Diretriz internacional redefine a abordagem da puberdade precoce central
Editorial da The Lancet Diabetes & Endocrinology destaca o potencial da diretriz liderada por professora da USP para transformar o diagnóstico e o tratamento da condição

A diretriz da Endocrine Society para o diagnóstico e o tratamento da puberdade precoce central, liderada por Ana Claudia Latronico, professora da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), ganhou projeção internacional ao ser tema de um editorial da The Lancet Diabetes & Endocrinology, uma das principais revistas médicas do mundo. A análise ressalta o potencial do documento para promover uma abordagem mais eficiente da condição. A puberdade precoce central é caracterizada pelo início da puberdade antes dos 8 anos nas meninas e dos 9 anos nos meninos.
Publicada no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism, periódico oficial da Endocrine Society, a diretriz atualiza o consenso internacional publicado em 2009 e incorpora os avanços científicos mais recentes sobre o tema. Para Ana Claudia Latronico, a diretriz busca alinhar as decisões clínicas às melhores evidências científicas disponíveis, garantindo que cada paciente receba a conduta mais adequada ao seu caso.
“Nos últimos anos, acumulamos evidências de que nem todas as crianças com puberdade precoce central evoluem da mesma forma ou necessitam das mesmas intervenções. A diretriz propõe uma abordagem mais individualizada, baseada em evidências, permitindo indicar exames e tratamentos apenas para quem se beneficiará deles. Isso representa um avanço importante para a prática clínica e para a qualidade do cuidado oferecido aos pacientes”, explica a professora.
Além de atualizar conceitos consolidados há mais de 15 anos, o documento também reforça a importância da tomada de decisão compartilhada entre médicos, pacientes e familiares, considerando não apenas os aspectos clínicos, mas também os possíveis benefícios, riscos e impactos do tratamento em cada situação.
Entre as principais mudanças propostas estão:
Observação clínica antes da realização de exames em muitos casos, evitando intervenções desnecessárias.
Dosagem basal do hormônio luteinizante (LH) como exame inicial, reduzindo a necessidade de testes de estímulo hormonal.
Menor indicação de ressonância magnética cerebral e testes genéticos, reservando esses exames para situações específicas.
Tratamento mais individualizado, com participação de médico, paciente e familiares na definição da melhor conduta terapêutica.

O trabalho reuniu especialistas de diversos países e é a primeira diretriz clínica da Endocrine Society sobre puberdade precoce central desenvolvida integralmente com a metodologia Grading of Recommendations, Assessment, Development and Evaluation (Grade), considerada o padrão internacional para elaboração de recomendações baseadas em evidências.
Puberdade precoce central
Distúrbio neuroendócrino com incidência crescente em todo o mundo, a puberdade precoce central (PPC) acontece quando há ativação prematura do eixo hipotálamo-hipófise-gonadal (HHG) com produção de esteroides sexuais gonadais e desenvolvimento das características sexuais secundárias antes da idade esperada, como o aparecimento de mamas em meninas e o crescimento dos testículos em meninos.
De acordo com o documento, a PPC é aproximadamente dez vezes mais comum no sexo feminino, sendo associada à menarca (primeira menstruação) precoce em meninas e ao potencial de diminuição da estatura adulta em ambos os sexos.
A menarca precoce, por sua vez, tem sido associada na população em geral a um risco aumentado de desenvolver obesidade no futuro, além de hipertensão, diabetes tipo 2, doença cardíaca isquêmica, acidente vascular cerebral, cânceres dependentes do hormônio estrogênio e mortalidade cardiovascular.
Repercussão
No editorial intitulado Less can be more: the 2026 Endocrine Society Guideline for precision care in central precocious puberty, a endocrinologista pediátrica Sasha R. Howard, da Queen Mary University of London, afirma que a diretriz representa uma mudança de paradigma ao priorizar uma medicina de precisão baseada na avaliação individual de cada paciente.
Para a pesquisadora, o reconhecimento recebido pela diretriz reforça o papel da ciência produzida na FMUSP na construção de soluções para desafios globais da saúde.
“A repercussão desse trabalho na The Lancet Diabetes & Endocrinology demonstra que a ciência produzida na FMUSP está conectada aos principais desafios da saúde global. É um reconhecimento de que nossas pesquisas não apenas ampliam o conhecimento científico, mas também contribuem para a construção de diretrizes que orientam a prática médica e podem beneficiar pacientes em diferentes países. Esse é um exemplo de como a pesquisa desenvolvida em nossa instituição pode gerar conhecimento com impacto internacional e contribuir para enfrentar questões de saúde que ultrapassam fronteiras”, afirma Ana Claudia Latronico.
A diretriz está disponível no Journal of Clinical Endocrinology & Metabolism: https://academic.oup.com/jcem/article/111/8/2101/8697368
Fonte: Jornal da USP.



