os bastidores de sua criação, mas também a ausência de reconhecimento à mulher responsável por um dos símbolos urbanos de São Paulo. “Ao recuperar documentos, entrevistas e memórias, a pesquisa ilumina a contribuição de Mirthes Bernardes e amplia a historiografia desse ícone urbano cuja história é tão pouco conhecida pelos próprios paulistanos”, avalia o professor da FAU.
Reconhecimento
Mirthes lamentava-se por não ser devidamente reconhecida pela autoria do “piso paulista”. Enquanto Burle Marx seja um dos designers e paisagistas reconhecidamente importantes do Modernismo brasileiro, a artista não é nem mesmo conhecida, nem sua obra, nem mesmo seu nome, entre os paulistanos que devem a ela um dos seus ícones mais marcantes.
Em 2007, foi tema de samba-enredo da Escola Mocidade Alegre, de São Paulo. Em 2015, a artista foi homenageada pelo grupo Mosaico Paulista, através do “Projeto Escadaria Mirthes Bernardes”, localizada na R. Joaquim Antunes, no bairro de Pinheiros, na capital. Este projeto teve apoio da Associação de Moradores da Rua Joaquim Antunes (ANJA) e da Quartzolit. Nesta escadaria o grupo instalou mosaicos no formato do “Piso Paulista”.
Embora ainda se encontrem muitas referências ao calçamento paulista e à história de Mirthes na internet, em que se citam matérias onde ela lamenta não ter recebido o reconhecimento da autoria nem pagamento de direitos autorais, o estudo publicado na Revista do Museu Paulista mostra (como citado acima) que ela registrou a patente do desenho e também o reconhecimento judicial para receber pagamento de direitos autorais.
Mirthes Bernardes faleceu em 18 de dezembro de 2020, vítima de um câncer, aos 86 anos.
O artigo “Resgate histórico sobre a origem das calçadas com desenho geográfico do estado de São Paulo projetadas por Mirthes Bernardes” pode ser lido na Revista “Anais do Museu Paulista” clicando aqui.






