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2. Os postos de trabalho mais solicitados, ou seja, as “tendências de trabalho em alta”, continuam sendo do tipo “apertar parafusos”, só que os parafusos agora são um pouco mais complexos e demandam formação de outro tipo.
É notório e sabido que a Revolução Industrial europeia, a partir do século XVIII, iniciou uma onda de padronização. Medir tamanho, volume, peso, área, era uma dor de cabeça para comerciantes que se propunham vender fora de suas regiões, havia milhares de medidas, uma em cada região da Europa. Ninguém queria mais depender, por exemplo, das medidas da mão do rei, que obviamente em cada país mudava de tamanho.
O que antes era feito pela ponta da espada – imposição de medidas, moedas, produtos – passou a ser feito por necessidade do comércio, auxiliado pelos novos conhecimentos científicos, que também dependem, mas ao mesmo tempo, se retroalimentam da padronização.
Não era bom para os negócios converter barris em galões e assim por diante, porque a equivalência nunca era exata e sempre alguém tomava na cabeça.Também era mais prático, mais rápido, que todo mundo fabricasse, e vendesse, produtos com as mesmas unidades de medida.
Por exemplo, como vender a implantação de ferrovias em todo o mundo, se as bitolas – largura dos trilhos – fossem diferentes? Compensava muito mais fabricar todas as peças do mesmo tamanho, para serem montadas como um quebra-cabeças. Facilitou a fabricação, a construção e a manutenção das linhas férreas.
Os cientistas ajudaram na tarefa, principalmente para organizar o inferno social que se instalou na França, e depois no resto da Europa, a partir da Revolução Francesa. Libras, onças-troy, polegadas, acres, galões saíram de cena e chegaram os quilos, centímetros, metros cúbicos com o sistema métrico decimal (SI).
Padrão é uma medida fixa. É um molde no qual se encaixa a fabricação de determinada peça, produto, ou um serviço. Para você entender melhor, vou explicar como se faz uma cocada.
Uma cocada nunca será igual à outra se for feita manualmente, no sistema tradicional, com coco ralado no ralador à mão, e os outros ingredientes medidos a olho, cozidos em fogão a lenha. Mesmo que se utilize uma receita, que já é um tipo de padronização. Dependendo da doceira, podem sair do forno muito ou pouco doces, muito secas ou úmidas, queimadas ou quase cruas. Fora o tamanho do corte das cocadas: cortadas a mão, sempre serão diferentes.
No processo industrial clássico, tudo é medido, desde o processo de compra dos cocos com fornecedores selecionados, passando por quebrar os cocos, extrair a polpa e o ralamento, a mistura com o óleo, açúcar, leite ou leite condensado, a quantidade de cada ingrediente medida milimetricamente, assim como a temperatura do cozimento, as medidas das formas para envasamento, as dimensões da embalagem, o encaixotamento. Como o produto será exibido nos pontos de venda também obedece à um padrão. Quando o consumidor morder a cocada, sabor, tamanho, textura e os nutrientes, constantes da embalagem, serão rigorosamente iguais em cada unidade.
As cocadas deixaram de ser fabricadas da maneira artesanal na Bahia, assim como acarajés, vatapá, mungunzá e cafunés, Carmem Miranda e Dorival Caymmi faturaram milhões, o Brasil passou a ser uma potência mundial no setor cocadístico.
Os tecidos deixaram de ser fabricados em teares manuais. Foram os primeiros a serem padronizados em sua fabricação. Aliás a programação dos teares no século XVIII foi a primeira forma de automação informatizada, através de cartões perfurados – o tear Jacquard revolucionou o mundo tanto quanto a Revolução Francesa - a mesmíssima tecnologia de entrada e saída de informações utilizada nos computadores até a década de 1970. Eles garantiam que uma peça de algodão da mesma fábrica era igual à outra peça, de forma automática, sem depender da habilidade de um tecelão artesanal. Cada peça tinha de uma linha de produção tinha o mesmo peso, a mesma padronagem, era embalada da mesma forma, tinha o mesmo preço.
Tear Jacquard, com o sistema de cartões perfurados inventado em 1801. Era um mecanismo programado com instruções com furos, ou seja, zeros e uns. Linguarem que foi utilizada nos computadores.
Isso porque a produção precisou ser adaptada às máquinas. Uma peça de tecido tinha a mesma largura, se fabricada em um tear mecânico. A programação com os cartões permitiam a variação das estampas, mas dentro de um lote a padronagem era a mesma. A produção aumentou, porque as máquinas eram mais rápidas que o processo anterior, feita com máquinas rudimentares, como a roca ou o tear manual. Perdemos a personalidade de uma peça única, distinguível uma da outra, mas ganhamos popularização dos produtos, um tecido produzido em uma máquina era muito mais barato que um feito à mão.
Operária substitui bobinas de fio num tear, Nottingham, Inglaterra, 1918.
O mundo dos objetos foi padronizado. Quase tudo o que existe foi encaixado em um padrão. De um prego a um míssil nuclear, passando por 100% dos objetos do nosso cotidiano, ao mesmo tempo em que os serviços também foram sendo “encaixotados”, produzidos e moldados a partir de uma mesma forma. Assim, restaurantes viraram fast-foods, a venda de produtos a granel – arroz, feijão, farinha, carne, vendidos a quilo, na quantidade que se precisasse - passou dos armazéns de secos e molhados para os supermercados. Refeições prontas congeladas e fast-food completaram o ciclo, nem mesmo cozinhar precisamos mais.
Também padronizou-se o restante da vida, antes do nascimento de cada pessoa, até em sua vida pós-túmulo. Há padronização para tudo. Mesmo que ainda existam produtos artesanais ou serviços sem padronização, justamente por isso eles são mais caros e dão mais status a quem pode comprá-los, por serem únicos, irrepetíveis.
A vida do homem globalizado padroniza bens de consumo e transforma também outros elementos da vida em pacotes identificáveis e vendáveis. Religião, filosofia, ciência, arte, nada escapou da standardization.
Um desses serviços – sem o qual não existiria a humanidade que conhecemos hoje - é a educação.
Diríamos que hoje a educação mais urgente e necessária é a que chamamos, sem rebuços, de treinamento profissional. Os famigerados cursos técnicos, ou meros treinamentos menos especializados, são um tempo e espaço para encaixar trabalhadores nos padrões da indústria, comércio, transporte, e o que mais for necessário para manter as engrenagens funcionando.
Mas até os cursos universitários, que nasceram dentro de uma cultura outra, que priorizava a contemplação, em grego theoría, mudaram para padronizar tanto a transmissão de conhecimentos quanto a produção de novos.
Hoje, a universidade é uma linha de montagem de diplomados. Vamos falar do Brasil, que conhecemos melhor. Há pouca produção de pensamento relevante, que pressupõe a theoría no seu sentido original. Ou seja, que não é “produção” no sentido industrial. Deseja-se, e trabalha-se para isto nos departamentos destas instituições, para a produção de teses, dissertações, publicações em revistas acadêmicas do mundo desenvolvido, para exibirem-se números, supostos sinais de eficiência e bom emprego de verbas públicas.
No frigir dos ovos, as galinhas mais rentáveis são os cursos de exatas. Num país onde as cadeias de produção industrial da área de “humanas” são paupérrimas e quase inexistentes, as vagas de emprego mais bem remuneradas são as de ciências exatas, especialmente as engenharias. Manter as fábricas que produzem tudo o que se precisa para o dia a dia de milhões de habitantes requer minimamente técnicos, engenheiros, supervisores e operários que saibam apertar os parafusos, conduzir testes de conformidade, operar máquinas e fábricas inteiras que hoje, já funcionam com um só profissional supervisionando tudo.
As universidades viraram linhas de montagem de profissionais técnicos e instituições concessionárias de licenças. Os anúncios apregoam “prepare-se para o mercado de trabalho”, e não “pense com profundidade a respeito da profissão que você vai exercer”. Todo mundo precisa trabalhar, mas para isso, seria mais honesto se houvessem mais cursos de tecnólogos e em nível médio, do que universidades de apertadores de parafusos.
Enquadram-se nisto também a medicina e o direito, por estarem blocados como as tecnicidades do cálculo de máquinas e produção industrial. A Medicina, padronizada em especialidades, com o corpo humano visto de forma mecanicista, dividido em “sistemas” (nervoso, digestório, respiratório, reprodutor etc.) - um psiquiatra é uma espécie de mecânico, que sabe “apertar os botões” da mente, com medicamentos -, e o Direito, na padronização das leis, que monopolizaram a ética e comportamento social, a ponto do Bem ser confundido com as Leis (sim, são diferentes, embora possuam - e devam possuir - relação profunda).
É impossível negar que a organização social construída a partir da Revolução Industrial trouxe uma prosperidade inédita ao mundo inteiro. Inclusive com a possibilidade de termos mais tempo livre para nos dedicarmos à metafísica, às artes, à cultura, ou que quer que queiramos fazer para enriquecer nosso espírito ou simplesmente fazer nada, olhar para o teto, para o céu, ou para o próprio umbigo.
Parece, contudo, que enriquecer o espírito enquadrou-se em mais um “nicho de mercado”, algo exótico a ser satisfeito para um punhadinho de pessoas, esquisitos que não querem ver vídeos do TikTok ou no YouTube Shorts, nem assistir aos streamings, nem “curtir” as músicas do Spotify.
Nossos desejos mais profundos de transcendência, se algum dia se manifestarem para além dos clichês mais comuns: “vida corrida” ou “vida lôka”, “trabalhar para pagar os boleto”, “aproveitar a vida porque vamos morrer” e “eu mereço ser feliz”, serão encaixotados nas palavras-chaves de busca “filosofia”, “religião” ou “autoajuda” no site da Amazon. Quem sabe até “sentido da vida”.
Insinuei há alguns parágrafos atrás que carreiras de “exatas”, como as das engenharias, mas também Medicina e Direito, estão encaixotadas numa padronização tamanha, que é possível seguir essas carreiras e não ser criativo.
Você dirá que a criatividade é possível, e mesmo necessária, nas profissões citadas.
Sim, claro. Mas lembrem-se, estamos no Brasil.
Não estamos em uma sociedade que preza a criatividade, ela na verdade a desestimula. Criativos matam leões, no plural, por dia, para se colocarem e terem seu trabalho aceito. A inveja e a mediocridade imperam, puxam o tapete dos criativos. Quando desanimam (e não são poucos), debandam do país, a conhecida “fuga de talentos” para o exterior.
É só olhar para o mercado: é mais barato e menos trabalhoso reproduzir o que vem do exterior, e mais barato ainda não reproduzir, comprando tudo pronto mesmo. É por essa razão que não temos um Vale do Silício verdadeiro, que traga inovações tecnológicas de ponta. Mesmo que existam cidades que se autointitulem “vale do silício brasileiro”.
Por isso, nossos principais produtos de exportação são as famigeradas commodities, que exigem baixa tecnologia, com exceção dos óleos brutos de petróleo e óleos combustíveis: soja, café, açúcar e melaços, minério de ferro, carne de boi e frango, celulose, milho, e os mencionados produtos derivados do petróleo.
Basicamente, matérias-primas, e não produtos manufaturados, nem serviços, que são tem preços muito mais elevados que commodities. O único produto que faltou, que faz parte desta lista, e o único manufaturado de alta tecnologia, são os aviões. Somados, os produtos acima citados giraram em 2023 um total de 200 bilhões de dólares em exportações.
E os produtos culturais? Não somos muito bons em música?
A cantada e decantada música brasileira, em sua gangorra de qualidade, como é vendida para o mundo, começou seu caminho de exportação com Carmem Miranda, teve tempos de glória com a Bossa Nova, degringolou depois disso e hoje quer vender Anitta como uma cópia malfeita da Shakira, Rihanna e quetais como música autêntica do país. Ha ha ha, uma cópia autêntica, não se pode negar.
Como os números de exportação da música nacional giraram um mercado de R$2,5 bilhões de dólares em 2023, não se pode desprezá-los. Ou pode-se, pensando que não é mais música brasileira de fato, e sim, uma música descaracterizada, sem nada que a diferencie dos artistas norte-americanos nos quais cola, os copiando.
Fora que grande parte do mercado musical brasileiro está na mão de distribuidores estrangeiros, a maior parte do dinheiro não fica no Brasil. Desde Carmem Miranda.
Vamos diretamente ao ponto, agora mesmo: sentar a bunda na cadeira, ler muito e escrever um texto ou preparar uma aula (uma aula decente) não é um trabalho padronizável. Assim como o trabalho artístico, em suas gradações que se iniciam no artesanato, na arte popular, e chegam até a Grande Arte.
Imagem idealizada de um intelectual. A inteligência artificial sabe nada, inocente.
O trabalho intelectual na tradição humanística ocidental não se presta a padronizações do tipo linha de montagem e produção em série por conta de sua própria essência. Este tipo de trabalho, absolutamente necessário à sociedade, se depender de ser encaixotado numa linha de produção, necessariamente será empobrecido, ou morto, ao nascer.
Mas justamente é o que se apregoa hoje. Cursos de formação profissional ou humanistas foram padronizados já na decada de 1950, com as famosas “máquinas de ensinar” da psicologia behaviorista norte-americana, dos psicólogos John B. Watson e B.F. Skinner. O método é hoje utilizado por escolas como Kumon e o aplicativo de ensino de idiomas Duolingo. A metodologia, em sua origem, utilizava fitas cassetes e discos, com cartões de respostas, em livros de exercícios em que o aluno aprendia tudo sozinho, de forma automatizada. Nas décadas seguintes, passou-se a utilizar os primeiros computadores pessoais, e hoje a metodologia encaixa-se perfeitamente nos smartphones.
Respostas únicas, “de acordo com o manual”, são a tônica desses métodos automatizados. A formação básica, da educação infantil, passando por ensino fundamental e médio, até a universidade, está caminhando cada vez mais nessa direção, com os famigerados “sistemas apostilados”.
Vejam, a variabilidade, nuances e subjetividade, próprias das ciências humanas e das artes, são colocadas de lado, quando se esperam “respostas certas” de acordo com o manual. O irônico é termos este tipo de ensino em cursos de pós-graduação EAD, como o último que fiz, onde a crítica de Paulo Freire à “educação bancária” é ensinada num sistema norte-americano que é contraditório à própria crítica exposta.
A penúltima fronteira da padronização nociva, talvez, tenha sido a programação, ou como é hoje chamada, o “desenvolvimento em T.I.”. Ainda um trabalho criativo, embora altamente técnico, e por isso valorizado. A Terceira Revolução Industrial, que trouxe a massificação da informática, demanda ainda hoje um número enorme de profissionais, afinal toda empresa “precisa” de um site ou de um aplicativo mobile. Ou pelo menos, de softwares dedicados de serviços para gestão corporativa.
Mas agora toda uma categoria de profissionais está tendo seu ofício reformatado com as IA's. Peça ao ChatGPT que programe páginas em CSS ou código em C++ e ele fará o que for pedido, sem a necessidade de queimar as pestanas na escrita de centenas de códigos. É claro, é necessário saber o que pedir, e aí estará a salvação dos apertadores de parafusos da Nova Economia da Informação, pelo menos até o ano que vem, enquanto as IA's ainda não aprendem como fazer tudo sozinhas.
A última fronteira da padronização ainda não foi alcançada, que é a substituição do trabalho intelectual por fluxos de produção automatizados.
Este trabalho intelectual – no qual estão englobados a filosofia, a arte, e a produção científica ligada à pesquisa original - não envolve somente criatividade, mas acima de tudo a capacidade de contemplar, a theoría.
Há quem pense que é somente uma questão de tempo as Inteligências Artificiais produzirem textos com análises comparáveis a Freud, romances como os de Proust, sinfonias como as de Beethoven. Ou imaginar produtos revolucionários como a máquina a vapor, o walkman ou o iphone.
É curioso, no entanto, ver que os especialistas em IA's não são unânimes neste juízo, e alguns afirmam que nunca será possível uma delas produzir algo original, que mostre as centelhas da criatividade, que nos levem àquele lugar para o qual a Arte sublime nos leva, e que não sabemos muito bem onde é. Só sabemos que ele existe, e que chegamos a ele pelas obras de arte. As IA’s aprenderão o caminho para chegar lá?
O que prevejo é que, tão acostumados à mentalidade da padronização, produção em série e massificação, nós passaremos a consumir cada vez mais simulacros de obras de arte, textos analíticos, romances, filosofia. Esses simulacros já existem, já invadiram o mercado.
Minha previsão, que não é nenhuma sacada de gênio, é que ficaremos satisfeitos com esses simulacros, produzidos por IA's especializadas em produção de música, de romances, de imagens – a eles ficaremos conformados.
Logo, obras mais complexas, como filmes e games, assim como livros de filosofia e de ciências humanas, serão produzidas inteiramente por IA's, replicando a cultura do século XX e XXI ad nauseam. Ficaremos presos na mesma época para sempre, utilizando “de forma prática” as produções cuspidas para uma sociedade que, em sua maioria, não precisa pensar mais, nem ser criativa.
É preciso dizer que a qualidade desses simulacros será inferior ao Sublime, ao Belo, ao Instigante, que as grandes obras, os clássicos, nos oferecem? Mesmo soando tão sábias, sublimes, belas e complexas, serão somente isso mesmo: simulações, feitas para “soarem” excelentes, mas tão fakes quanto uma gravação de um sino substitui as batidas de um sino real.
Faltará somente, então, uma IA, uma máquina, querer para nós. Quando terceirizarmos a nossa vontade, os nossos desejos, nossa capacidade de transcender, de ultrapassar as fronteiras do físico para adentramos nos territórios da alma, estará para sempre prejudicada, e mataremos o último resquício de humanidade em nós.
A produção intelectual que realmente move o mundo – a filosofia e a pesquisa original científica, de “exatas” ou de “humanas”, e mesmo a arte - ainda será necessária, até o fim do mundo. Mas será cada vez mais difícil candidatar-se a ser um produtor no nível de sofisticação real que é necessário para ser relevante de verdade. Os mecenas que pagarão por esta produção estarão cada vez mais inacessíveis, distantes do mundo que estamos acostumados. Mas serão eles que irão recrutar, de uma maneira que ainda não conhecemos. Eles não podem governar sem o pensamento humano verdadeiro, gerado por pessoas treinadas em habilidades de uma cultura milenar, cuja principal skill – uma hard skill, embora pareça soft - é a contemplação.
No próximo capítulo desta série, a Parte 03, pergunto: o “chão de fábrica” da sociedade têm como se adaptar aos novos paradigmas da Revolução Industrial 4.0 ? Aguarde e descubra.







