De inseticida a remédio, poluentes sintéticos contaminam praticamente todo o oceano
Mesmo em regiões muito distantes da costa, poluentes ainda são encontrados – especialmente compostos industriais, por apresentarem maior resistência

De venenos para matar insetos até fármacos, os produtos químicos têm chegado a pontos cada vez mais distantes nos ecossistemas marinhos. Um estudo publicado na revista científica Nature Geoscience avaliou a distribuição de compostos químicos de origem humana nestes espaços e demonstrou que eles estão presentes em praticamente todo o oceano.
Poluentes comuns, como pesticidas e produtos farmacêuticos, foram detectados predominantemente em estuários e áreas costeiras, mas diminuíram com a distância da costa, enquanto substâncias químicas e aditivos industriais, incluindo polialquilenoglicóis, ftalatos e organofosforados, foram amplamente distribuídos pelos ecossistemas marinhos.
O trabalho consistiu em uma metanálise, técnica estatística utilizada para integrar resultados de outras pesquisas. No total, 21 conjuntos de dados (incluindo 2315 amostras de água do mar de três bacias oceânicas e ambientes costeiros) foram avaliados. As análises mostraram que os compostos químicos estão ainda mais disseminados do que era esperado. Porém, a maior surpresa está na distância que podem atingir, chegando a quilômetros da costa.
“Praticamente não há lugar no oceano onde não exista a ‘mão’ humana, que não tenha um sinal químico de origem xenobiótica”, explica Bruno Costa, pesquisador de pós-doutorado no Instituto de Biociências (IB) da USP e coautor do trabalho.
Os compostos estudados foram divididos em três categorias: industriais, fármacos e pesticidas. Entre eles, os mais encontrados foram os com características xenobióticas industriais, que em sua maioria são derivadas de produtos petroquímicos e associados a materiais plásticos. Apesar de os poluentes serem amplamente disseminados, a maior parte ainda está nas proximidades de costas e estuários – pontos em que o rio e mar se encontram. Segundo Bruno Costa, a maior presença pode ser explicada pelo tratamento inadequado da água e pela alta disseminação desses produtos entre a sociedade.
Impacto nos seres vivos
Além da análise oferecer um panorama amplo da presença de compostos antropogênicos em ambientes marinhos, ela demonstra também como eles podem impactar a matéria orgânica dissolvida (MOD), que é o conjunto de restos de seres vivos em corpos d’água.
Bruno Costa compara a MOD com blocos construtores, explica seu caráter fundamental para os ecossistemas, servindo, por exemplo, de alimento para microrganismos. “Observamos que há uma contribuição considerável desses compostos de origem humana e a consequência ecológica disso nós ainda não sabemos.”
As substâncias químicas, ao contrário de grandes detritos plásticos que flutuam, são dificilmente visualizadas. Esta lacuna pode ser preenchida pelo que é considerado um dos diferenciais da pesquisa: seu método de análise. Chamada de metabolômica não-alvo, a técnica é capaz de identificar todo o conjunto de moléculas de uma amostra sem um direcionamento específico, o que permite que diversos compostos sejam detectados. Bruno Costa aprendeu a realizar este tipo de abordagem durante doutorado-sanduíche realizado na University of California, Riverside (UCR).
Para garantir a avaliação adequada das amostras, era necessário que o processo de coleta ocorresse de forma uniforme. Por esse motivo, os pesquisadores utilizaram dados provenientes de laboratórios parceiros. A metodologia adotada permaneceu padronizada em todas as etapas, desde a extração — quando a água é purificada e os compostos de interesse são concentrados — até o procedimento empregado na análise inicial.
Feita em diferentes distâncias e profundidades, as coletas foram divididas por conjuntos, sendo eles: costeiro temperado, recife de coral e oceano aberto.
Principais tendências
Assim como os pesquisadores esperavam, quanto maior a distância da costa, menores são os sinais químicos de compostos de origem humana. Porém, mesmo em regiões muito distantes, eles ainda são encontrados, fato que causa preocupação. Costa explica que os compostos industriais foram os mais encontrados por apresentarem maior resistência e “navegarem” para locais mais distantes.
As avaliações indicam que, entre os sinais analíticos de mar aberto, a mediana de contribuição de origem humana na matéria orgânica dissolvida foi entre 0,5% e 4%. O número pode parecer baixo, mas é ele que indica que praticamente todo o oceano tem uma “pegada” humana, como se, em cada dia de vida do oceano, quase uma hora inteira fosse composta exclusivamente de vestígios da ação antrópica.

A mediana em clima costeiro temperado ficou entre 0,5% e 9%, com valores mais altos para África do Sul e San Diego. Os dados para recifes de coral foram os que mais variaram. Tiveram, em alguns casos, medianas mais baixas, entre 2% e 8% e, em outros, medianas mais altas de até 20%, como foi o caso de Porto Rico. A maior mediana foi encontrada em regiões de estuários, em que o valor pode ultrapassar os 60% de carga química.
No total, 248 compostos de origem humana foram encontrados, o que representa 2% de todos os materiais detectados.
Bruno Costa explica que esses valores não são as concentrações das substâncias. Para essa medição seria necessários procedimentos específicos para cada composto e não um método de análise não-alvo, como foi feita a pesquisa. “Por exemplo, 60% da contribuição dos sinais analíticos observados correspondiam à origem humana. Não é dizer que 60% da água do mar corresponde a esses compostos xenobióticos.”
“A mensagem continua sendo a mesma: há uma grande contribuição desses compostos de origem humana na matéria orgânica dissolvida no mar”
O pesquisador destaca que o artigo acende um sinal de alerta para a necessidade de novos monitoramentos. Além disso, demonstra a necessidade de maior fiscalização para crimes ambientais.
O artigo Widespread presence of anthropogenic compounds in marine dissolved organic matter está disponível neste link.
Matéria: Yasmin Constante | Jornal da USP.





