Projeto sobre máscaras e tradição valoriza tradições populares do Brasil
Mestre Aguinaldo Silva, referência do folguedo Cavalo Marinho pernambucano, participa da primeira edição do evento
A troca de saberes com mestres da cultura popular é o ponto de partida do projeto “Máscara, Festa e Cena: Manifestações Tradicionais Brasileiras”, cuja primeira edição teve início na quinta-feira, 21. Em dois dias de evento, oralidade e memória se conectam à formação acadêmica em uma troca de experiências sobre tradições populares.
Realizada pelo Grupo de Pesquisa TeCe:ETC em parceria com o Departamento de Artes Cênicas do Instituto de Artes (IA), a iniciativa propõe ampliar os referenciais trabalhados na graduação. O primeiro convidado é Mestre Aguinaldo Silva, artista popular de Condado (PE), reconhecido por sua atuação nas manifestações culturais Cavalo Marinho e no Maracatu Rural.

A professora responsável pela disciplina de máscaras nas artes cênicas, Erika Velloso Lemos Schwarz, afirma que a proposta surgiu da necessidade de trazer para a Universidade referências que extrapolam os modelos tradicionalmente ensinados nas escolas de teatro. ““Tenho buscado trazer referências latino-americanas e brasileiras para a disciplina. São saberes corporificados, territoriais e ancestrais de pessoas que produzem conhecimento e arte para além de uma formação apenas intelectual ou técnica”, explica.
Para a professora, a presença de mestres populares provoca uma revisão dos referenciais tradicionalmente valorizados na formação artística. Segundo ela, muitas vezes, o ensino das máscaras no teatro é centrado em tradições europeias, enquanto manifestações brasileiras permanecem à margem dos currículos acadêmicos. “Existe uma herança muito forte franco-italiana, e a ideia é ampliar essas referências”, afirma.
De acordo com Schwarz, nesse primeiro encontro, o trabalho desenvolvido com os estudantes envolve tanto a história das máscaras quanto a experiência prática de confecção e utilização desses objetos em cena. “A máscara esconde e revela ao mesmo tempo. Você cobre o rosto, mas revela o corpo, o movimento.”
O objetivo é que o programa tenha continuidade, reunindo mestres de diferentes manifestações populares brasileiras. “É um projeto que está relacionado com preservação da memória, mas também com a valorização do corpo que pesquisa e produz conhecimento”, completa.
A aproximação entre universidade e cultura popular tem mobilizado pesquisas de pós-graduação. A pesquisadora do IA Adrielly Monticelli estuda as máscaras no teatro e destaca que o contato com mestres populares amplia as possibilidades de investigação artística. “Quando falamos de máscara, a referência costuma ser muito eurocentrada. Trazer um mestre da cultura popular para dentro da universidade cria uma troca muito rica. É importante que esses conhecimentos circulem”, afirma. “Uma pessoa sai do seu território para compartilhar aquilo que construiu ao longo da vida. Isso transforma a pesquisa.”
Monticelli conheceu o trabalho de Mestre Aguinaldo durante estudos ligados ao teatro de máscaras em Santo André (SP) e pretende visitar Pernambuco para assistir ao Cavalo Marinho em seu território de origem. “Assistir fora já é potente, mas viver isso no lugar onde pertence é outra experiência.”
Folguedo e fantasia
Na Zona da Mata Norte de Pernambuco, entre os intervalos do trabalho nos canaviais, nasceu o folguedo Cavalo Marinho, que mistura teatro, música, dança, poesia e improviso a partir de 76 personagens, entre humanos, animais e seres fantásticos. Nas apresentações, o enredo é conduzido pela música executada por um conjunto conhecido como “banco”, formado por rabeca, pandeiro, bagé, ganzá e reco-reco.
Mestre Aguinaldo Silva, professor visitante e Notório Saber em Artes Cênicas pela Universidade Federal da Bahia (BA), é dançarino, tocador e brincador de Cavalo Marinho desde os 12 anos de idade. Seu primeiro papel foi o de “dama”, personagem masculino vestido com roupas femininas. “Foi difícil no começo. Cidade pequena, eu tinha medo da reação dos colegas. Mas fui me acostumando e segui dentro da brincadeira”, contou.
Com o passar dos anos, tornou-se galante, contramestre e depois mestre do grupo fundado pelo pai. Hoje, aos 60 anos, carrega uma tradição familiar que já chega à quinta geração. “A gente precisa passar isso pra não deixar morrer.”
Atualmente, na função de professor universitário, sente orgulho de mostrar sua tradição. “Ver no olhar dos alunos como eles ficam encantados com as histórias do Cavalo Marinho, com a dança, com os movimentos das figuras, é muito importante”, destacou. “É uma vivência muito grande levar isso para dentro da universidade. Os alunos querem saber, perguntam, se interessam. O que for do meu saber, eu passo. Quanto mais a gente compartilha, mais a cultura continua viva.”
Matéria: Daniela Prandi | Fotos: Antoninho Perri | Jornal da Unicamp






