Plataforma orienta profissionais do esporte sobre riscos da manipulação de resultados
Material produzido na Faculdade de Direito de Ribeirão Preto da USP reúne orientações para atletas, árbitros e comissões técnicas sobre prevenção de fraudes, legislação e canais de denúncia
O crescimento das plataformas de apostas esportivas no Brasil transformou a relação dos brasileiros com o esporte e abriu um mercado bilionário. Ao lado das novas oportunidades de negócio, porém, surgiu um problema que ameaça um dos pilares das competições: a confiança nos resultados. Em meio ao aumento dos casos investigados por suspeita de manipulação de partidas, um projeto de extensão da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto (FDRP) da USP deu origem a uma plataforma educativa para ajudar atletas, árbitros e integrantes de comissões técnicas a reconhecer situações de risco e agir antes que a fraude entre em campo.
Disponível gratuitamente na internet, a plataforma Integridade nas Apostas Esportivas reúne uma cartilha educativa, quiz interativo, notícias, artigos e um compromisso público com a integridade esportiva. A iniciativa nasceu da pesquisa de doutorado da jurista Reila Cabral Sasso sobre a regulamentação das apostas esportivas no País, sob orientação do professor Gustavo Assed Ferreira.
“O projeto de extensão tem como pilar o propósito educativo. A partir desse propósito, nós pensamos na cartilha. Ela estava no DNA do projeto desde o início”, afirma Reila. “A semente inicialmente era educar, e a cartilha foi o veículo. Esse veículo foi ficando cada vez maior por meio da plataforma digital.”
A plataforma surgiu da percepção dos pesquisadores de que uma publicação tradicional não seria suficiente para alcançar o público-alvo. “Vimos que apenas a cartilha, em um formato em PDF, não alcançaria tanta gente. Então, a ideia foi criar uma plataforma digital completa”, conta Reila.

Aprendizado contínuo
Além do material educativo, o portal oferece ferramentas para estimular o aprendizado contínuo. “Cada ferramenta incluída na plataforma cumpre uma função. A cartilha informa, o quiz interativo fixa o conteúdo e o compromisso transforma conhecimento em decisão”, afirma a pesquisadora.
A necessidade de criar o projeto ficou evidente diante das operações que investigaram esquemas de manipulação de resultados no Brasil. Casos como Penalidade Máxima, Fim de Jogo, Impedimento e Sport Fixing revelaram padrões recorrentes de aliciamento e demonstraram que muitos profissionais do esporte não sabem identificar uma abordagem suspeita. “Geralmente, o atleta é abordado por alguém conhecido, muitas vezes um ex-colega de vestiário ou pessoas que transitam no meio do futebol. As propostas nem sempre parecem ilícitas; muitas vezes, elas são apresentadas como oportunidades”, relata Reila.

Segundo a pesquisadora, esse desconhecimento pode ter consequências importantes. “Ele nem sempre reconhece que aquilo é uma corrupção esportiva, que é um crime, e também não sabe quais condutas adotar diante dessas propostas.”
A cartilha procura justamente preencher essa lacuna. Dividida em nove capítulos, ela apresenta uma linha do tempo das apostas esportivas, explica como funcionam as plataformas digitais, aborda a legislação brasileira, detalha casos reais e orienta sobre canais de denúncia e proteção aos denunciantes.
O material também esclarece os impactos das mudanças legislativas recentes, como a regulamentação das apostas esportivas e a Lei Geral do Esporte. “O que ficou claro na pesquisa é que a informação existia, mas ela não chegava para quem estava em campo. E, quando chegava, não era na linguagem correta”, afirma Reila. “A motivação foi construir uma ponte entre o conhecimento acadêmico e quem vive o esporte no dia a dia. É isso que a extensão universitária faz de melhor: transformar a pesquisa em algo útil para a sociedade.”
Integridade do esporte e da carreira
Para aproximar o conteúdo do cotidiano dos leitores, os responsáveis optaram por substituir parte da linguagem jurídica pela narrativa de casos reais. “Em vez de ficar apenas citando leis, nós contamos histórias. As pessoas se conectam muito melhor com histórias do que com artigos de lei”, diz a pesquisadora.
A elaboração do projeto também contou com a participação de pessoas diretamente ligadas ao esporte. Além de orientador do doutorado de Reila e coordenador da iniciativa, Ferreira foi presidente do Botafogo Futebol Clube de Ribeirão Preto, experiência que contribuiu para a construção do material. Além disso, atletas, técnicos, dirigentes e agentes participaram de conversas que ajudaram a definir a linguagem e os temas abordados. “A universidade leva conhecimento, mas também aprende com quem está na outra ponta”, destaca Reila. “Esse retorno ajudou a moldar a linguagem e o direcionamento da cartilha.”
Em pouco tempo no ar, a plataforma já registrou participantes de diferentes categorias esportivas e de vários estados brasileiros. O próximo passo é ampliar a iniciativa por meio de palestras, oficinas, capacitações e parcerias com clubes, federações e instituições de ensino. Também estão previstas novas versões da cartilha voltadas para outras modalidades esportivas.
Para Gustavo Assed Ferreira, a principal contribuição do projeto é promover uma cultura de integridade. “A extensão universitária tem essa função de colaborar com a sociedade civil e contribuir para a formação da cultura da integridade e do cumprimento de regras justas dentro da prática esportiva”, afirma o professor. “Essa cartilha não busca apenas combater a manipulação de resultados, mas também informar e conscientizar a sociedade.”
Ao resumir a mensagem central da iniciativa, Reila faz um alerta que sintetiza a proposta do projeto: “A manipulação não começa em campo, no dia do jogo. Ela começa antes, por alguém conhecido. Reconhecer essa abordagem é a primeira linha de defesa”. E conclui: “Quando ela aparecer, a resposta precisa ser clara: recusar e relatar. Isso protege a integridade do esporte e a própria carreira de quem recebe a proposta.”
A plataforma e a cartilha podem ser acessadas gratuitamente neste link:
https://www.esporteintegridade.com/#cartilha
Matéria: Yasmin Prado | Jornal da USP.




