Um ano após proibição de celulares na educação, estudantes e professores já notam efeitos positivos
Os estudantes sentem que agora conseguem encontrar outros tempos para além do celular, diz Vivian Batista

As novas tecnologias têm entrado cada vez mais no cotidiano escolar brasileiro. Apostilas e cadernos virtuais, utilização de vídeos como documentos pedagógicos importantes no aprendizado e plataformas de ensino on-line são alguns exemplos de aplicações práticas desse contexto.
Contudo, algumas barreiras estão sendo constantemente colocadas entre ensino e tecnologia. Dentre as principais dificuldades, está a utilização de celulares por alunos nas escolas. Nesse sentido, em janeiro de 2025, entrou em vigor uma nova lei que proíbe a utilização desses aparelhos na educação básica, com exceção em casos de aplicação pedagógica do dispositivo.
A Lei Federal nº 15.100/2025 veta o uso de dispositivos eletrônicos no ambiente escolar de educação básica, tanto em instituições públicas como em instituições privadas. A restrição inclui, também, os recreios e intervalos.
Demanda geral
Vivian Batista da Silva, professora da Faculdade de Educação da USP, foi diretora da Escola de Aplicação do instituto, voltada à educação básica, quando a lei foi aprovada. Ela comenta que a medida veio em meio a uma demanda constante das estruturas escolares brasileiras.
“A reclamação não foi de uma escola só. A gente percebeu que escolas de outros lugares do mundo, onde o uso de tecnologias estava já muito arraigado, a proibição era muito defendida. Essas escolas também perceberam que o celular e outros dispositivos dessa natureza podem ser um obstáculo para as aprendizagens. Nós percebemos um movimento muito intenso e mundial”, afirma a docente.
O uso de aparelhos eletrônicos nas salas de aula coloca algumas barreiras, tanto para as escolas quanto para os alunos, em meio a um uso desregulado. Ao mesmo tempo que professores não conseguem atrair a atenção dos alunos e ensinar o que é planejado pelas escolas, os estudantes mobilizam sua atenção aos celulares, impedindo assim um engajamento efetivo nas aulas e com as pessoas ao redor.
Impactos positivos rápidos
Com um pouco mais de um ano desde a promulgação da norma, alguns efeitos positivos já podem ser notados, de acordo com Vivian. “Os estudantes sentem que agora eles conseguem encontrar outros tempos para além do celular. Quando você fica muito tempo nesses dispositivos, você fica dominado por aquilo e deixa de perceber o que está acontecendo no mundo ao seu redor. Então, para os estudantes, a gente percebe a abertura de uma porta para conseguir se organizar mais. Muitas famílias também reconhecem essa potencialidade.”
Além desses aspectos, a proibição implica o contato dos estudantes com outras tecnologias, como os livros e as apostilas. A professora defende que, em caso de uso descontrolado das novas tecnologias, como os celulares, outros dispositivos imprescindíveis à educação e de caráter intrinsecamente humano seriam abandonados.
Bons resultados, mas ainda com obstáculos
Mesmo com as mudanças, as instituições de ensino ainda enfrentam dificuldades para colocar em prática a proibição. Alunos constantemente tentam burlar a restrição no ambiente escolar. “Algumas escolas conseguiram ter os espaços para isolar os celulares. Em outras, isso já não é mais usado. Então nós percebemos diferentes formas de negociação, mas isso é muito difícil. O celular não deixa de ser uma forma de comunicação”, diz Vivian.
Em meio às dificuldades, é preciso se adaptar para não tornar a lei “letra morta”, segundo a professora. Os dispositivos eletrônicos também podem ser utilizados de forma positiva em prol das escolas. Assim, o ensinamento aos alunos de como utilizar essas tecnologias de forma eficaz e eficiente, em meio a uma sobrecarga de informações, é essencial.
A inteligência artificial, por exemplo, pode ser uma grande aliada dos estudantes, quando utilizada com responsabilidade. “As IAs nos permitem adentrar caminhos de informações riquíssimos. Só que, se a gente se limita ao uso dessa tecnologia, a gente pode estar aliviando o nosso estudante de ser responsável pela busca dessas informações. Isso pode limitá-lo a um simples buscar, copiar e colar. E esse movimento dificilmente pode colaborar com uma aprendizagem efetiva”, afirma a docente.
Do ensino básico à academia
Seguindo a tendência realizada no ensino básico, algumas instituições de ensino superior, em especial particulares, têm adotado a proibição do uso de celulares por estudantes universitários. A medida demonstra que as demandas presentes no ensino básico brasileiro têm alcançado as bancas universitárias de discussão.
“A formação na vida universitária supõe uma relação diferente com o conhecimento, com as leituras e aulas. Isso é imprescindível à formação dos estudantes. É um momento em que nossa atenção precisa estar voltada a isso, para não perdermos oportunidades importantes de formação. Não significa que o aluno não possa mais usar o celular, e sim que naquele momento ele vai mobilizar outras atenções, outras competências que são importantes para o desenvolvimento de um aluno universitário”, defende Vivian.
Matéria: Breno Marino | Jornal da USP.



