O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.Fernando Pessoa, "Autopsicografia".
Algum sábio da televisão ou da internet disse, num dias desses, que nossa cabeça não presta pra guardar coisa boa.
Você pode ter lido “Os Lusíadas” e a Odisseia. Não vai guardar de cor os versos de “Amor é fogo que arde sem se ver”, vai se lembrar mesmo é da música do Legião Urbana, com a voz cavernosa de Renato Russo. A versão do falecido roqueiro mistura aos versos camonianos alguns versículos de uma carta de São Paulo que, ora vejam só, não me lembro qual é.
Será que os mais velhos aí vão se lembrar dos longínquos anos 80? Talvez um de vocês tenha ouvido essa versão num LP ou na rádio Transamérica. Ou numa outra rádio qualquer. “O que é rádio, pai?”, me pergunta meu filho de 6 anos, quando comentei à minha esposa que estava escrevendo esta crônica.
Os mais velhos ainda podem ter essa lembrança de uma música de Renato Russo estacionada em algum buraco da memória. Os mais novos, suspeito, terão esse caminho da pop music às duas obras-primas da literatura, o soneto de Camões e a carta do apóstolo Paulo, talvez barrado para sempre. Já que estão mais preocupados com o “six, seven”, o “sabor” e outras coisas que terão esquecido depois de amanhã.
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Não é um lamento pelos “bons tempos de outrora”. Jamais colocaria na mesma balança Legião Urbana e Camões; muito menos, forçaria os pratos dela para afirmar que possuem o mesmo peso. Seria o mesmo que o português da mercearia, lápis empoletado atrás da orelha, que roubava no peso. Mas vou mudar de abordagem, esqueci-me que fazer piada de português é politicamente incorreto, lembrei-me de que posso ser cancelado por esse lapso (bons tempos quando havia um trocadilho com as palavras “lapso” e “lápis”!).
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Platão parece se lamentar, quando conta o mito de Thot e o rei Thamus, a respeito da invenção da escrita. Ele chora a perda da memória, que levava pessoas a tarefas de altíssima especialização (verdadeiros profissionais com MBA em poesia, mas grega, claro, tecnologia de ponta para a época). Que eram basicamente duas: 1. Decorar todos os versos da Ilíada; 2. Decorar todos os versos da Odisseia. Havia alguns acessórios, é claro, como os Hinos Homéricos e alguma outra coisa. Mas não pensem que era pouco: além de decorar os versos, toda essa batelada de poesia era cantada, então dá-lhe saber de cor letra, música e ainda tocar um instrumento de corda para acompanhar. Os Johns Lennons e Paul Mccartneys da época: compositores, letristas e instrumentistas.
Para nossa sorte, Platão escreveu seu lamento, em forma de mito, em um de seus muitos diálogos (são tantos, não me lembro qual; perdoem-me pela piada repetida). Escreveu sobre a escrita como uma ferramenta que ia fazer a bela ferramenta da memória se deteriorar, a ponto de não precisarmos mais cultivá-la. Prodígios como os de um aedo (nome que se dava aos poetas na Grécia) decorar milhares de versos e ainda cantá-los.
Uma lógica, no mínimo, curiosa. Registrar a tosquice de se usar uma ferramenta utilizando a própria; meio que usar IA para fazer uma história condenando as IAs. Na minha cabeça de pouca compreensão das coisas, é como aquele teólogo que louvava a ocorrência do Pecado Original, somente para dizer que, se não fosse por ele, Jesus Cristo não teria vindo ao mundo, e isso era o melhor que nos podia acontecer. Santo Agostinho, Santo Ambrósio ou São Tomás de Aquino? Para ele (quem quer que seja), não fazia diferença, afinal, ele era santo. Mas e nós? Desconfio de uma pitada de falta de compaixão para conosco, pobres pecadores sem remédio. A não ser, é claro, por Jesus, que veio nos salvar, o maior remédio de todos. Enfim, para mim é confuso, vocês percebem.
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O problema não é se esquecer de coisas demais. Não se trata de falta de memória, de perder a lembrança dos acontecimentos, datas, pessoas, locais, objetos, mas sim de excesso de lembrança, de ter tanta coisa registrada que corremos o risco de as memórias se atropelarem.
Paul Mccartney tem um álbum (sim, denuncio a idade) chamado “Memory Almost Full”. Pois hoje corremos o risco de transbordar o HD muito antes de chegarmos à idade provecta do eterno beatle, de 84 anos: há tanto de que se lembrar, milhões de escolhas possíveis, que podemos simplesmente substituir as lembranças de eras primitivas, como a década de 1970 ou os selváticos anos 2000, por memes mais atualizados, vídeos do TikTok mais realistas e sem dúvida alguma, material estalando de novo todos os dias, produzido por IAs que sabem exatamente o que iremos esquecer amanhã de manhã – quando o ciclo irá recomeçar, inexoravelmente.
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Sei que outras pessoas escreveram a respeito de lembrarem-se de pregões – o que hoje chamaríamos de jingles – de pretas quitandeiras vendendo guloseimas pelas ruas, mais do que de versos de Olavo Bilac ou de Dante Alighieri. Ai de mim! Nasci entre a época de vira-latas sem nenhum charme ou prestígio, os verdadeiros, que eram chutados na rua e pegos pela carrocinha (nunca vi nenhuma, só as conheço pelos livros antigos) para virar sabão, e os caramelos de hoje, tão glamurizados quanto a Kate Perry ou um relógio Rolex. Na minha era cinzenta, somente as Variants e Brasílias apregoavam as pamonhas de Piracicaba, numa gravação já antiga, reproduzida num toca-fitas a partir de um cassete mil vezes copiado de um 3 em 1 CCE para outro.
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Associo o clima geral da minha infância a um filme de Peter Sellers, “Muito além do jardim”, em que ele interpretava um personagem chamado Chance Jardim. Depois dos oito anos de idade, nunca mais assisti a este filme; tenho verdadeiro pavor de pensar em assistir novamente a alguns filmes, e perder deles minhas boas lembranças, ou o que penso serem minhas lembranças a respeito.
Resumindo muito: o filme era triste, e eu sabia, já na Idade da Razão (como dizem os sábios da Patrística, confiram) dos meus sete anos, que a intenção do roteiro era ser engraçado. A situação toda mostrada, de um simples jardineiro ser reputado como um sábio, era tão tristonha, tão dramática, tão patética, que imagino ter sido um dos meus primeiros encontros com duas figuras atraentes, embora esquisitonas: a ironia e a poesia.
O que tem a ver isso com a memória? Vocês notaram que eu disse que “penso serem minhas lembranças a respeito?” Pois então: cometendo a temeridade de revisitar filmes, livros e músicas antigas, das quais guardava lembranças confortáveis e quentinhas, descobri que elas estavam totalmente erradas.
Enredos diferentes, personagens trocados entre um filme e outro, às vezes de diretores muito diferentes entre si; músicas criadas pela minha imaginação, que pensei terem tocado nas rádios AM de antanho; livros que, ao serem relidos, pareciam terminar pela metade, mas estavam completos; minha mente, memória e imaginação editaram tudo para caber de maneira mais cômoda nos vestíbulos de estranha arquitetura da minha pessoa.
É engraçado se sentir perseguido por lembranças de uma música apresentada no Programa Raul Gil, na década de 80, por um grupo musical de moças semivestidas de alguns pedaços de roupas prateadas, de papel alumínio. Um look futurista, dir-se-ia naqueles tempos. E com um refrão dizendo “Aperte o botão: blip!” ou coisa que o valha. O único verso dessa poesia imortal é um pensamento precursor do grupo “As Meninas”, transbordante de crítica social numa música pop: “Mas cadê meu teto? Mas cadê meu teto? Mas cadê meu teto?” e, enquanto cantavam essa parte, rodavam em torno de si mesmas, com o microfone nas mãos...
Juro que vi isso, mas posso estar enganado. Não quanto ao conteúdo, mas quanto ao programa, que pode ter sido o Clube do Bolinha.
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Creio que a memória é irmã gêmea da imaginação (devo ter lido isso em algum livro sobre mitos gregos; acho que as Musas da Memória e da Imaginação Poética eram filhas da mesma mãe; quem era a mãe, aí você está querendo demais).
A imaginação que preenche memórias, o modus operandi da minha imaginação frenética, parece ser comum entre os artistas, medíocres ou geniais. Se é isso que os define como artistas, ou como geniais, quanto mais se utilizam desta matéria-prima em suas obras, não sei; sei que tenho me utilizado muitas vezes desse artifício para escrever os meus textos, internet afora.
Dependendo de como se veja, isto pode ser engraçado ou trágico; depende de como o leitor ou a leitora encaram a vida, com bons ou maus humores. O fato é que não acreditem em tudo o que escrevi quando falei de mim na primeira pessoa, ao citar “minha esposa disse”, “meu filho exclamou” e tantas outras histórias da minha família ou amigos; pois, se na minha cabeça já sou personagem de mim mesmo, criando enredos onde só havia banalidades, que diria do meu reflexo nestas mal traçadas?
Pode ser sinal de bipolaridade, esquizofrenia ou outro distúrbio grave; no entanto, tenho até vivido bem, na “vida prática”, como a chamam. Mas, assim como não consultei o Google nem o ChatGPT para checar os fatos que, acima, permanecem incertos e vagos (se quiserem saber deles em sua verdade crua, consultem o oráculo de sua predileção), também nunca fui a psiquiatra nem a psicólogo para checar isto que, para os meus botões, não se trata de um problema. E sim uma maneira de enxergar a vida que me sustém.
Tais memórias e imaginações, de mãos dadas pela vida afora, podem, em determinado momento, se chocar, em vez de passearem harmoniosamente pelos campos elíseos da psique. Pode ser que elas se trombem, revirando-se no chão e no ar às cambalhotas, como os Três Patetas, transmutadas em Mil Patetas, remixadas como Patetas, Mickeys Mouses e mouses de PC, maçãs do Pecado Original, Steve Jobs e os Beatles, Isaac Newton num Submarino Amarelo no Circo do Veneno, e criem uma realidade alternativa dentro da minha cabeça.
Talvez já tenham criado.



