Plurais de Oscar, primeira pessoa do verbo “adequar”, ser natural de Itaquera
Rubem Braga daria alguma bola a esse “cul-de-sac” nacional? Não, ele continuaria regando seu pé de milho na cobertura de Ipanema
Todo cronista tem seu dia de Domingos Paschoal Cegalla, Jânio Quadros ou Professor Pasquale. Um dia, Rubem Braga, talvez o maior cronista que já passou pela imprensa brasileira, saiu no jornal do dia com essa: “Nascer no Cairo, ser fêmea de cupim”.
Tente responder às afirmações do título como se fossem perguntas, e aí terá assunto para uma conversa animada numa tarde quente de verão, de preferência com um bom chopp. Pode ser no inverno, outono ou primavera se quiser. Pode ser outro líquido recreativo de sua preferência (“se fosse sólido, comê-lo-ia”), com uma boa porção de batatas fritas. Ou quem sabe, o seu delicioso biscoito de broto de feijão preferido. Garanto que você e sua turma terão boas risadas. E só depois, procure a crônica do Braga e a leia. É muito engraçada.
Mas é claro, piadas só têm graça se falam de um assunto do qual a plateia conhece. Elocubrar sobre o gentílico da cidade do Cairo ou o gênero feminino do Coptotermes gestroi vai gerar risos apenas em quem entende um pouco de gramática. Meus colegas da escola “Honorato Faustino” com certeza rirão, se tiverem prestado atenção às aulas da dona Leda no primário, ou da dona Elecir, no ginásio.
Ninguém irá reclamar de discriminação a pessoas desinteressadas em gramática, não chegamos a este ponto ainda, acho. Não me cancelem, rá rá rá, se acaso, se eu escolho falar de assunto menos importante para a sociedade brasileira que as peripécias de Erika Hilton e suas rusgas com ratinhos ou camundongos. Há milhões de pessoas desinteressadas nas peripécias da língua portuguesa, portanto, não se trata de uma minoria. Posso continuar a cometer minha crônica sossegado. Ou será que não?
Vejam que tempos estamos: tenho que pensar com cuidado antes de deslizar meus dedos pelo teclado para falar de um assunto quase banal, embora interessante, que seria corriqueiro nas Seleções do Reader’s Digest, na Revista Manchete ou no Jornal da Tarde de antigamente. Temendo pela minha carreira internética de escritor se eu deslizar um milímetro para fora daquilo que milhões de leitores da Choquei pensam ser o correto nesta vida.
Talvez seja melhor eu falar de algo mais atual e “quente”. Como os Oscar... Oscares... Oscars... perdidos do filme “O Agente Secreto”, estrelando Wagner Moura?
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Por ora, dou a mão à palmatória. Vocês venceram, eu me... adequo? Ou eu me adecúo?
O que dizer a esta altura do campeonato, que não encha mais o saco, sobre os prêmios da Academia (ahá) que o Brasil perdeu?
Penso que quem perdeu mesmo foi o presidente Lula, seu partido e quem mais investiu capital político no filme de Kleber Mendonça Filho, incluindo o próprio diretor. Ficou feio para quem é fã do presidente mas ainda pensa, nem que seja por dois segundos: onde já se viu presidente de esquerda torcendo para que um filme nacional ganhe prêmio de cinema estadunidense, logo nos EUA, pátria do capitalismo malvado, tóxico e nojento?
A ideia talvez fosse ganhar o prêmio, qualquer um daqueles que acabou não ganhando, para “criticar o sistema por dentro”. Mas não contavam que, apesar da distribuidora Neon, a mesma que promoveu o filme coreano “Parasita”, ter investido uma grana na divulgação do filme e no lobby junto aos membros da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas – AMPAS, (nome que lembra estatal brasileira, incluindo a sigla), que tinham de votar no filme para que ele ganhasse um dos Oscar (“s”, “es”, sem “s”), que estas pessoas não se convenceriam de que tinham de premiar pelo segundo ano consecutivo um filme sobre a ditadura militar brasileira. Como todos sabem (e esses capitalistas da peste deveriam saber também), foi a pior ditadura do mundo de todos os tempos. É por essa razão que fazemos filmes sobre ela todos os anos, para ganharmos todos os prêmios que temos direito. Se os filmes que falam de campos de concentração nazistas ganham, por que nós não?
Fico imaginando Lula extrapolando ainda mais, se “O Agente Secreto” ganhasse algum Oscar. Já que neste ano perdeu o pouco que tinha de vergonha na cara e aceitou ser homenageado em desfile de Escola de Samba no Rio de Janeiro, expondo a sua enorme cara-de-pau em vários bonecos gigantes de papel machê na av. Marquês de Sapucaí, criaria coragem para causar ainda mais vergonha alheia ao desfilar no Estádio do Corinthians, em Itaquera, segurando a estatueta, ou estatuetas da Academia em riste, dando várias voltas olímpicas com Wagner Moura e seu diretor Mendonça.
Sim, aquele estádio que ele fez questão de começar o desvio, digo, começar a construção para desviar, digo, para receber os jogos da Copa do Mundo em 2014, infelizmente no governo da Dilma.
Seria um orgulho, nesse triunfo à moda romana para todo... itaquerano? Itaquerense? Itaquerês? participar.
Infelizmente, Lula perdeu o investimento, que foi a fundo perdido. Tanto quanto no Banco Master (dizem). Seu assessor de finanças, ops, digo, seu Ministro da Fazenda desempenhou mal o serviço de ministrar conselhos ao presidente, e deixou as vaquinhas escaparem da fazenda. Talvez porque ele não seja especialista em gado, ops, em capital político. Não dá para ajudar muito quando a experiência pessoal na área não o favorece. Não há reza braba nem maquiagem que desfaça a má impressão que até hoje os paulistanos tem da gestão de “Taxad” na prefeitura da capital.
Despeço-me com alegria de vocês, leitores, mesmo com a tristeza de termos perdido os prêmios estadunidenses. Pelo menos por um período de tempo, os brasileiros (alguns deles, vá), tiveram a esperança renovada, um patriotismo parecido com as torcidas pelo Ayrton Senna, com direito até à bandeira do Brasil, que desta vez não cheirava mais a fascismo... (o Bolsonaro tá preso, babaca!), pelo menos para os apresentadores de lives Youtube afora.
Enfim, espero não ter feito o que o filme “O Agente Secreto” faz, o mesmo que o filme “O Jogador”, de Robert Altman (1992), em que passamos o tempo da exibição nos perguntando porque raios a fita tem esse nome.



