
Ao contrário do senso comum, que enxerga a carreira docente universitária como um percurso de estabilidade e permanência em uma única instituição, 46,9% dos professores do ensino superior brasileiro vivenciaram ao menos um evento de mobilidade empregatícia no país entre 2003 e 2021. A conclusão é de um estudo liderado por Ana Maria Carneiro, coordenadora do Núcleo de Estudos de Políticas Públicas (NEPP), publicado no periódico Research in Higher Education, que mapeou a trajetória de docentes do setor público e privado em todo o território nacional.
A pesquisa foi conduzida por pesquisadores do Laboratório de Estudos sobre a Organização da Pesquisa e da Inovação da Unicamp (Lab-Geopi) no âmbito do projeto Pesquisa da Pesquisa e da Inovação, com financiamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). O projeto foi desenvolvido entre 2022 e 2025 sob coordenação de Sergio Luiz Monteiro Salles-Filho e contou com quatro frentes de pesquisa.
O artigo é um dos cinco publicados recentemente sobre resultados do projeto e apresenta parte dos resultados encontrados na frente de estudos que investigou trajetórias profissionais e mobilidade de pesquisadores. “Nesse artigo especificamente, buscamos analisar a mobilidade acadêmica dentro do Brasil, que significa mobilidade de emprego – sair de uma instituição e entrar em outra –, ou mesmo acumular vínculos empregatícios entre instituições”, explica Carneiro.
Além de Carneiro, assinam o artigo os pesquisadores Ana Maria Nunes Gimenez, Eduardo Rodrigues Capocchi, Luiza Maria Capanema Bezerra e Luciane Graziele Pereira Ferrero. O grupo identificou uma lacuna na literatura de estudos sobre mobilidade acadêmica nacional – tema relevante quando se consideram países de extensão continental, como Brasil, Estados Unidos e China. “O nosso interesse era primeiro caracterizar essa mobilidade no Brasil porque há poucos estudos sobre mobilidade acadêmica considerando os professores”, complementa.

Metodologia e padrões
Para superar as limitações de bases internacionais como o Orcid (identificador aberto de pesquisador e colaborador, na sigla em ingês) – que no Brasil cobre cerca de 8% dos docentes e possui sobrerrepresentação de instituições intensivas em pesquisa –, os pesquisadores utilizaram os microdados da Relação Anual de Informações Sociais (Rais), do Ministério do Trabalho e Emprego. O acesso aos dados foi viabilizado por um convênio institucional da Unicamp.
A análise retrospectiva acompanhou os vínculos formais registrados na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO) para professores do ensino superior, identificando quatro padrões de trajetória: vínculo único, acúmulo de cargos, transição e mudança com interrupção temporária.
O estudo apontou que instituições intensivas em pesquisa e com forte pós-graduação, como grandes universidades públicas, apresentam menor taxa de mobilidade docente. Em contrapartida, a maior rotatividade ocorre em faculdades e centros universitários privados, além de instituições públicas com foco prioritário no ensino.
O pico de mobilidade ocorreu entre 2007 e 2014, coincidindo com o Programa de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). O período impulsionou a interiorização de vagas e concursos públicos, levando docentes a se deslocarem e, eventualmente, buscarem novas transições para se aproximarem de seus locais de origem.
A pesquisa também mostrou que a maior parte das movimentações docentes ocorre dentro da mesma região geográfica ou estado, sendo raros os deslocamentos de longa distância entre estados ou regiões. Há um predomínio de mobilidade especialmente nas regiões Sul e Sudeste, que concentram o maior número de instituições de ensino do país. A maior parte dos deslocamentos ocorre em distâncias de até 50 km, sendo comum em regiões metropolitanas ou municípios vizinhos.
Gênero e remuneração
O recorte de gênero revelou diferenças marcantes. “As mulheres se deslocam em menores distâncias do que os homens”, diz a coordenadora do NEPP. Os efeitos são percebidos ainda no salário e na duração dos vínculos. Mulheres que tiveram licença-maternidade no primeiro emprego tendem a ter o valor da hora-aula mais baixo e contratos mais curtos. Além disso, há diferença na distribuição entre homens e mulheres nos tipos de instituições, sendo os homens mais presentes em instituições de ensino tecnológico ou intensivas em pesquisa, enquanto as mulheres têm maior presença em instituições mais focadas no ensino de graduação.
A remuneração, concluíram os pesquisadores, nem sempre é fator determinante para a mudança. Em transições do setor privado para o público, por exemplo, é comum que docentes experimentem uma redução salarial inicial em troca de estabilidade e melhores condições de trabalho. Por outro lado, no setor privado, professores que ganham por hora trabalhada costumam acumular vínculos em diferentes faculdades. “Grande parte dessas mobilidades no setor privado ocorre como uma forma de buscar sobrevivência, mais do que buscar melhores condições de trabalho. Sobrevivência no sentido de garantir um salário”, reflete Carneiro.
Projeção internacional
Os resultados da pesquisa já renderam convites para a equipe integrar a quarta rodada do consórcio internacional Future Academic Profession, que analisa os desafios da profissão docente em diversos países. Carneiro e colegas contribuíram com a elaboração de um questionário que será aplicado a professores de ensino superior em países envolvidos. A pesquisadora também apresentou resultados do estudo na conferência da Associação Europeia de Pesquisa Institucional, que ocorreu no final de agosto em Vilna (Lituânia).
Matéria: Eliane Daré | Fotografia: Antonio Scarpinetti | Jornal da Unicamp.



