Punks in tha house
Entusiasmados pelo projeto conceitual de Nardin, começamos a tagarelar freneticamente sobre as providências para tentar viabilizá-lo
*Por Renato Ferrante
Este texto é continuidade de um material produzido pelo escritor Renato Ferrante, sobre a história da Cultura de Piracicaba contemporânea. As partes anteriores podem ser lidas pelos links:
Entusiasmados pelo projeto conceitual de Nardin, começamos a tagarelar freneticamente sobre as providências para tentar viabilizá-lo, adicionando ainda novas ideias. Onde conseguir os cavalos? E os fardos de feno? Quem cuidaria dos cavalos? Haveria seguranças disponíveis? E se colocássemos uma trilha sonora para criar um estranhamento no ambiente, uma coisa dissonante, tecnológica, tipo o disco Big Science, da Laurie Anderson? Provavelmente os cavalos começariam a escoicear os muros até derrubá-los para fugirem correndo, argumentou alguém. Entre risos, Nardin enveredou pela música clássica e sugeriu um ambience sonoro com Cavalgada das Valquírias, sugestão prontamente recusada com força. E se fizéssemos uma grande festa de encerramento do Sac na Pinacoteca? Decoração com blocos de feno, capim no assoalho, música alta e uma multidão dançante ocupando o espaço de arte, não seria bárbaro? Nossas cabeças giravam loucamente sob os olhares de Cláudia Paléo, que a tudo observava sem nada dizer.
Nosso momento de inebrio criativo era ainda elevado à potência máxima pelo ensaio dos Filhos da P, a banda punk de Joel Oliveira e Naomi Torigoi, que acontecia na Sala 2 do Teatro Municipal, a poucos metros da acanhada sala onde nos reuníamos. Um som furioso, semelhante a um chacoalhar e entrebater de crânios, acompanhado de urros primais e uma guitarra estridente que se recusava a qualquer sequência harmônica, chegava até nós em ondas sucessivas, providencialmente abafadas pela porta de isolamento acústico. Por algum motivo misterioso, de tempos em tempos algum funcionário da Secretaria abria a porta e aquela labareda sonora escapava do isolamento e espraiava-se pelo corredor como uma sirene do Apocalipse a lamber nossos tímpanos. Absolute cinema!
Com o Teatro Municipal de portas abertas após a demissão do ex-diretor Alceu Marozzi Righeto, e o destape cultural que se seguiu, os grupos emergentes do underground musical da cidade - como os Filhos da P, Couro Cabeludo (depois Último), formado por Juarez Borges, Carlos Ferrante e Antônio Nascimento, e outros - passaram a usar as dependências da Sala 2 para ensaios. Além do espaço, podiam desfrutar de microfones, amplificadores, caixas de som e outros gadgets eletrônicos de alto valor, inacessíveis às bandas iniciantes.
A algaravia daquele som combinado com a extravagância libertária da proposta de Nardin talvez tenham sido demais naquela tarde para a então coordenadora de projetos da Ação Cultural Cláudia Paléo. Verdade seja dita, Paléo se dedicava de corpo e alma ao salão e sempre foi, nesse e em outros eventos do qual participamos, de uma competência ímpar. Ao finalmente lhe perguntarmos se o projeto para a Pinacoteca estava aprovado, não se ouviram palavras, mas a resposta foi inequívoca. Com a boca cerrada, Cláudia desferiu um olhar fulminante na nossa direção, levantou-se da cadeira e saiu da sala. Estava encerrada a reunião.
Choro e ranger de dentes
Apesar de decepção, não me dei por vencido. Já na calçada esburacada e malcuidada nos fundos do Teatro, que permanece no mesmo estado até hoje, perguntei a Nardin se ele teria interesse em assumir a direção da Pinacoteca Municipal, ao que ele assentia com um sim.
Eu tinha um plano: oferecer a indiscutível capacidade e notório saber de Nardin para assumir o cargo vago de diretor da malfadada Pinacoteca. Seria, um grande trunfo para a nova gestão da Ação Cultural anunciar o seu nome. Sob a nova direção, teríamos caminho livre para realizar o projeto de intervenção artística na Pinacoteca. Mas essa conversa nunca chegou a acontecer. O próprio Nardin, de forma involuntária e, como direi, hilariante, acabaria por “arruinar” de vez a situação.
Por volta das 14h do dia seguinte eu voltei ao Teatro Municipal para executar meu ardiloso plano. Na entrada da sala de Paléo estava postado o diretor Roberto Dihel, sempre gentil e educado, que se limitou a me dirigir um olhar e retirar-se. Maus presságios, pensei. Ao adentrar na sala, uma cena insólita. Paléo em pé, com os olhos lacrimejando, contemplava várias folhas de grande formato, vivamente coloridas, espalhadas umas sobre as outras pelo chão. Ao ver-me, perguntou com voz chorosa:
- Porque o Nardin faz essas coisas? Me diga? O que ele tem contra Piracicaba?
E saiu da sala.
Estupefato, não entendi nada. A ficha, porém, logo caiu e percebi que aquelas eram as folhas para montagem do outdoor artístico de Nardin, uma das atividades externas do salão daquele ano. As “intervenções urbanas”, como as chamávamos, teriam ainda os grafites do trio Alex Vallauri, Carlos Matuck e Valdemar Zaidler, e as trabalhos semióticos da dupla de arquitetos e artistas plásticos Jorge Bassani e Francisco Zorzete, todos de SP.
Dez outdoors espalhados pela cidade, dois deles especialmente montados nos arredores do Teatro Municipal, haviam sido cedidos por uma empresa de mídia da cidade, de propriedade do empresário Luiz Carlos Oliveira, o Gaúcho, para exibição de trabalhos de artistas locais.
Nardin havia entregue seu trabalho logo antes de eu chegar ao Teatro, provocando mais uma tarde de choro e ranger de dentes na Ação Cultural. Seu mural colorido – que poderia ser definido como um “grafite neoexpressionista” –, mostrava que ele estava muito bem informado do movimento artístico que agitava a pintura naquele momento dos anos 80. O neoexpressionismo era uma volta às cores, à pintura executada de forma livre e gestual, à expressão de emoções intensas. Opunha-se ao minimalismo, à arte conceitual e outras formas artísticas dominadas pela frieza e intelectualidade que tinham prevalecido nos últimos anos. Na Alemanha, o movimento ficou conhecido como “Novos Selvagens” e, observando aquele conjunto de pedaços de papel de cores fortes e contrastantes, pintados com spray de tinta de forma livre e caótica, me perguntei se nele não haveria de fato uma forma de selvageria, uma “violência pictórica”. Indaguei meus botões: as lágrimas de Cláudia Paléo teriam sido a demonstração de um repertório artístico limitado, a expressão de um provincianismo jeca ridículo, como a princípio eu pensara, ou ela enxergara algo que meus olhos não viam?
Em uma das minhas conversas com Nardin eu lhe perguntara porque não se mudava em definitivo em São Paulo, já que seu estúdio de pintura ficava na cidade e me parecia muito mais estimulante, intelectual e artisticamente, morar na principal metrópole do país. A resposta me surpreendeu. “Fico em Piracicaba por que aqui eu sinto o caos”, me respondeu. “E eu preciso desse caos para pintar, para criar. Eu necessito disso”. Em outra ocasião ele voltaria a me surpreender, confessando sua mágoa em não ser reconhecido na cidade onde nascera.
Seria aquele aparentemente alegre e colorido mural uma representação do tormento emocional e da mágoa do artista com Piracicaba? “Me diverti muito fazendo esse trabalho”, ele me disse mais tarde. Onde estaria a verdade?
A verdade, no entanto, que eu precisava encarar naquele momento era que meu astucioso plano havia fracassado miseravelmente. Deixei de lado os devaneios sobre os abismos da alma humana e fui me consolar com um pastel de carne no Mercado Municipal.
Gran Finale
Apesar dos cuidados e prudências da Ação Cultural, e até episódios de sabotagem de divulgação*, o Salão de Arte Contemporânea daquele ano escapou do controle e se metamorfoseou em um escândalo de considerável proporções. Sacudiu o meio artístico local, gerou polêmicas e acusações, telefonemas irados, debates nos jornais e repercussões que duraram anos. Por meses, se tornou o “talk of the town” de Piracicaba (“Só se fala desse salão na cidade”, escreveu um editorial do Jornal de Piracicaba).O salão de arte contemporânea de 84 alcançaria ainda o maior público visitante da história dos salões de arte na cidade: cerca de 2.000 pessoas. O feito só seria alcançado, mas não superado, somente 40 anos depois, em 2024, no Sac de inauguração da nova Pinacoteca.
* Agindo nos bastidores e fazendo uso da influência que ainda tinha sobre a Pinacoteca, Alceu Marozzi Righetto – o ex Comissário do Povo para a Cultura e ex Ministro Plenipotenciário da Cultura do Reino de Piracangalha – conseguiu impedir a impressão de convites para a abertura do Salão de 1984, assim como o catálogo. O fato me foi revelado pelo artista plástico piracicabano Araken Martins, já falecido, na noite mesma de abertura do evento, quando estranhamos o pequeno público que comparecia. Inconformado com o sucesso do salão, Righetto ainda me faria um telefonema para “tirar satisfações”.
Renato Ferrante é editor em Três Gatos Editora e está escrevendo um livro sobre os anos 80 em Piracicaba.
Imagem: outdoor de Ermelindo Nardin para o Salão de Arte Contemporânea de Piracicaba de 1984. Grafite sobre papel offset.
Próximo capítulo: O dia em que Ignácio de Loyola Brandão disse que me invejava”.
1 - Leia outros capítulos já publicados nos links abaixo:
· REPÚBLICA SOCIALISTA DE PIRACICABA OU O REINO DE PIRACANGALHA?
https://www.viletim.com.br/p/republica-socialista-de-piracicaba?utm_source=post-email-title&publication_id=3006184&post_id=169581621&utm_campaign=email-post title&isFreemail=false&r=n7uik&triedRedirect=true&utm_medium=email
· NÃO HÁ VIDA INTELIGENTE EM PIRACICABA
2 - Veja fotos, vídeo e mais sobre os anos 1980 em Piracicaba nos posts abaixo:






