Investigação rastreia mosquito-palha em Piracicaba durante semana de combate à leishmaniose
Armadilhas luminosas ficam 24 horas nas residências para mapear a presença do vetor da leishmaniose visceral
Um inseto pequeno, de cor clara, com asas alongadas e corpo coberto de pelos — bem menos conhecido que o Aedes aegypti — está mobilizando uma equipe de investigadores entomológicos em Piracicaba. O trabalho é realizado nas regiões Norte, Sul, Leste, Oeste e Centro para rastrear e mapear a presença do mosquito-palha (Phlebotominae), vetor da leishmaniose visceral, doença infecciosa grave que pode atingir pessoas e cães.
A transmissão ocorre pela picada da fêmea de um flebotomíneo infectado, inseto conhecido popularmente como mosquito-palha. Não há transmissão direta do cão para a pessoa nem de uma pessoa para outra pelo convívio.
A investigação é conduzida pela Coordenadoria de Controle de Doenças, órgão da Secretaria Estadual da Saúde, com acompanhamento do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ), da Secretaria Municipal de Saúde de Piracicaba.
O trabalho consiste na instalação de armadilhas luminosas, dispositivos equipados com uma lâmpada fluorescente atrativa e uma ventoinha (cooler) alimentados por bateria. As armadilhas permanecem instaladas nas residências dos moradores por um período de 24 horas, capturando os insetos vivos em uma rede de pano protetora para posterior análise laboratorial.
Os insetos capturados são encaminhados ao laboratório para identificação detalhada. Os resultados permitirão conhecer a densidade populacional do vetor, sua variação ao longo das estações do ano e sua distribuição geográfica no município. Essas informações servirão de base para definir as estratégias de vigilância e controle.
A ação ocorre durante a Semana Nacional de Controle e Combate à Leishmaniose, iniciada na segunda-feira, 10/08, e busca chamar a atenção para os cuidados capazes de reduzir o risco de transmissão da doença, além de orientar a população sobre medidas de proteção dentro e fora de casa.
No ambiente urbano, o cão é o principal reservatório do parasito. O mosquito-palha pode se infectar ao picar um cão com leishmaniose e transmitir o parasita posteriormente ao picar uma pessoa ou outro animal. Cães sem sintomas também podem infectar o vetor.
De acordo com dados do Centro de Vigilância Epidemiológica do Estado de São Paulo (CVE-SP), o Estado registrou 336 casos e 37 óbitos por leishmaniose visceral entre 2021 e 2025. Em 2026, até maio, foram contabilizados 17 casos e um óbito. Em Piracicaba, não há registro da doença em residentes neste ano.
“Não estamos em uma região endêmica, mas há registro de circulação do vetor na região, por isso esse trabalho de investigação é tão importante”, afirma Aline Marangoni, coordenadora do Centro de Controle de Zoonoses.
COLABORAÇÃO - A coordenadora também destaca a importância da colaboração da população. “Os moradores têm sido receptivos e é fundamental que permitam a instalação das armadilhas em suas residências. Elas não utilizam nenhuma substância química; funcionam apenas com uma fonte de luz”, explica.
Moradoras como Elisabete Cordeiro dão o exemplo ao abrir as portas de casa para a equipe de investigação entomológica. A participação dos moradores é considerada essencial para que o levantamento seja realizado em diferentes regiões da cidade e permita um mapeamento mais preciso da presença do vetor em Piracicaba.
Independentemente do resultado da investigação, previsto para cerca de quatro meses, as medidas de prevenção devem ser mantidas. O mosquito-palha encontra condições favoráveis em locais úmidos, sombreados e com acúmulo de matéria orgânica. Por isso, a orientação é manter quintais e terrenos limpos, retirar folhas, frutos, fezes de animais e outros resíduos orgânicos, instalar telas de malha fina em portas e janelas, utilizar mosquiteiros quando necessário e manter limpos os locais onde os animais permanecem.
Em humanos, os principais sinais da leishmaniose visceral incluem febre prolongada, aumento do fígado e do baço, perda de peso, fraqueza e anemia. Diante desses sintomas, a orientação é procurar um serviço de saúde para avaliação. O diagnóstico e o tratamento precoces são fundamentais para evitar complicações.
Nos cães, os sinais que podem levantar suspeita de leishmaniose incluem descamação ou feridas na pele, principalmente ao redor dos olhos, nas orelhas e nas extremidades; aumento dos linfonodos; perda de pelos; emagrecimento; crescimento exagerado das unhas; alterações oculares; apatia; sangramento nasal e presença de sangue nas fezes.
Como alguns cães infectados podem não apresentar sintomas, a avaliação veterinária é essencial. Em caso de suspeita ou diagnóstico, o tutor deve procurar um médico veterinário e seguir as orientações sanitárias para definição da conduta adequada.
TRATAMENTO - Apesar de grave, a leishmaniose visceral tem tratamento em humanos, disponível gratuitamente na rede do Sistema Único de Saúde (SUS). O diagnóstico precoce é fundamental para aumentar as chances de recuperação e evitar complicações.
Nos cães, a doença exige avaliação veterinária e acompanhamento conforme as diretrizes sanitárias vigentes. O animal é considerado o principal reservatório do parasita no ambiente urbano, razão pela qual a identificação dos casos é importante tanto para a saúde do próprio animal quanto para a proteção da saúde pública.
A Secretaria de Saúde reforça que, diante de sinais suspeitos, os tutores não devem ocultar sintomas nem abandonar o acompanhamento veterinário. Cada caso deve ser analisado individualmente por médico-veterinário, com orientação adequada sobre diagnóstico, manejo e medidas sanitárias recomendadas pelo Ministério da Saúde.




