Uma vida só não basta
Para tantas variações.
Mas se esgota o desejável
quando tudo se prova possível
E nada mais é improvável.
Quando o vivido diz “confere”
com o imaginado.
E vestiu todas as máscaras,
e todas as mulheres
em sua pele
transformam-se em
Uma.
Todas as histórias do mundo
são as páginas do seu diário.
Quando toda fala humana
parece cada qual
uma canção
Bela
Tola
Incompleta
em discos de vinil e cassetes
tocados em rádios mequetrefes.
Os dias chegaram ao fim
um bilhão de vezes,
para ver o sol nascer de novo
setenta vezes sete,
então sua retina se embaça
não de dor, não de lágrimas,
mas de tanta luz acumulada.
Pele, nariz, ouvidos, língua
também já conhecem todas as vanguardas.
Quando chegar a hora,
durante o enésimo café você se dará conta:
o futuro será sempre uma promessa de memórias gastas:
o que você evita,
na espiral de vidas
é o que lhe trará o conforto
do fim da ansiedade.
Somente a Morte fará cessar a dor.
Somente a Morte será o Primeiro Motor.
(Adeus, cidade?,
não, saudade?)
Você olhará o relógio
indeciso,
e enquanto pesa,
um milhão de horas passou,
e o ponteiro travou.
O mesmo relojoeiro
de outras horas
o atenderá.
E enquanto ele conserta a mola,
Você se indaga
se vale a pena desligar uma lâmpada
para procurar outra luz, incerta.
“Será mais alívio
experimentar o novo pela última vez
Do que repetir o sabido
Em todo o alvorecer?
Será verdade que para nascer
é preciso não estar vivo?
E se vier o oblívio,
para onde irei?”
Para sair desta cidade,
é preciso renunciar à espiral,
Não voltar mais,
Não adiar mais,
Não clonar a alma nem copiar o corpo.
Será preciso renunciar ao eterno retorno
Será preciso renunciar à esperança
que da outra vez vai melhorar.
O último apego possível
será preciso romper.
Para viver o eterno
será preciso morrer.
***
A paz não é um prêmio.
O silêncio não é um alívio.
A escuridão não é um tormento.
A inconsciência não é o inferno.
A morte não é o sofrimento.
Mori, memento.
03/05/2011 – 17/09/2024



