
Nas décadas de 1970 e 1980, Havia dois comunicadores que eram reis do rádio, e depois, se tornaram os maiores da televisão: Abelardo Barbosa, o Chacrinha, e Senor Abravanel, o Silvio Santos.
Silvio Santos, o “Homem do Baú”, animador de auditório que iniciou sua carreira no rádio, depois de trabalhar como camelô, rivaliza com Chacrinha no posto de “maior apresentador de TV brasileiro de todos os tempos”. Silvio tornou-se um ícone absoluto, inspirando outros comunicadores ou deixando sua marca em apresentadores como Gugu Liberato, Celso Portiolli, João Kleber, Rodrigo Faro, Luciano Huck e Marcos Mion.
Silvio Santos tinha um programa exclusivamente dedicado à música popular: o Qual é a Música?, um concurso entre artistas, que testava seus conhecimentos musicais. A primeira versão do programa iniciou-se em 1976 e estendeu-se até 1991. O cantor campeão absoluto desta fase foi Ronnie Von, que ganhou 25 programas consecutivos. Os outros campeões foram: Silvio Brito (24 programas), Gretchen (22 programas) e Nahim (20 programas).
Outros programas de Silvio Santos também davam destaque a músicos populares, como o Show de Calouros. A curiosidade é que vários dos jurados deste concurso de calouros eram cantores, como Aracy de Almeida (que veio dos programas do Chacrinha), ou se emplacaram “microsucessos” nas paradas, como Mara Maravilha, Sérgio Mallandro, e outros tentaram, como Wagner Montes, Sônia Lima, Flor, Valentino Guzzo, Carlinhos Aguiar, Jorge Lafond, Luís Ricardo (um dos intérpretes do palhaço Bozo) e… Pedro de Lara (também revelado por Chacrinha), que, pasmem, gravou LPs de piadas e até músicas do programa do Bozo.
Chacrinha, o “Velho Guerreiro”, tinha estilo único, era surrealista, para não dizer dadaísta. O apresentador que distribuía peças de bacalhau para o auditório, e que tinha um “dial” de telefone gigante na barriga, administrava um “caos controlado”, uma “bagunça organizada”. Podemos dizer que a turma do Pânico, Ratinho, e até Fausto Silva, o Faustão, tiveram muita, ou alguma, influência do estilo de Chacrinha em suas maneiras típicas de apresentar e animar seus auditórios. Até mesmo Xuxa Meneghel bebeu da influência dele; pois o que são as paquitas senão chacretes, só que embaladas para um público infantil (da década de 80, evidentemente)?
Também foi palco de quase toda a produção do Pop/Rock dos anos 80, do megasucesso RPM, e os icônicos Titãs e Paralamas do Sucesso, Plebe Rude, Engenheiros do Hawaii, Ultraje a Rigor, Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, Ira!, Biquini Cavadão, Capital Inicial, Nenhum de Nós, Camisa de Vênus, João Penca e seus Miquinhos Amestrados, Barão Vermelho, Legião Urbana, Blitz, assim como cantores como Fábio Jr., Gilliard, Léo Jaime, Raul Seixas, Marina Lima, Kátia etc., e grupos hoje quase desconhecidos ou esquecidos, como Absyntho, Picassos Falsos, Inocentes, Gueto, Fausto Fawcett e os Robôs Efêmeros, Zero, Grafite, Metrô, Tokyo, Sempre Livre, Dr. Silvana & Cia., Violetas de Outono, Herva Doce, Rádio Táxi, e outros.
Chacrinha também tinha a atração do concurso de calouros como um ponto forte, e seus jurados Carlos Imperial, Elke Maravilha, Pedro de Lara e Aracy de Almeida (que terminaram a carreira de jurados no Programa Silvio Santos), foram figuras polêmicas, que foram fenômenos de comunicação em suas épocas.
Ficaram famosos seus bordões “Vocês querem bacalhau?” e “Eu vim para confundir, eu não vim para explicar”.
Augusto Liberato, o Gugu, começou sua carreira de apresentador com um programa que foi sucesso absoluto na TVS: Viva a Noite!, em 1982. Até 1992, as noites de sábado eram animadas com os hits musicais do momento, alguns “fabricados” ou promovidos fortemente pelo SBT, como os grupos Tremendo e Menudo (embora parecessem exclusivos do canal, não eram; eles se apresentavam também em outras estações, como a Globo e a Bandeirantes - que ainda não era chamada de “Band”), além dos nacionais Dominó, Polegar, Roupa Nova, Trem da Alegria, Nova Embalagem, Os Abelhudos, Harmony Cats e Banana Split (que revelou Eliana). O auditório era animado também com gincanas picantes e divertidas, como o Baile dos Passarinhos e o Sonho Maluco.
Fausto Silva, primeiro com o Perdidos na Noite, na Rede Bandeirantes, e depois com o Domingão do Faustão, que estreou em 1989 na Rede Globo, já quase na década de 1990, foi talvez testemunha da “última arrancada” da era Sullivan & Massadas, dupla de compositores que emplacaram hits de sucesso estrondoso, como: Whisky a Go-Go", com o grupo Roupa Nova (1984), “Me Dê Motivo” (1983), “Leva” com Tim Maia (1984), e “Um Dia de Domingo”, com Gal Costa e Tim Maia (1985), “Deslizes” – Fagner (1984), “Retratos e Canções” – Sandra de Sá (1986), “Nem Um Toque” – Rosana (1986), “Joga Fora”, com Sandra de Sá (1986), além dos sucessos com Xuxa Meneghel “Lua de Cristal”, “Brincar de Índio”, entre outras. A primeira abertura do Domingão tinha a música “Do Tempo Que”, de autoria da dupla, e cantada por eles mesmos.
Raul Gil passou por várias emissoras de TV aberta brasileiras, como Tupi, Record, SBT, Bandeirantes, entre 1970 e 1990. Quadros famosos de seus programas foram O Banquinho (o Raul perguntou, você não acertou, pegue o seu banquinho e saia de mansinho…), Pra quem você tira o Chapéu?, Cartas e Cartazes (também chamado de Quatro Ases e um Coringa). E também Raul tinha o seu show de calouros, com jurados como Marly Marley e José Messias; passou também pelo programa como jurado o estilista Clodovil Hernandes.
Bolinha, nome artístico de Édson Cury, apresentou vários programas, o mais conhecido deles o Clube do Bolinha (Rede Bandeirantes, 1974–1994). Começou sua carreira na TV como locutor e repórter esportivo (cobria flashes e também o clássico programa Reis do Ringue, de telecatch, que era como se chamava a luta livre televisionada). Conhecido por seu visual extravagante com camisas bufantes e supercoloridas, seu orgulho de ser "brega" e seu bom humor escrachado, ele transformou as tardes de sábado em uma das maiores audiências do país.
Outra característica do programa era o baixo orçamento de produção, visível nas vestimentas e cenários - algo que enfatizava o tom brega da atração. Vários quadros do programa marcaram época, como "Eles e Elas", onde abria espaço para performances artísticas de transformistas, drag queens e travestis. E é claro, a performance das boletes, uma inspiração direta e clara nas chacretes, entre elas Zulu, uma bolete que chamava a atenção porque dançava com o rosto sério, nunca sorria.
Outros programas que tiveram apresentadores marcantes, mas menos focados em atrações musicais, como os apresentados por J. Silvestre, com Esta é a Sua Vida e O Céu é o Limite (com o bordão “Absolutamente certo!”).
Também icônico foi o programa de Flávio Cavalcanti, (décadas de 70 e 80, em emissoras como Record, Band e SBT), que tinha o seu nome, cujo ponto forte era o concurso de calouros cantores, julgados por jurados polêmicos, como Sérgio Bittencourt, Dener Pamplona, José Fernandes, Marisa Raja Gabaglia, Márcia de Windsor, Clécio Ribeiro e o maestro Erlon Chaves.
Hebe Camargo, (entre 1970 e 2010, passou pelas emissoras Record, Tupi, Bandeirantes e SBT) em seus programas de talk-show, que incluía números musicais, Tadeu Jungle com o Fábrica do Som (1983-1984, TV Cultura), e os de música caipira, sertaneja e regional Viola, Minha Viola (1980-2015, TV Cultura), que foi apresentado por Moraes Sarmento, Nonô Basílio e Inezita Barroso, e Som Brasil (de 1981 até hoje), apresentado por Rolando Boldrin e Lima Duarte na sua primeira fase (1981-1989).
Som Livre Exportação, apresentado por Elis Regina e Ivan Lins, por um curto período (1970 a 1971). Em seguida, apareceu o Globo de Ouro, inicialmente apresentado por cantores (como a dupla Vanusa e Antônio Marcos), mas depois a emissora escalou atores consagrados da casa, incluindo Tony Ramos, Christiane Torloni, Denis Carvalho, Myrian Rios, Lauro Corona, César Filho, Isabela Garcia e Cláudia Raia, entre 1972 a 1990.
Além do Fantástico, aos domingos, que apresentava os musicais do Fantástico, os precursores dos videoclipes.
Todos esses programas tiveram algo em comum: foram vitrines para centenas de cantores, cantoras e grupos musicais, alguns de enorme sucesso, outros nem tanto. Muitos desapareceram das paradas, das emissoras e até da memória do público. Mas, por alguns anos, foram figurinhas carimbadas dos auditórios da televisão brasileira. É justamente sobre esses artistas que vamos falar nos próximos artigos desta série.


