
Uma piada sobre olhos puxados, um comentário sobre o tamanho dos genitais, uma “brincadeira” sobre “roubar” vagas em vestibulares. Para muitas pessoas amarelas no Brasil, esses episódios acontecem nos espaços de lazer. É o que mostra a tese de doutorado de Flávio Daiji Kishigami, O racismo amarelo como barreira invisível no lazer, defendida na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, que investiga como esse tipo de discriminação é naturalizado no espaço de lazer, pensado para o descanso, mas que se torna, também, palco de exclusão racial.
Historicamente, pessoas amarelas foram consideradas imigrantes indesejadas até o século 20 e, durante a Segunda Guerra Mundial, associadas ao “perigo amarelo” e à ideia de que seriam pouco confiáveis. Atualmente, há o mito da minoria modelo, que estereotipa a pessoa amarela como trabalhador exemplar, estudioso e honesto.
Geógrafo com mestrado e doutorado em Turismo pela EACH, Kishigami explica o racismo amarelo em relação aos outros racismos, já que os estereótipos derivados de preconceitos também são relacionais. “Para o asiático ser disciplinado, alguém tem que ser indisciplinado”, exemplifica.

“O colonialismo não inventou apenas o negro como um corpo destinado à exploração; inventou uma gramática racial inteira, sendo o branco como uma medida universal, o indígena associado ao atraso e o amarelo, mais atualmente, como um trabalhador útil, disciplinado, estrangeiro permanente, porque a gente nunca é considerado daqui, do Brasil.”
— Flávio Daiji Kishigami
Ele define o lazer como um espaço de descanso, prazer e liberdade. Mas é também o lugar onde o racismo recreativo e as microagressões, ofensas menores ou “brincadeiras”, aparecem com mais frequência. Com base no livro “Racismo Recreativo”, de Adilson Moreira, Kishigami explica esse tipo de discriminação: “O racismo recreativo é muito positivo para quem produz. Porque a pessoa que está fazendo não é vista como racista, ela é vista como uma pessoa bacana, que está interagindo. É muito eficiente porque, através do riso e da comicidade, você diminui o outro ao mesmo tempo em que você não se coloca numa posição de alguém que está exercendo uma violência.”
Em uma pesquisa de opinião com 140 pessoas por formulário on-line, Flávio identificou os estereótipos mais recorrentes ouvidos por pessoas amarelas. Os cinco mais mencionados foram: homens asiáticos têm pênis pequenos, são inteligentes, ótimos em exatas, trabalhadores e esforçados. Depois dos estereótipos relacionados ao cômico, vêm os estereótipos positivos e, então, os ligados à suposta psicologia da pessoa asiática: fria, pouco emocional, e que não se mistura.
Além do formulário, foram entrevistadas 25 pessoas. Como pessoa amarela, Flávio identificou que sua própria experiência não havia sido diferente da dos entrevistados: “Existe, sim, uma exclusão nos espaços por uma questão racial”. Por meio das entrevistas, ele também observou que homens amarelos são estereotipados como emasculados, enquanto as mulheres amarelas são fetichizadas.
Exclusão, naturalização e pertencimento
Pessoas negras sofrem processos de violência e exclusão diferentes dos vividos por pessoas indígenas, que também são diferentes dos sofridos por pessoas amarelas. O racismo sofrido por pessoas negras, por exemplo, é combatido, criticado e desnaturalizado há muito tempo por movimentos sociais e políticos mais expressivos. A falta de um movimento social e político forte pode contribuir para que, segundo os entrevistados, o racismo amarelo seja naturalizado.
O que é asiático brasileiro?
O pesquisador explica que se trata de um racismo que, embora não produza sistematicamente a violência vertical do Estado, opera de forma horizontal, cotidiana e difusa, criando barreiras de integração e convivência entre grupos. Segundo o orientador da pesquisa, Edmur Antonio Stoppa, da EACH, é um racismo “mais horizontal do que vertical, que é o caso do racismo contra pessoas negras e indígenas”, marcado pela exclusão de pessoas de cargos de poder, renda e classe média.
O pesquisador comenta que as pessoas amarelas estão encontrando na comunidade formas seguras de lazer e pertencimento, por meio de grupos de estudo e acolhimento. “Eu diria que esses locais estão se tornando espaços até de resgate de uma memória não vivida, de uma convivência tardia, dessa cultura que a pessoa não teve possibilidade de vivenciar. Eu acho que é muito importante, acho que as comunidades negras também estão fazendo isso hoje, fazendo essa troca. Ter esse acolhimento, por parte do seu grupo étnico, passando essas questões culturais, porque a pessoa é excluída por conta dessa fisionomia aqui no Brasil, não é por uma questão cultural. Ela é excluída de um lado, mas ela tem um pertencimento de outro. O ser humano precisa muito desse pertencimento”, destaca o pesquisador.
Matéria: Milena Miyazaki | Jornal da USP.




