Presidente do Simespi aponta risco à competitividade após estudo da CNI sobre fim da escala 6x1
Levantamento da CNI embasa análise do dirigente, que aponta aumento de custos e perda de competitividade como principais riscos da proposta
Camargo: Soluções devem estar ancoradas em critérios técnicos e em diálogo amplo entre governo, trabalhadores e setor produtivo - Crédito: André Covolam
O debate sobre o fim da escala 6x1 ganhou novo peso com a divulgação, nas última terça-feira (7), de um levantamento inédito da Confederação Nacional da Indústria (CNI), que estima impacto negativo de R$ 76 bilhões no Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro em caso de redução da jornada de trabalho. O dado, equivalente a cerca de 0,7% da economia nacional, coloca a discussão em um novo patamar, ao evidenciar não apenas efeitos trabalhistas, mas também macroeconômicos.
A análise setorial apresentada pela CNI indica que a indústria seria a mais atingida, com perdas estimadas em R$ 25,4 bilhões, seguida por serviços, comércio e agropecuária. Esse recorte reforça a percepção de que a mudança na jornada — que inclui o fim do modelo 6x1 — impacta diretamente cadeias produtivas intensivas em mão de obra e com necessidade de operação contínua.
Para o presidente do Simespi (sindicato patronal das industrial metalmecânicas de Piracicaba, Saltinho e Rio das Pedras), Paulo Estevam Camargo, os números apresentados pela CNI ajudam a qualificar o debate ao trazer evidências concretas sobre os efeitos econômicos da proposta. “O levantamento confirma uma preocupação recorrente do setor industrial: a de que mudanças estruturais na jornada de trabalho, quando desacompanhadas de ganhos de produtividade, tendem a gerar desequilíbrios no sistema produtivo”, afirma.
Camargo observa que a estimativa de retração do PIB está diretamente associada ao aumento do custo do trabalho e à dificuldade de reposição das horas reduzidas. Segundo a própria CNI, a diminuição da jornada elevaria o custo por trabalhador, com reflexos ao longo de toda a cadeia produtiva e potencial repasse aos preços finais. Para o dirigente, esse efeito em cascata é especialmente sensível na indústria, onde margens são pressionadas e a competitividade internacional já representa um desafio.
Outro ponto destacado pelo presidente do Simespi é o risco de perda de competitividade da produção nacional. O estudo da CNI aponta que a redução da jornada pode aumentar a exposição do Brasil ao mercado externo, com queda nas exportações e aumento das importações — um movimento que, na prática, pode acelerar o processo de desindustrialização. “Esse cenário reforça a necessidade de cautela: qualquer alteração precisa considerar o impacto sistêmico sobre a indústria e a economia como um todo”.
A análise também dialoga com outro dado relevante do levantamento: a elevação dos custos empresariais. Projeções da CNI indicam que o fim da escala 6x1 pode gerar aumento de até R$ 267 bilhões por ano na folha de pagamento das empresas, pressionando especialmente setores industriais e micro e pequenas empresas. Para Camargo, esse dado evidencia que a discussão não se limita à jornada em si, mas envolve a sustentabilidade das operações produtivas.
Apesar das críticas, o presidente do Simespi reconhece que o tema responde a uma demanda legítima por melhores condições de trabalho e qualidade de vida. No entanto, ele defende que a construção de soluções deve estar ancorada em critérios técnicos e em diálogo amplo entre governo, trabalhadores e setor produtivo.
Ao analisar o levantamento da CNI, Camargo conclui que o desafio central está em equilibrar avanços sociais com viabilidade econômica. “Não se trata de negar a importância do debate, mas de garantir que qualquer mudança seja sustentável e não comprometa emprego, renda e competitividade”, sintetiza.
Assim, o estudo da CNI reforça a dimensão econômica do fim da escala 6x1 e sustenta a posição da indústria: a de que a proposta, embora socialmente relevante, exige avaliação cuidadosa para evitar efeitos adversos sobre o crescimento e a estrutura produtiva do país.



