As primeiras obras de arte que mostram Piracicaba
E a primeiríssima não foi pintada por um piracicabano
A obra de arte mais antiga mostrando retratando Piracicaba não foi produzida por um piracicabano, nem mesmo por Miguel Dutra, artista pioneiro paulista, que morou na cidade de 1844 a 1875 (ano de falecimento) onde constituiu família, mas nascido em Itu, ainda assim considerado como o primeiro artista piracicabano.
A primazia cronológica da primeira obra inspirada pela bela paisagem da “Noiva da Colina” é de outro pioneiro do interior paulista, o francês Hercule Florence. Ele veio para o Brasil ainda jovem, trabalhando como marinheiro, e depois da decisão de ficar no país, conseguiu emprego como um dos artistas da Expedição Langsdorff, composta por biólogos que vinham estudar a natureza tropical brasileira. Quando a expedição terminou, casou-se e foi morar em Campinas, na época chamada Vila de São Carlos.
A primeiríssima
Não há registro do motivo de Florence ter realizado estas imagens de Piracicaba. A primeira, uma pintura em aquarela e nanquim da fazenda Ibicaba, provavelmente foi encomendada por seu proprietário, Nicolau Vergueiro. Em 1830, a fazenda fazia parte do território da cidade, e passou a pertencer a Limeira somente em 1842, e a Cordeirópolis em 1948.
Foi nesta fazenda que se acredita, houve a primeira contratação de imigrantes europeus para trabalho na lavoura de café no Brasil, em 1840 (80 famílias portuguesas), e depois, famílias suiças. O regime de trabalho abusivo imposto aos trabalhadores fez com que se revoltassem, a chamada Revolta da Ibicaba ou Revolta dos Parceiros (1856).

A Fazenda Monte Alegre em 1845
A segunda imagem também é uma aquarela, esta sim executada por Miguel Dutra, e novamente refere-se a uma fazenda, esta ainda integrando o território piracicabano: a Fazenda Monte Alegre. O mais antigo proprietário registrado é o padre Manoel Joaquim do Amaral Gurgel, pároco da Igreja Matriz de Piracicaba de 1804 a 1816.
Na data registrada em que foi feita a pintura, 1845, o proprietário era José da Costa Carvalho, o Visconde de Monte Alegre (que anos depois seria Marquês). Ainda estavam distantes os “anos de ouro” da Usina Monte Alegre de Pedro Morganti.
A aquarela encontra-se no Museu da Convenção Republicana de Itu, em uma coleção com cerca de 40 outras aquarelas retratando locais e costumes do interior paulista e da capital paulistana. A curiosidade desta gravura é que o artista ainda assinava o sobrenome como “Dultra”, com um “L” no meio, como seu pai, Thomaz, também o fazia. Foi somente depois da morte do artista, em 1875, é que se cristalizou, na família, o nome “Dutra”.

As primeiras obras sobre a “Cascata do Piracicaba”
A terceira imagem, de autoria de Hercule Florence, disputa com outra obra atribuída a Miguel Dutra, o título de primeira obra de arte mais antiga a mostrar o salto do rio Piracicaba. Ambas são datadas de 1860. A pintura de Florence só possui registro fotográfico, pois o paradeiro da pintura a óleo original é desconhecido. A imagem abaixo é apenas a revelação em preto e branco do negativo fotográfico, presente no acervo do Museu do Ipiranga. Parece uma cena noturna, mas acredito que, por se tratar de foto em preto e branco de uma pintura colorida, os contrastes de claro e escuro, convertidos para a escala de cinza, escureceram a cena.

A quarta imagem, cuja autoria é atribuída a Miguel Dutra, é aquela normalmente creditada como a primeira imagem artística mostrando Piracicaba e também o salto do rio.

A pintura retrata a “Cascata de Piracicaba”, como se chamava o salto do rio, e a propriedade do tenente coronel Carlos José de Arruda Botelho, do lado esquerdo do rio, onde hoje se situa a Fábrica Boyes. Ele foi o primeiro presidente da Câmara Municipal de Araraquara (equivalente na época à função atual de prefeito) e é pai do futuro Conde do Pinhal e fundador da cidade de São Carlos do Pinhal (hoje, somente São Carlos). Tanto a história quanto a imagem acima estão registradas no livro escrito pelo descendente dos Botelhos, “Glorioso Passado”, de Francisco de Carvalho Soares Brandão Neto, publicado em 1967.
Pode-se somente atribuir a pintura a Miguelzinho, pois fica dúvida pelo fato do estilo do desenho e também da pintura serem bem diferentes do que se conhece da obra do ituano.
Sobre a imagem, ainda há outra confusão, feita por autores como Cecílio Elias Netto, entre a pintura datada de 1860, e a gravura inspirada nela, que é uma transposição das cores da pintura para linhas em preto e branco. A sua reprodução encontra-se abaixo.
Cecílio cita erroneamente a data de 1845 como de produção da pintura, e também que a gravura publicada na revista “Archivo Pittoresco”, de Lisboa, de 1864, teria sido produzida por Dutra. A gravura pode ter sido inspirada pela pintura, mas não há registro de tal referência; o nome assinado na ilustração é “Pedrozo”.



