Plotino é um filósofo pouco conhecido, mas ele merece atenção especial pela grandiosidade da sua forma de pensar, nascida da confluência do pensamento grego com o judaico-cristão. Ele foi fortemente influenciado por Amônio Saccas, o fundador do neoplatonismo.
O UNO de Platão, para Plotino, ganha um forte valor místico e se aproxima muito do cristianismo nascente. Enquanto o grego do período clássico via no UNO uma espécie de síntese para se compreender a natureza sem se perder em sua multiplicidade, Plotino via no UNO a unidade mística necessária para iluminar a natureza e proporcionar o conhecimento possível a partir de uma espécie de êxtase espiritual estática e da emanação.
Para ele, tudo o que existe no mundo deriva do UNO, como se dele transbordasse toda a grandeza do intelecto (Nous), da Alma (psique) e do Mundo material. O transbordamento do UNO iluminaria todos esses níveis.
Com o intelecto iluminado, o ser ganharia em possibilidade de apreciar a grandeza de sua alma. Com sua alma iluminada, ela ganharia condições de apreciar a natureza em toda a sua dimensão. Com a natureza iluminada, ela se revelaria para a compreensão humana, aliando a lógica do intelecto e a sensibilidade da alma. Há certa relação com o Motor Imóvel de Aristóteles.
Para que o cristianismo visse no UNO a dimensão do divino, foi um pulinho. A compreensão do pensamento de Plotino facilitou muito o entendimento dos grandes pensadores do período medieval, que formataram o cristianismo com base no neoplatonismo.
Está certo afirmar que “Boi Mudo”, São Tomás de Aquino, foi convidado pela Universidade de Paris para alinhar o pensamento de Aristóteles, para que ele se enquadrasse aos cânones bíblicos, mas não está errado observar que sua leitura da ciência e da natureza segue, em larga escala, o neoplatonismo.
Tanto é que Aquino dizia que a natureza é o campo sagrado do Senhor e, conhecer melhor a natureza seria uma forma de conhecer melhor a Deus. Na natureza, havia pegadas deixadas por Deus, que funcionavam como chaves para o avanço da ciência. Assim, ele conseguia defender o avanço da ciência sem se contrapor aos censores da Igreja Católica, que viam as ciências com maus olhos, erroneamente.
É fácil observarmos também nesta leitura de Aquino o Neoplatonismo de Plotino, já em sua versão cristã. E observar também que nem todo pensador medieval era avesso ao conhecimento científico como ele se desenrolava, independente da religião. O empenho era mostrar que se tratavam de duas forças que se aliavam, uma apoiando a outra.
Hoje percebemos a predominância na academia analisar o pensamento medieval como sendo inimigo da filosofia da ciência, que teria sido melhor aproveitada pelos pensadores reformistas. Mas há controversas. Aos poucos, os estudos vão revelando a beleza do pensamento de Plotino e de Aquino para o encantamento do mundo. Basta se despojar dos dogmas da ciência para que essa relação renasça sem barreiras, como diria Rupert Sheldrake.




