Nilton Freire, médico da equipe de Psiquiatria e Saúde Mental da Santa Casa de Piracicaba, destaca a importância de reconhecer sinais de sofrimento emocional e buscar ajuda profissional
Nem sempre uma pessoa em sofrimento emocional consegue dizer claramente que precisa de ajuda. Muitas vezes, são mudanças de comportamento, isolamento, desesperança ou falas aparentemente indiretas que sinalizam que algo não vai bem e merecem atenção de familiares, amigos e pessoas próximas.
Reconhecer esses sinais e saber como agir é uma das formas de prevenção ao suicídio, tema que ganha maior visibilidade em setembro e, especialmente, em 10 de setembro, Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio.
Para Nilton Freire de Assis Neto (CRM 192.372), médico integrante da equipe de Psiquiatria e Saúde Mental da Santa Casa de Piracicaba, o comportamento suicida é complexo e não pode ser atribuído a uma única causa. Fatores emocionais, sociais, ambientais e condições de saúde podem estar envolvidos e precisam ser considerados individualmente. Essa abordagem multifatorial também é destacada pelo Ministério da Saúde e pela Organização Mundial da Saúde (OMS).
Segundo a OMS, mais de 720 mil pessoas morrem por suicídio anualmente no mundo. A entidade reforça, porém, que existem intervenções efetivas de prevenção e que oferecer apoio no momento adequado e facilitar o acesso ao cuidado podem fazer diferença.
No Brasil, o suicídio permanece como importante questão de saúde pública. Em 2024, foram registradas 16.751 mortes por suicídio no País, segundo dados do Sistema de Informações sobre Mortalidade (SIM/DataSUS). O número reforça a importância de reconhecer sinais de sofrimento emocional, ampliar o diálogo sobre saúde mental e, sobretudo, favorecer o acesso à assistência profissional antes que uma situação de crise se agrave.
Quais sinais devem chamar a atenção?
Mudanças acentuadas de humor e comportamento, isolamento social, perda de interesse por atividades antes valorizadas, sentimentos persistentes de desesperança, falas sobre não ter motivos para viver ou ser um peso para outras pessoas e manifestações relacionadas à morte estão entre os sinais que merecem atenção. Nenhum deles, isoladamente, permite afirmar que haverá uma tentativa de suicídio, mas mudanças importantes não devem ser ignoradas.
Perguntar sobre suicídio pode incentivar a pessoa?
Não. Esse é um dos mitos que dificultam a prevenção. Perguntar de maneira direta e acolhedora se a pessoa está pensando em tirar a própria vida não coloca essa ideia em sua cabeça. Ao contrário, pode abrir espaço para que ela fale sobre o sofrimento e receba ajuda.
Como abordar alguém que demonstra sofrimento intenso?
O primeiro passo é ouvir sem julgamento e levar aquilo que a pessoa diz a sério. Evitar minimizar o sofrimento, fazer comparações ou oferecer respostas simplistas é importante. A pessoa deve ser incentivada a procurar atendimento profissional e, diante de risco imediato, não deve permanecer sozinha. Por isso, prevenção também acontece nas coisas que parecem simples: Perguntar como alguém está, estar disponível para ouvir, não julgar e ajudar na busca por cuidado.
Quando é hora de procurar ajuda profissional?
Não é necessário esperar que o sofrimento se torne extremo. Alterações persistentes de humor, comportamento, sono, rotina ou relações, além de sentimentos intensos de desesperança e dificuldade para lidar com as atividades cotidianas, justificam uma avaliação. Quando há pensamentos sobre morte, autoagressão ou suicídio, a procura por ajuda deve ser imediata.
Para Nilton Assis, ampliar o diálogo sobre saúde mental ajuda a reduzir preconceitos e pode facilitar a procura por assistência. Em 2026, esse é também o foco da campanha mundial, que traz como tema “Changing the Narrative on Suicide” (Mudar a narrativa sobre o suicídio) e propõe substituir silêncio e estigma por conversas abertas, acolhimento e acesso ao cuidado.




