Projetos de arquitetura que valorizam a diversidade cultural e a sustentabilidade
Um ponto importante a ser levado em conta é o da tradição construtiva, a qual é permeada por condicionamentos climáticos, condicionamentos topográficos e uma série de outras condições de determinado l

O Brasil é um país extremamente multicultural e diverso, com vários biomas espalhados pelas suas regiões que contam com diferentes características. Devido a isso, a arquitetura praticada em cada região precisa se adaptar aos cenários e aos costumes da população que vive ali. João Marcos de Almeida Lopes, diretor do Instituto de Arquitetura e Urbanismo (IAU) da USP em São Carlos, explica porquê é tão importante levar a diversidade em consideração nos projetos de arquitetura.
“Os aspectos culturais às vezes não vêm dissociados da realidade física e geográfica que aquele povo está metido. Não tem cabimento eu chegar em uma cidade com 40 graus na sombra e fazer um prédio todo de vidro e cozinhar as pessoas lá dentro. Normalmente, a arquitetura e a construção correspondem muito à tradição construtiva daquele lugar. Essa tradição construtiva é permeada, atravessada por condicionamentos climáticos, condicionamentos topográficos e uma série de condições que são dadas por conta daquele lugar. A nossa tradição, por exemplo, é uma tradição de construção com terra, madeira e palha, isso vem lá de longe, diante da chegada dos portugueses no Brasil. A gente foi misturando isso tudo com várias outras tradições.”
“Nós temos uma tradição fortíssima da construção africana. Os escravizados vieram para o Brasil e trouxeram seus conhecimentos, como, por exemplo, os de carpintaria, os conhecidos carpinas eram excelentes carpinteiros que vieram da Guiné e de outros lugares da África para o Brasil e contribuíram para compor aquilo que a gente conhece de tradição construtiva hoje em dia, tudo junto com a tradição portuguesa. Acredito que há uma série de elementos que vão se compondo e construindo essa tradição construtiva. A importância de seguir ou de pensar isso em função de uma determinada cultura diz respeito a uma adequação daquilo que está sendo produzido ao contexto local. Nessa linha, é um absurdo a gente copiar uma arquitetura centro-europeia ou norte-americana e trazer para cá soluções que não correspondem ou não têm a menor adequação ao nosso clima”, explica Lopes.
A importância das exposições e mostras de arquitetura
A diversidade de estilos arquitetônicos também está muito presente nas exposições e mostras nacionais e internacionais que acontecem no Brasil. Amanda Saba Ruggiero, professora do Instituto de Arquitetura e Urbanismo da USP em São Carlos, explica a importância desses eventos para a sociedade. “As exposições são momentos importantes e contribuem de uma forma geral na construção das representações, ou da própria forma como a gente vai construindo o nosso entendimento do mundo e das coisas. Alguns teóricos ajudam a gente a pensar alguns conceitos, como, por exemplo, o de ‘dispositivos’, que é um termo usado por um filósofo chamado Giorgio Agamben, como modos ou como conjunto de ações que, na verdade, constituem um certo poder. Realizar uma exposição não é uma ação neutra, existe uma série de conjuntos, forças, pessoas, instituições, governos, patrocinadores e curadores que vão disponibilizar a sua obra.”
“É importante entendermos que essas exposições atuam como uma força da sociedade, de grupos, e que constituem uma representação, é uma certa vitrine. As exposições são eventos desde o século 19. A gente tem as grandes exposições universais, também muito importantes para a arquitetura, porque a gente tem a inovação tecnológica nos pavilhões, o pavilhão da grande exposição universal de Londres, depois as exposições norte-americanas que são vitrines da indústria, desse processo de industrialização. As nações mostravam o que elas estavam produzindo, desde artefatos até obras de arte, elas têm, de certa forma, esse valor histórico”, comenta Amanda.
As relações da arquitetura e da sustentabilidade
A professora comenta sobre o cenário atual da arquitetura quando se trata de sustentabilidade nos projetos e da diversidade de materiais e técnicas. “Quando a gente fala de sustentabilidade, é um conceito amplo que envolve muitas questões e vertentes, um bom profissional vai estar atento cada vez mais aos materiais, a origem e a qualidade desses materiais, a própria gestão do canteiro de obras, em que você tenta evitar o máximo possível de desperdício — na construção civil, por exemplo, há um índice muito grande de desperdício, quase 30% do material que é utilizado é descartado. Acredito que esse é um processo que tem sido, de alguma forma, colocado em previsão, é um processo que ainda é lento, mas até pelo próprio custo disso.”
“Hoje o descarte de uma obra é caro, e até o processo que a gente vê acontecendo devagar aqui no Brasil é o que a gente chama de reuso adaptativo, que consiste em, ao invés de você demolir uma edificação inteira, você pensar em formas de reutilizar a estrutura com outros usos, mas que possam, de alguma forma, atender à necessidade atual daquela comunidade, sem necessariamente ter que demolir tudo. Há alternativas e há modos de fazer isso de maneira inteligente que a gente poderia chamar de sustentável. Isso também vai gerar um ambiente que é menos quente, com menos energia através da iluminação. No caso do Brasil, a gente gosta de utilizar o máximo possível os efeitos naturais que a gente tem e, nesse ponto, somos privilegiados. Quando se fala das questões do conforto ambiental, os bons profissionais sempre estão atentos”, reforça Amanda.
“A gente pensa na sustentabilidade, é importante a gente pensar nessa variedade do tema e das ações que podem ser feitas e não somente a reciclagem, que também é um aspecto importante da construção civil, assim como o reuso de madeira e a reutilização de elementos construtivos. Eu acredito que, necessariamente, o arquiteto é obrigado a incorporar cada vez mais. É lógico que a gente poderia ter um incentivo maior a partir de políticas públicas que pudessem incentivar esse uso sustentável na indústria da construção civil para que ela pudesse despontar maior grandeza e velocidade. Há um esforço da classe, mas é sempre importante cada vez mais políticas públicas municipais, estaduais e federais para incentivar cada vez mais esses aspectos de modo amplo”, explica a professora.
“A gente pode falar em sustentabilidade, economizando água ou usando iluminação natural, mas eu acredito que uma forma de pensar a sustentabilidade de um jeito mais radical é retomar as tradições produtivas e olhá-las não como soluções anacrônicas que não funcionam, pelo contrário, gente precisa justamente olhar para elas e perceber o quanto elas estão muito mais adequadas às nossas condições climáticas e topográficas. É muito mais pertinente a gente pensar isso para chegar e atingir um patamar de solução sustentável mais coerente”, finaliza Lopes.
Matéria: Gabriel Albuquerque | Jornal da USP.




