Do Pix ao café: por que o tarifaço dos EUA atingiu a indústria brasileira, mas poupou as commodities
Professores da USP comentam que a ação pode acelerar relação Brasil-China, mas é necessário cuidado
No mês de julho, o presidente dos EUA, Donald Trump, impôs duas tarifas diferentes sobre os produtos brasileiros. A primeira resultou em uma alíquota de 25% e tem origem em uma investigação do país americano contra o Brasil sobre práticas consideradas pelos Estados Unidos como “desleais”. Já a segunda consiste em 12,5% para países que possuem “trabalho forçado”. “Não é uma medida inédita, o que surpreendeu é ter sido feita pelos Estados Unidos, que até então eram o grande defensor de algo chamado livre comércio”, isso é o que defende o professor Paulo Feldmann, do Departamento de Administração da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA) da USP, sobre as novas tarifas implementadas sobre os produtos brasileiros nos Estado Unidos (EUA).
Uma lição a aprender
Feldmann conta que o novo tarifaço americano produz um susto menor comparado com o do ano passado. “A gente agora aprendeu que a saída é procurar novos parceiros, novos mercados. As empresas brasileiras desenvolveram essa capacidade de buscar novos mercados. Foi uma coisa muito boa que aconteceu, a males que vêm para o bem.”
Os setores mais afetados são os da parte industrial, por exemplo, manufaturas, móveis e roupas. Com a investida do governo de Trump com as taxas, as empresas brasileiras passaram a buscar outros mercados. “Essa diversificação é muito boa para o Brasil. O País era muito dependente do mercado norte-americano. Eu acho que a gente tem que tomar cuidado. Talvez a gente tenha uma lição a aprender: não é bom depender de um único mercado”, conclui.
A possível dependência com a China
“Toda vez que os americanos pressionaram o Brasil, seja por tarifa, seja por Lei Magnitsky, seja por designação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, o governo Lula ligou para a China ou a China ligou para o Brasil e mais um acordo positivo entre o Brasil e a China foi assinado, mais uma promessa foi assinada”, pontua o professor Feliciano Guimarães, do Instituto de Relações Internacionais (IRI). Esse padrão na relação entre o Brasil e a China tem ganhado destaque, porém possui problemas. “A China é protecionista em muitas áreas, a China não faz acordos comerciais com grande facilidade”, comenta o professor do IRI.
Já Feldmann alerta para um perigo de dependência, assim como havia com os EUA, mesmo que a China seja um ótimo parceiro comercial do Brasil. “A China não gera emprego no Brasil. Quando ela vem com as empresas do Brasil, ela traz trabalhadores chineses, em boa parte. Ela não emprega trabalhadores brasileiros, muito pouco.” Além disso, o Brasil exporta principalmente commodities para China, porém quando vendem produtos tecnológicos são obrigados a transferir tecnologias para empresas estatais chinesas quando estão dentro do país asiático, como detalha Feldmann. “Não se sabe de casos em que as empresas chinesas transferiram tecnologia para empresas brasileiras.
“Isso é algo que deveria fazer parte da relação comercial Brasil-China, é que as empresas chinesas têm que transferir tecnologia para as empresas brasileiras, porque quando as empresas brasileiras vão para a China, são obrigadas a trazer tecnologia. Por que o Brasil não pode fazer isso com as empresas chinesas?”, complementa.
O chamado novo tarifaço faz parte de uma série de medidas chamadas pelo professor de nacionalistas e protecionistas adotadas pelo governo dos EUA. Feldmann explica que a Casa Branca de Trump pretende, através das tarifas que acumulam um montante de 37,5% sobre os produtos brasileiros, gerar mais empregos, além de aumentar a arrecadação de impostos.
O governo americano “imaginava que as empresas que vendem para os Estados Unidos, empresas que estão em outros países, como no Brasil e vários outros, poderiam, em vez de exportar, abrir uma fábrica nos Estados Unidos e fabricar aquele produto dentro dos Estados Unidos”, diz o professor. Ao produzir no país, as empresas internacionais gerariam empregos para os estadunidenses.
Por outro lado, “as tarifas vão direto para o bolso do governo americano. Todas essas tarifas são dinheiro a mais entrando para o governo americano. Então, claro que para eles isso é uma coisa importante porque é uma fonte de renda”, explica.
A primeira tarifa de 25% está embasada na Seção 301 da Lei do Comércio dos Estados Unidos. Segundo o professor Guimarães Feliciano, essa é uma lei antiga do governo americano na qual são abertos cinco pontos a serem investigados dentro do órgão United States Trade Representatives.
Duas causas
“Na maioria esmagadora das vezes, essas ações são favoráveis ao governo americano”, afirma. Nos cinco pontos, o Brasil foi derrotado. “É como se você, no Brasil, tivesse que se defender na corte do rei, sendo que o rei [EUA] é o Executivo, o Legislativo e o Judiciário ao mesmo tempo. Então a tendência é que você perca, como aconteceu”, exemplifica Guimarães.
A acusação feita é de que o Brasil possui práticas desleais sobre a economia americana. Entre as supostas práticas citadas estão: o Pix, o desmatamento ilegal, a pirataria e falhas na aplicação de leis anticorrupção. “Antigamente, antes do Pix, quando você fazia uma compra, você pagava com cartão, ou cartão Visa, ou cartão Mastercard ou cartão Amex, American Express. Os três cartões americanos muito importantes. Essas três empresas ganhavam muito dinheiro no Brasil”, conta Feldmann.
“O Brasil não tem que se preocupar com o lucro das empresas norte-americanas. O Brasil tem que se preocupar com o que é bom para o Brasil. E o Pix é muito bom para o Brasil. Além de ser bom, foi uma coisa inovadora”
Paulo Feldmann
Com o Pix, o uso dessas bandeiras de crédito americanas caiu no Brasil, segundo Feldmann. “Um dos primeiros países do mundo a implantar algo que facilitou muito o crédito para as pessoas, facilitou os meios de pagamento e, principalmente, permitiu que as pessoas muito pobres no Brasil tenham conta bancária, e recebam, inclusive, a aposentadoria ou Bolsa Família através do Pix”, adiciona o professor da FEA.
Já a segunda tarifa faz parte de uma ação contra 60 países parceiros dos EUA, como o Brasil e a Argentina, acusados de possuírem trabalho forçado. “É um absurdo porque o Brasil respeita os direitos humanos, o Brasil não tem trabalho escravo e se acontece algum trabalho escravo no Brasil é porque a empresa usou o trabalho escravo e burlou a vigilância, a legislação brasileira que proíbe o trabalho escravo”, como afirma Feldmann.
Nem todos os produtos
Alguns produtos ficaram de fora das tarifas, como petróleo, café e carne bovina. Esses produtos que ficaram do lado de fora das tarifas são bens importantes para a vida norte-americana. Feldmann justifica que não taxar esses produtos têm o objetivo principal de impedir o crescimento da inflação nos EUA.
“Alguns produtos brasileiros são muito consumidos pelos americanos. Por exemplo, a população americana é o povo que mais toma café no mundo. No entanto, eles só têm 1%, eles só produzem lá dentro dos Estados Unidos 1% do café que eles consomem. Todo o resto tem que ser comprado fora. E o principal fornecedor é o Brasil. Se a tarifa se aplicasse ao café, o café ia subir o preço. Isso ia pesar na inflação americana”, exemplifica.
Matéria: Fernando Silvestre | Jornal da USP.







