A exposição que será aberta amanhã, (27), domingo, às 09 horas, na Pinacoteca Municipal de Piracicaba “Miguel Dutra”, “Caipiras: das tropas às modas de viola”, quer matar o caipira, em vez de celebrá-lo.
Ou pelo menos parece que o responsável pela mostra, o arquiteto e curador do acervo da Pinacoteca do Estado de SP, Yuri Quevedo, assim o quer. Não é amor, menor que seja, nem apreço, nem ao menos um mínimo interesse a não ser o de destruir o caipira, que transparece nas suas falas do press release divulgado recentemente.
Podemos discutir sobre a validade, na antropologia, na etnologia, na sociologia, de um “tipo humano” chamado “caipira”. Mas nem eu, nem Quevedo, temos credenciais nestas áreas científicas para falar com tanta propriedade a respeito. Ou para justificar teses nestas áreas, usando obras artísticas como se fossem meras ilustrações.
No entanto, vivemos em uma época em que toda pessoa que atua intelectualmente no Brasil arroga a si o direito de ser antropólogo sem ter estudado antropologia, de falar sobre política sem ser jornalista ou cientista político, de falar de etnologia sem ser etnólogo, e por aí vai.
Lembrando um homônimo do curador - só para não perdermos de vista o distanciamento que traz o bom-humor - “isso non ecziste”.
O curador Quevedo, com o destemor de quem está autorizado pelo “lugar de fala” e pela “boa intenção” de fazer uma “reparação histórica”, em sua sanha iconoclasta, usa o tema do caipira para “desconstruí-lo”.
Para não dizer “destruí-lo”.
Ao falar sobre a exposição, em press release divulgado no dia 18 de setembro, e publicado pelo Viletim e pela imprensa local no mesmo dia, o curador primeiro critica a disposição das pessoas que procuram as obras de Almeida Júnior em exposição permanente na Pinacoteca da capital paulista:
”Nos últimos 130 anos, a figura do caipira se consolidou como um dos principais temas do acervo da Pinacoteca de São Paulo e se tornou um dos temas mais queridos pelo público paulista. Frequentemente, o museu recebe relatos de visitantes que buscam as pinturas de Almeida Júnior, reconhecendo, com certa nostalgia, um passado ligado à terra, ao trabalho no campo e às pequenas alegrias de uma vida mais simples.”
Para informação de todos, o primeiríssimo acervo da Pinacoteca, quando abriu as portas para sua primeira exposição, na véspera de Natal de 1905, já contava com três obras de Almeida Júnior: o “Caipira picando fumo”, “Amolação interrompida” e “Leitura”.
A figura do caipira “não se consolidou ao longo de 130 anos” como “um dos principais temas do acervo da Pinacoteca”. Ela já era popular antes de 1905, tendo a inclusão destas obras ao acervo da nascente instituição sido celebrado como uma conquista, e não uma “construção histórica de gosto”. Mas vá lá: a ideia, como exposta, pode ser sustentada como “o gosto ficou mais forte ao longo do tempo, em vez de desaparecer”.
A nostalgia, é claro, existe, e também a idealização sobre “tempos mais simples”. As pessoas buscam uma autenticidade que é associada, na cultura brasileira, à figura do caipira. E daí? E daí, nada. Não há problema nenhum nisto: poderíamos falar de igual ou maior idealização feita por atores identitários culturais, que militam sobre uma base idealizada de culturas africanas e indígenas.
Quevedo prossegue, começando o esclarecimento, naquele tom de “reparação histórica”, de quem ensina “verdades que foram escondidas de você”:
“Mas essas pinturas têm tempo histórico e muitas vezes se afastam da vida caipira fora das telas"…
O autor, então, tem acesso à documentação histórica que comprova que os caipiras não eram da maneira como Almeida Júnior mostrou? Seria a visão de Almeida Júnior idealizada, “edulcorada”? Uma “douração de pílula”? Os caipiras, como mostrados pelo ituano, eram seres de um “mundo ideal”, sem sofrimento, nem manchas?

O caipira acima (do quadro “Amolação interrompida”, de Almeida Júnior, cujo estudo estará na mostra em Piracicaba), segundo o prof. Jorge Coli, apoiado na pesquisa de Maria Sylvia de Carvalho, que estudou boletins policiais das zonas rurais paulistas do século XIX e XX, poderia te dar uma machadada, caso você o ameaçasse; mas para Quevedo, ele é representação que “se afasta da vida fora das telas”…
Como Coli também liga a violência do caipira “bruto” a várias representações do artista ituano que estarão à mostra em Piracicaba, como “Os Violeiros”, “Caipiras Negaceando”, “Caipira picando fumo” (além de “O derrubador brasileiro”, que não estará presente aqui), fica difícil saber onde está a idealização nas outras telas a serem apresentadas, como “Apertando o lombilho” (um homem ajustando a sela da montaria, num ambiente rural muito pobre), “Nhá Chica” (uma senhora idosa caipira, pitando); “Cozinha Caipira” (mostra as condições degradantes da cozinha na zona rural, na época) e “Estudo para cabeça de caipira” (um homem de fisionomia sofrida, calejado pelo trabalho duro da roça).
Quem sabe, para Quevedo, o caipira calejado, que trabalha na enxada, queimado de sol, que pica fumo numa cabana de pau a pique arruinada, cheia de barbeiros que transmitem doenças, ou a mulher que cozinha num local escuro e insalubre sejam habitantes de um conto de fadas, com os caipiras no lugar das fadas.
Fica evidente que a pressa em depreciar as elites culturais paulistas e também o caipira, pelo “pecado” existencial de não ter sangue negro em suas veias, somente europeu e indígena, isentou o curador de deixar que as obras falassem (sem falar na tradição crítica sobre elas), em vez de ele as sujeitar a serem ilustrações de suas teses.
Sem apresentar dados que comprovem que a vida caipira “fora das telas” era diferente da forma como a vida dos caipiras foi retratada, pois começou a discorrer sobre antropologia e sociologia, assuntos os quais nem eu nem ele estamos autorizados a falar, ele temerariamente vai prosseguir:
…”são fruto do projeto político de uma elite cultural empenhada na modernização de São Paulo e na construção de um lugar destacado para o estado frente às outras unidades da federação.”
Aqui se mostra a mentalidade daqueles que compraram a ideia marxistóide, logicamente que não admitida, de que as “elites” estavam esfregando as mãos o tempo todo, à procura de ideias e suas representações que as mantivessem no poder.
O encadeamento das duas ideias tem como fim demonstrar que artistas como Almeida Júnior, e depois, Oscar Pereira da Silva, Henrique Bernardelli, Benedito Calixto, eram meros fantoches dos burgueses paulistas endinheirados da época. E que os intelectuais, como Afonso Taunay, Alfredo Ellis Junior e Antônio de Toledo Piza, que construíram a historiografia paulista no final do século XIX e começo do XX, vistos pelos óculos desta mentalidade, tenham sido penas de aluguel, provavelmente muito bem pagas, ou quem sabe, escreveram de bom grado e ao seu bel-prazer, porque gostavam mesmo de fornecer ferramentas à burguesia para oprimir as camadas sociais menos favorecidas.
Quevedo vai finalizando sua diatribe:
“Os caipiras foram eleitos, no século XIX, como a figura ancestral dos paulistas…”
“Foram eleitos”, subentende-se, pelas elites culturais; mas pior aqui é o mau uso do português. Quando ele diz que seria “a figura ancestral dos paulistas”, usa mal o artigo determinado. Pois o artigo determinado determina, como diria o Capitão Óbvio, portanto, se o autor quis dizer “uma das” figuras, deveria ter dito desta forma; dizendo “a” figura, o português autoriza-nos a entender que o autor quis dizer “a principal figura”, ou “a única”. E isso não é verdadeiro.
A figura do caipira nunca foi a única, nem a principal, dos paulistas. Porque nunca lhes foi tranquila: quando quiseram ou precisaram, escolheram o bandeirante, muitas vezes, aliás. Sobre o caipira sempre pousou certa ambiguidade; posso dizer, um certo “orgulho envergonhado”.
Sobre a mesma figura pairavam duas interpretações: a de “homem manso” e a de “bruto”. As duas interpretações são herdeiras das visões do brasileiro branco, médio, entre os séculos XIX e XX, sobre o indígena, já que o caipira é definido, desde o berço, como “caboclo”, ou seja, como mestiço de indígena e branco português.
A ideia de “homem manso” associava-se, por um fio, à ideia do “bom selvagem” de Rousseau, através da mestiçagem com o índio. A doçura de um caboclo, tristonho, por vezes saudoso da terra de onde veio, nas letras de músicas caipiras compostas na cidade, como “Saudades de Minha Terra” e “Tristeza do Jeca”. Além do “Juca Mulato”, de Menotti del Picchia, talvez o mais triste de todos os caipiras.
O “bruto” é o homem do “fundo do mato”, que vive isolado das cidades, sobrevivendo de plantações de subsistência, de caça e de pesca; não tem instrução, não sabe conversar como os citadinos, não é polido, veste-se mal e vive em casas feitas de barro (taipa ou pau a pique), quase sempre semiarruinadas. Não é sociável, não está interessado no que vai pelo mundo; para o citadino, é ignorante e grosseiro. Essa intepretação é melhor representada na figura de Jeca Tatu, de Monteiro Lobato.
Se a brutalidade do caipira fosse algo positivo, virava “autenticidade”, pela ligação à terra de uma maneira que o branco, descendente de europeu, não teria acesso. A franqueza, o falar sem meias palavras, ações e intenções colocadas às claras, são elementos de caráter que as letras de Tião Carreiro e os caipiras espertos de Cornélio Pires representam bem. O Jeca Tatu de Mazzaropi incorpora elementos desses três tipos.

Quevedo ignora toda essa riqueza cultural e joga o caipira na vala dos lugares-comuns esquerdistas como um instrumento de opressão das elites paulistas.
Em seguida, o curador da mostra que deveria celebrar, e não destruir, os caipiras, finaliza:
…“uma origem calcada numa ideia racista de mestiçagem, que apostava no encontro de indígenas com europeus e na exclusão da população negra”.
Aqui, de forma desonesta intelectualmente, Quevedo afirma como verdade absoluta que a ideia de mestiçagem é racista por si só, calcada em modelos norte-americanos de “orelhada”. Contradizendo, sem fundamentação alguma, sociólogos brasileiros como Darcy Ribeiro, de que a integração étnica ocorrida no Brasil, embora tenha ocorrido muitas vezes de forma violenta, no final das contas resultou em algo positivo.
Mas os autores da corrente ideológica marxistóide cujas teses, tendo de verdade as lido ou não, vai afirmar que toda e qualquer mestiçagem é fruto de violência.
É até engraçado verificar sua fala de que a representação do caipira é racista, porque “apostava” na mestiçagem entre branco e indígena, e excluía a população negra. Como se a elite cultural paulista tivesse incentivado a representação do caipira, por meio de um artista como Almeida Júnior, somente para “apagar”, de forma ativa, a representatividade dos negros na cultura do estado intencionalmente. Quem sabe, até de maneira maligna.
É legítimo inferir, a partir destas falas, que Quevedo considera Almeida Júnior racista, e também os demais artistas da mostra. Mesmo que “não tenham culpa de terem sido racistas”, tal argumento nunca serviu de freio quando a intenção era a de cancelar figuras da nossa intelectualidade, como Monteiro Lobato. Mesmo que à custa da nossa inteligência e até do “senso crítico” tão propalado por militantes de esquerda.
O grande “pecado” de artistas como Almeida Júnior e Monteiro Lobato, na cabeça de pessoas de mentalidade justiceira-identitária, é não terem eleito pessoas negras como único e exclusivo assunto de suas obras artísticas.
E querem passar uma borracha no passado, para reescrevê-lo a partir das ideias do que consideram um mundo “justo”, “bom” e “igualitário”. Como disse o crítico literário Harold Bloom, estão dispostos a jogar a “Divina Comédia”, “Dom Quixote” e toda a obra de Shakespeare no lixo, para colocarem, como obra suprema do gênio humano, “A Cabana do Pai Tomás”. Ou melhor, gênio humano não, e sim, uma “síntese, em forma literária, das forças históricas e sociais de sua época”.
No caso, querem jogar no lixo as obras de Almeida Júnior e artistas que trataram do tema do caipira, mas da “maneira errada”, cheia de “preconceitos”, de “racismo estrutural”, e por isso devam ser desprezadas. Quem sabe, a mostra que inaugura amanhã seja até, em suas cabeças, uma espécie de “Exposição de Arte Degenerada”1, e o objetivo seja o de zombar e xingar as obras, em vez de contemplá-las.
Para quem sabe do que está se falando, a exposição foi organizada pelo governo nazista, em 1937, para depreciar publicamente as obras feitas por artistas que fossem contrários ao regime e/ou ideologia nazistas, como comunistas, judeus, negros e todos os que não fossem da “raça ariana pura”; quase coincidentemente, essas obras eram de vanguarda - cubistas, expressionistas, modernistas enfim - e muitas também eram de artistas “arianos”, mas “degenerados”. A exposição foi montada como um exemplo da arte “que não devia ser feita”, e a exposição pública tinha como um de seus objetivos que as pessoas zombassem, rissem e até estragassem as obras à mostra.



