Para Ortiz, a observação da estrela por meio de telescópios de menor porte demonstra a importância contínua desses aparelhos, que hoje são vistos como “obsoletos” frente à produção de telescópios de grandes proporções – Foto: Retirada do artigo
“Nos anos 1990 e 2000, a astronomia estudava a forma como uma manada de bois se move. Isso era descrito, explicado e criava-se uma teoria a respeito”, conta Roberto Ortiz em entrevista ao Jornal da USP. “Hoje, já atingimos um conhecimento tão grande que a ciência passou a se voltar para um outro lado dos fenômenos: quais são os bois que se desviam? Por que eles não seguem a manada?”
A analogia feita pelo professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP explica o ponto de partida de uma pesquisa internacional liderada por ele e publicada em artigo na importante revista científica Monthly Notices of the Royal Astronomical Society. No trabalho, o grupo coordenado por Ortiz descreveu uma nova descoberta que desafia os conhecimentos já consolidados na área da astrofísica.
Por meio de dois telescópios — localizados nos Observatórios de Sierra Nevada e Pico del Teide, ambos na Espanha — e dados de satélites, os cientistas observaram uma nebulosa associada à TYC 3315-1807-1, estrela quente e de baixa massa que se movimenta em alta velocidade pelo espaço.
O termo “nebulosa” é amplo, mas pode ser usado para caracterizar qualquer concentração de gás ou poeira entre as estrelas. Hoje, acredita-se que essas formações sejam derivadas dos próprios astros: durante seu processo de evolução, as estrelas podem sofrer um aumento súbito de luminosidade que seria responsável por formar as nuvens gasosas. “Esse aumento empurra as camadas da própria estrela. Em termos simples, ela fica tão luminosa que uma parte sua ‘escapa’ para o espaço”, explica Ortiz.
O aumento “súbito” de luminosidade pode durar séculos. Além disso, o processo de evolução das estrelas até esse estágio leva milhares de anos. Apesar de representar apenas um instante em escala cronológica, a extensão desses fenômenos jamais poderia ser observada em sua totalidade ao longo da vida humana, o que faz com que o entendimento acerca deles seja limitado.
Atualmente, há registros de nebulosas associadas a astros com diferentes características e em fases distintas de evolução, como estrelas massivas — após a explosão como supernova — e estrelas semelhantes ao Sol no final da sua evolução. Porém, apesar da diversidade de casos observados, as teorias apontam condições específicas para a formação de nebulosas que não estão presentes em todas as estrelas.
Gasosa como uma cauda de cometa
As estrelas podem ser divididas por características como massa, temperatura e elementos processados em seu núcleo. As subanãs do tipo B são quentes e de baixa massa, vistas pelos observadores na Terra com uma coloração branco azulada. Esses astros se encontram em um estágio avançado de evolução: depois de esgotar o hidrogênio presente em seu núcleo como combustível, passam a processar o hélio resultante e transformá-lo em carbono.
Devido a essas características, as estrelas do grupo possuem baixa luminosidade. Segundo Ortiz, essa quantidade reduzida de luz seria insuficiente para gerar a força necessária para ejetar gás e formar uma nebulosa.
“Normalmente, qualquer professor de astronomia diria que essa estrela não pode ter uma nebulosa, mas nós encontramos uma subanã do tipo B com uma nuvem de gás ao seu redor” – Roberto Ortiz
A descoberta feita pelos pesquisadores abre margem para várias interpretações. Uma delas é a de que a nebulosa tenha sido ejetada por outro corpo celeste e já se encontrava no caminho da TYC 3315-1807-1. Ao passar por ela, a estrela teria “excitado” esse gás, que passaria a emitir luz e radiação. Outra alternativa sugere que a nebulosa é proveniente da própria estrela, o que significaria que um fenômeno ainda mal compreendido foi capaz de facilitar a expulsão do gás.
Roberto Ortiz – Foto: Arquivo pessoal
Para explicar a dualidade, o professor compara a observação da estrela com um passeio pela praça. “Se uma pessoa se senta em um banco no jardim ao lado de uma nota de R$ 50, há duas possibilidades: ou ela tirou a nota do próprio bolso, ou o dinheiro já estava ali”, afirma. “Mas um pedestre que apenas a vê sentada no banco não teria como saber como essa nota foi parar lá.” Da mesma maneira, também é impossível definir imediatamente qual das explicações sobre a origem da nebulosa está correta, ainda que alguns indícios visuais contribuam com a análise.
Um desses indícios trata do próprio formato da nebulosa. A nuvem de gás se posiciona como uma “cauda de cometa” ao redor da estrela, esticando-se na direção oposta ao seu deslocamento. Essa posição sugere que a TYC 3315-1807-1 lançou parte de sua atmosfera ao espaço e, ao se movimentar em alta velocidade, deixou a cauda gasosa para trás. “É como quando alguém esparrama pipoca ao comer”, comenta Ortiz. “Se estiver parado, a pipoca fica ao seu redor. Mas se estiver em movimento, os grãos irão formar um rastro por onde passou.”
A imagem da composição entre nebulosa e estrela foi constituída em RGB utilizando imagens dos canais de detecção de satélites Wise W1, em vermelho, e Galex Fuv, em azul – Foto: Retirada do artigo
A maneira mais concreta de confirmar a possibilidade levantada pela descoberta é encontrar novos casos semelhantes. O pesquisador comenta que, antes da TYC 3315-1807-1, apenas uma outra combinação entre subanã do tipo B e nebulosa havia sido confirmada, décadas atrás.
Agora, a equipe de astrônomos passou a monitorar imagens de outras estrelas subanãs do mesmo tipo que possam apresentar características semelhantes. “Aumentamos a probabilidade de confirmação detectando mais objetos. Se a morfologia — ou seja, uma estrela em alta velocidade com uma cauda para trás — se repetir nos demais casos, isso irá reforçar a teoria de que realmente se trata de um gás saindo da própria estrela”, comenta.
O artigo Discovery of a nebula associated with a high proper motion sdB star está disponível on-line. O estudo foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) e pelo Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC) da Espanha.
Mais informações: e-mail rortiz@usp.br, com Roberto Ortiz
*Estagiária sob orientação de Luiza Caires
**Estagiária sob orientação de Simone Gomes
Fonte: Jornal da USP






