Primeira Hora: Para proteger os seus
Quem são as figuras que Alessandro Vieira colocou no relatório? Claro, Alexandre de Moraes, Dias Tóffoli e Gilmar Mendes. Para fechar o pacote, colocou também Paulo Gonet, o PGR
Não é complicado interpretar o jogo. É assustador. Isso sim. O senador Alessandro Vieira, relator da CPI do Crime Organizado, colocou em seu relatório final nomes de três ministros do STF, como indiciados, o que exigiria a abertura de uma investigação para verificar se as informações a respeito deles, que constam no documento final, procedem ou não.
Como todos sabem, o relatório final não foi aprovado, após manobra bem-sucedida do governo Lula no Senado. Por isso, Alessandro Vieira ficou desamparado diante de hábeis jogadores, que não vivem, se desprotegidos, sem a guarida do STF. Hoje, o STF tem essa função: proteger os seus.
Quem são as figuras que Alessandro Vieira colocou no relatório? Claro, Alexandre de Moraes, Dias Tóffoli e Gilmar Mendes. Para fechar o pacote, colocou também Paulo Gonet, o PGR, que teria, por obrigação, que apresentar ao STF casos graves de irregularidades que carecem de... investigação, mas que joga com a patota e faz tudo combinado para... proteger os seus. O leitor poderia dizer: “Mas este relatório não seria de uma CPI do Banco Master?”
Sim, a dúvida procede, porque de fato, esses ministros estão até o pescoço enrolados com Vorcaro, o dono do Master, por se beneficiarem de montantes de dinheiro sem antecedentes na história e já tornados públicos, seja de forma direta ou indireta. Como o STF decidiu por não permitir a abertura da CPI do Banco Master, por motivos óbvios, nada mais natural que o relatório invada essa seara, uma vez que o caso Master é um exemplo real e concreto de crime organizado, certo?
No entanto, a reação dos pares do STF não foi de maneira alguma a de trazer à tona informações esclarecedoras que os protejam e mostre a idoneidade de cada um dos ministros citados, mas sim, de agir de tal forma que amedrontam o relator, como se ele, Alessandro Vieira, tivesse cometido um crime ao citá-los.
Não só. Mendes vai ao PGP com representação e pede que Vieira seja investigado. A reação foi tão agressiva, de contra-ataque ao relator, que evidenciou ainda mais que algo de podre acontece nos bastidores do STF, sem que absolutamente ninguém possa investigar seus membros.
O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, fez um discurso na mesma linha dos magistrados, atacando Alessandro Vieira. Mas todos sabemos quem é Alcolumbre e suas relações pouco republicanas com a política dos apaniguados e da proteção... dos seus. Eu te protejo e vocês me protegem. É um jogo casado com o STF.
Depois de analisar todo o quadro do momento sobre a questão, o jornalista Carlos Andreazza, soltou um parágrafo mortal sobre Gilmar Mendes em sua coluna no Estadão de ontem (15):
“Sobre abuso de poder, pouca prática será mais tacanha do que aquela do tipo muito poderoso – o mais poderoso possível – que se jacta da própria coragem, como se corajoso fosse. Como se a exibição-afirmação de coragem, num poderoso, não fosse o aviso prévio da covardia. Foi o que fez Mendes. Disse – ministro do STF, com a caneta mais pesada do mundo – que adora ser desafiado; para então evocar o Mato Grosso profundo: ‘Não me chame para dançar, porque posso aceitar’. Latifúndio de intimidação, que dispara desde o lugar inalcançável dos que, bradando sobre “impessoalidade e independência” de atuações que não se ‘dobram a interesses’, mal pisam no chão das gentes ao transitar de palácio para jatinho de algum empresário com pendências no tribunal”.
Como se encerra esta ópera? Com um estrondo? Com a Polícia Federal no STF? Com a troca de presidente da República. Não se sabe ainda. Mas algo deve acontecer até o final do ano de 2026. Os brasileiros estão com o STF pelo pescoço. Mendes, por sua vez, tenta segurar o rojão, uma vez que Moraes e Toffoli estão muitíssimos queimados. Gonet é o pau-mandado do cacique. Como já se diz no ditado popular, de três ou mais, é quadrilha.




