Este texto abaixo, com este mesmo título, foi publicado na revista Viletim, edição 18, de outubro de 2002, como uma espécie de editorial. Perceba que o humor nos salvou de dar uma barrigada tremenda, esperando grande coisa de Lula, que estava na fila do Planalto Central.
Delfim Neto nos deu a chave para o texto, e seguimos com a nossa irreverência. Vale ler.
“Há pelo menos dez anos Delfim Neto professou que o Brasil teria que passar por uma experiência petista na administração federal ‘às custas do povo brasileiro’ que, segundo ele, ‘pagaria um preço alto para financiar os experimentos econômicos e sociais do Partido dos Trabalhadores’.
“Há mais ou menos quinze anos, Luís Inácio Lula da Silva se prepara para cumprir a profecia de um dos mais ilustres representantes do autoritarismo militar, regime que obscureceu esta nação por longos vinte anos e, pelo qual, todos nós pagamos até hoje um preço muito alto enquanto seus líderes estiveram comandando com mãos de ferro esta nação.
“De lá para cá muitas coisas mudaram, inclusive o Delfim e o Lula são completamente outros (?). Mas se tem uma coisa com que nos acostumamos, é com a ideia de que somos de fato um imenso laboratório, e cada brasileiro uma cobaia sempre à espera de novos cientistas que chegam ao poder pensando em se divertir às nossas custas.
“Depois do regime militar, financiamos um imenso laboratório brega e improdutivo sob a direção de ‘Sir Ney’; investimos pesado em um laboratório ‘supermoderno’ e veloz pilotado pelo cleptomaníaco Collor.
“Passamos também pelas tormentas resultantes de experimentos desvairados na fase do mineiro Itamar. E, finalmente, convivemos durante oito anos como cobaias de um experimento muito bem elaborado, mas nem tão bem-sucedido assim, sob o reinado de FHC – I e II.
“Finalmente, teremos que experimentar essa grande onda rosa, sob o comando de Lula, que traz consigo uma legião de novos cientistas ávidos para colocar em prática suas teses políticas, econômicas e sociais. E nós, aqui, estaremos para servir como piloto de prova desses bons-meninos. É a profecia de Delfim se concretizando.
“Por falar em profecia, Lula vem sob o aplauso de quem prenunciou sua chegada. Ou seja, ninguém mais, ninguém menos do que o próprio Delfim Neto. E o ciclo se fecha.
“Isso pode representar uma nova fase, uma nova história para o país, se os líderes que agora assumem esse imenso laboratório compreenderem que, assim como os experimentos e os experimentadores evoluíram, as cobaias também não ficaram para trás. Somos hoje muito mais experientes e exigentes que outrora. Não será por um simples chamado que nos ajoelharemos aos pés de quem quer que seja por um prato de lentilhas.
“Hoje somos livres, temos direito de opinião - apesar da meia dúzia de ranhetas que policiam aqueles que não rezam a mesma cartilha, queremos estar em sintonia com o mundo, exigimos equilíbrio, ponderação e não estamos mais à mercê de cientistas malucos.
“Se o experimento da “tchurma” de Lula não for bem-sucedido, a luta continua, companheiro. Daqui a quatro anos tem mais. Esperamos somente que durante esse longo período a gente não sinta saudade do tempo em que o rei se chamava Fernando Henrique Cardoso.
“Pelo bem da verdade, Lula acaba de ser pré-eleito. Em 2006 sim será o ano em que poderemos dizer que de fato encontramos um pessoal habilidoso, capaz de potencializar nossas capacidades e levar adiante o cansado aforismo (irrealizável) de que o Brasil é um país do futuro. Nesse sentido, depois desta fase experimental, daremos nossos votos para valer ao Lula e sua trupe de assessores. Caso contrário, se abrirá um novo ciclo, e novos cientistas virão e a lusitana continuará rodando na contramão da história. Ciente de tudo isso, que venha o Lula. E que não sejam falsos os novos profetas!”
Eita nóis. O Viletim sempre foi cultura e capacidade analítica. Mas erramos. Lula era um falso profeta e continua no poder. Não ponderamos essa possibilidade de o eleitorado gostar de ser enganado. Passaram-se 24 anos e estamos aqui, observando a lusitana empacada. Não roda.
Há sim a possibilidade de termos Flávio Bolsonaro no poder. Mas isso não seria um avanço, porque já tivemos o seu pai no poder e nada de renovador aconteceu. O Brasil é um laboratório de ideias erradas. Esta é a mea culpa sobre o editorial da velha e visionária Viletim, uma vez que os novos profetas eram, de fato, pura fake news.




