Um debate televisivo entre Lula e Flávio Bolsonaro seria uma exibição de horrores. Por isso, parece que eles decidiram não participar de encontro algum no primeiro turno. Mais do que sinceridade, é a aceitação de que a situação não está nada boa para eles.
Já para os demais candidatos, o debate teria alguma utilidade, se não fosse previsivelmente aborrecedor para o público. Em primeiro lugar, esse tipo de programa costuma ir ao ar muito tarde da noite. Em segundo, as pessoas querem um pouco de alegria na vida.
Lula e Flávio, queiram ou não, protagonizariam um espetáculo imperdível, pois teriam que expor suas mazelas e seriam questionados pelos demais concorrentes, o que traria muita graça ao debate. Fico imaginando Lula explicar que Lulinha é seu filho, mas não é seu filho, etc.
Ou então o Flávio tentando dizer o que fez com a grana de Vorcaro para o Dark Horse, que ele disse que faria uma demonstração dos gastos e a tornaria pública, depois voltou atrás, com perdão ao pleonasmo, porque percebeu que daria um tiro no pé, já que a grana deve ter seguido caminhos adversos.
Essas coisas atraem o público, principalmente o independente, que entende de detalhes e de contradições. Já os eleitores ideológicos não perderiam a programação para, no dia seguinte, propagandear a certeza de que seus candidatos foram melhores.
Por isso, não dá para imaginar uma saída para os candidatos que estão no segundo pelotão, à espera de uma oportunidade para avançar e quebrar a hegemonia dos extremos. Seria Lulinha o fator surpresa nessas eleições? Que ele azedou o pé do frango para o presidente Lula, isso é certeza. Mas achar que a performance delirante do filho muda o jogo eleitoral, acho que isso é ir longe demais.
Sem dúvida, André Mendonça, relator do inquérito que investiga Lulinha, está fazendo um bom trabalho. Mas os demais ministros, da linha de frente, que querem a reeleição de Lula, trabalham nos bastidores. Eles sabem o melhor momento para plantar uma boa nota na imprensa.
Há ainda cerca de 40 dias de campanha. O tempo é curto para nascer um jumento e, quando os jumentos já estão velhos, algo de novo deve acontecer para evitar o fim da espécie.
Me perdi. Quero dizer que as próximas pesquisas deveriam apontar para alguma mudança sensível na opinião do eleitorado, devido aos fatos que explodem em público, queimando a ficha dos candidatos da ponta. Se isso não acontecer, os burros serão os mesmos e não haverá parto algum de coisa nova. Perdi-me novamente.
A Justiça decidiu, de forma esquisita, que Marçal não deve participar de campanha alguma e nem mesmo de debate na TV. Ele seria o cara engraçado da história. Renan Santos, apesar de ser bem mais centrado e coerente do que Marçal, não é um cara de atrair público de TV pelas suas palavras duras. Ele é figura que se dá melhor nas redes sociais, onde estão os jovens.
Já Caiado e Zema são os nomes com maior potencial para ocupar espaço na dianteira, com Lula exposto ao esgoto. Mas são homens sem aquele feeling para atrair multidões. Antes de qualquer conclusão a esse respeito, uma nova pesquisa DataFolha, publicada ontem (21), indica empate técnico entre Lula e Bolsonaro, com o presidente ligeiramente à frente (47% a 43%), mas é uma pesquisa que não pegou todo o impacto das falcatruas colocadas nas costas de Lulinha pela PF. Certamente pesquisas posteriores vão apontar algum caminho diferente do congelamento estatístico atual. Suponho, pelo meu pessimismo, que o eleitorado vai se manter cego nos extremos. Quero estar errado.



