Qualidade de vida que pulsa pelos caminhos ao ar livre
Praças convidam a pequenas pausas, e áreas verdes servem de abrigo, respiro e oportunidade para praticar atividade física
Para quem chega, é o corpo que percebe primeiro. Ao cruzar as entradas da Unicamp no campus de Barão Geraldo, mais do que prédios e salas de aula, entre a natureza e o movimento, são os caminhos arborizados que convidam a pequenas pausas. Nesse instante inaugural, antes de oferecer conhecimento, a Universidade pulsa como abrigo e respiro.
Em meio ao concreto, o campus se afirma como uma “ilha verde”. Vista do alto, a área da Unicamp se desenha como uma natureza que resiste; ao nível do chão, esse traço se transforma em experiência, com saguis nas copas das árvores e o canto das aves que, por instantes, suspende o ruído da cidade. Ao longo do dia, a Universidade se reinventa nos usos. Os parques se tornam trajetos de caminhada e corrida no final da jornada diária; bicicletas cruzam as vias em fluxo contínuo e, sob as árvores, grupos se reúnem em piqueniques improvisados.
Parte desse cenário é resultado de um trabalho contínuo de gestão ambiental, que envolve desde o cuidado com animais até o planejamento das áreas verdes e a preservação da biodiversidade. O prefeito universitário, Juliano Finelli, ressalta que, além de garantir o funcionamento do campus, a Prefeitura foca na qualidade de vida da comunidade. “A nossa preocupação é oferecer um ambiente acolhedor, seguro e agradável, onde as pessoas possam viver o campus, circular, estudar, trabalhar e conviver.”
Entre institutos e vias, a vegetação compõe um mosaico de origens diversas, com espécies da Mata Atlântica e do Cerrado, que convivem com árvores trazidas de outros territórios ao longo das décadas. Ipês que explodem em cor, jerivás que se erguem esguios, pitangueiras e mangueiras, além de muitas outras árvores frutíferas, oferecem frutos e sombra.
Maria Gineusa de Medeiros e Souza, coordenadora da Divisão de Meio Ambiente da Prefeitura Universitária, destaca que a Universidade mantém um levantamento sistemático da fauna e flora. Mas ressalta que, mais do que infraestrutura, o campus também desperta vínculos afetivos. “As árvores, por exemplo, compõem uma paisagem que carrega histórias.”
Pelo menos 17 mil árvores ocupam ruas, praças e unidades de ensino que, junto com os cerca de 500 mil metros quadrados de áreas de preservação ambiental, fazem da natureza uma presença constante que molda o clima, o ar e a forma como se habita o espaço. Segundo a coordenadora de serviços das áreas verdes da Prefeitura Universitária, Camila Alonso Santos, as áreas de preservação permanente estão consolidadas, mas exigem cuidados e planejamento. “Esses espaços são essenciais para a fauna silvestre, que circula por todo o campus. A diversidade de árvores e de abrigo também favorece a permanência da fauna, mesmo em um ambiente urbano.”
Da fauna silvestre, aves, insetos e pequenos mamíferos encontram abrigo e alimento nas áreas verdes. Nas partes preservadas e no entorno, surgem sinais de presenças mais discretas: veados, cachorros-do-mato e até rastros de passagem da tão temida onça, já flagrada pelas câmeras de monitoramento. Mais do que apenas refúgio, o campus é um corredor ecológico que permite que a vida circule.

Floresta urbana
Aproximadamente 10 mil árvores do campus já foram cadastradas em um sistema acessível ao público, por meio do site Floresta Urbana Dentro do projeto está o Pomar da Unicamp, criado em outubro de 2025 pelo servidor público e ambientalista Helio Cavalheri Jr., com o apoio da Prefeitura Universitária. Mais do que um simples catálogo, a plataforma foi concebida como uma ferramenta de educação ambiental, voltada à divulgação das espécies frutíferas existentes no campus.
Antes de se tornar projeto, site e mapeamento, no entanto, tudo começou pelo encantamento. Para Cavalheri Jr., a relação com a Unicamp nasceu do olhar, e esse olhar foi imediatamente atraído pelas árvores. Quando ingressou pela primeira vez na Universidade, em 2012, o que mais o impressionou não foram os prédios ou as vias do campus, mas a quantidade e a diversidade de espécies encontradas pelo caminho, especialmente as frutíferas. “Assim que eu pisei aqui, a primeira coisa que me encantou foi a diversidade gigantesca de espécies, muitas das quais eu só tinha visto em livro.” O fascínio nasceu nos trajetos mais simples, nas caminhadas até o Restaurante Universitário, durante o horário de almoço.
Cavalheri Jr. deixou a Universidade em 2016, mas, sete anos depois, estava de volta e retomou sua pesquisa pessoal, que deu origem ao projeto Floresta Urbana. O trabalho, iniciado de forma independente, ganhou continuidade e avança sistematicamente, mapeando as árvores do campus de Barão Geraldo e se estendendo aos campi de Limeira e Piracicaba.
Em uma das primeiras ações do projeto, Cavalheri Jr. transformou a curiosidade em experiência compartilhada. Criou plaquetas com QR codes e as instalou junto às árvores, de modo que qualquer pessoa pudesse, ao apontar o celular, descobrir a história daquela espécie — seu nome, origem, se era nativa ou exótica, e até se oferecia frutos comestíveis. O gesto, inicialmente feito de forma artesanal e com recursos próprios, tornou-se o embrião do sistema de mapeamento que hoje se expande pelo campus.
Entre todas as espécies, são as frutíferas que ocupam um lugar especial em sua memória e em sua paixão. Ao descrever a ameixa-da-mata, por exemplo, ele prefere traduzi-la em experiência: o sabor, diz, lembra uma mistura de jabuticaba com pitanga. Esse vínculo também se expressa no cuidado cotidiano. Preocupado com árvores que vinham sendo danificadas pela roçadeira durante a manutenção das áreas verdes, ele decidiu agir por conta própria, abrindo espaço ao redor dos troncos e protegendo espécies nativas e frutíferas.
Mais do que frutos, ele enxerga nessas árvores uma forma de educação ambiental e de pertencimento. “Quando a pessoa sabe que aquela é uma espécie frutífera, nativa, importante para os pássaros e para os mamíferos, ela passa a olhar diferente”, afirma. Ao percorrer o campus, Cavalheri Jr. observa não apenas a presença das árvores, mas a vida que elas sustentam. Frutíferas como grumixama, cajá-manga, tamarindo, abiu e ameixa-da-mata atraem pássaros, saguis e outros animais. “Onde tem fruta, tem vida.”
Os vários modos de habitar o espaço
A natureza convida à pausa, e o corpo em movimento prolonga essa experiência. Caminhar, correr ou pedalar deixam de ser apenas deslocamento para compor os modos de habitar o espaço. É nesse território entre o cotidiano e suas possibilidades que a Diretoria de Esportes da Pró-Reitoria de Extensão, Esporte e Cultura (Proeec) busca atuar.
Mais do que ampliar a oferta de atividades, o desafio está em transformar a relação da comunidade com o campus e fazer com que ele seja vivido também como lugar de cuidado e bem-estar. “A ideia é que as pessoas se apropriem do campus como um espaço para prática de atividade física e lazer”, destaca o diretor de Esportes da Proeec, Renato Barroso da Silva.
“O campus não é só um lugar para estudar e ir embora. Ele pode ser um espaço de convivência, de qualidade de vida. Hoje, esse uso já existe, mas de forma dispersa, e permanece como gesto individual, não plenamente incorporado à cultura universitária”, ressalta.
O engajamento segue como um dos principais desafios. “Não é falta de interesse, mas muitas vezes as pessoas não se veem nesses espaços ou não sabem que podem participar”, avalia. Apesar das dificuldades, a expectativa é de avanço gradual na consolidação de uma política esportiva mais abrangente na universidade. “Estamos construindo isso aos poucos, tanto do ponto de vista institucional quanto cultural”, conclui.









