Reale é um bom ponto de partida
Não gosto de ouvir falar que Platão não faz mais sentido para os dias atuais
Não se lê Platão sem um bom guia. A não ser que você já seja um iniciado. O melhor professor que encontrei para um mergulho seguro nas obras do grego foi o italiano Giovanni Reale.
Há um Platão antes e um depois de Reale. Quem já fez este percurso, sabe o que estou afirmando.
O trabalho hermenêutico de Reale traça com segurança os pontos-chave das obras de Platão e traz para o leitor o que importa para se entender o que não foi escrito.
Curioso, né? Como o próprio Platão escreveu em sua Carta VII para o tirano de Siracusa, Dionísio, no plano filosófico, não se escreve a essência de um conhecimento para o público externo, pois esta é matéria para ser desenvolvida única e exclusivamente entre iniciados, na academia.
A intenção deste texto é bater ponto na essência da segunda navegação, em que Platão explica como o pensamento pensa. Ele parte da natureza humana e de dons naturais do ser humano.
Para ele, nós não conseguimos analisar a natureza olhando diretamente para ela. Estamos aí no plano sensível, aquele que nos engana com informações que estão em permanentes mudanças.
Por isso, precisamos elevar a conversa para um novo patamar. A alma é uma fonte de conhecimentos intuitivos que nos ajudam muito. Nela se encontra nossa capacidade natural de perceber objetos aritméticos, geométricos, estereométricos, astronômicos e musicais.
A reflexão, com este suporte, nos ajuda a dar um passo ainda mais alto, rumo ao plano das ideias, onde podemos pensar ideias gerais ou meta-ideias, números e figuras ideais e ideias particulares, não necessariamente nesta ordem.
O ponto mais elevado é quando alcançamos a dimensão do UNO e a Díade indeterminada. É o plano da forma. Estamos no plano metafísico. Com este conhecimento, podemos voltar ao plano sensível, que estaremos mais aptos a perceber a realidade, uma vez que estamos orientados pelo verdadeiro, que, segundo ele, é uma forma da essência das coisas.
Heráclito e Parmênides formam uma dialética para a elevação e uma diairética para a descida. Juntos, temos o conhecimento da realidade. Mas a realidade, enquanto verdade, para Platão, está no plano das formas. Ou seja, não está no que se vê, mas no que se alcança no plano das ideias.
O conhecimento é aprimorado a partir dessa elevação e descida. Com a clareza, a realidade torna-se compreensível e se abre um pouco mais para novos recortes até então não percebidos sema forma anterior, o que nos leva a novos conhecimentos, mais profundos.
Um exercício que eu acho que vale a pena como exemplo de brincadeira para quem está começando. Você quer fazer um bolo e vai ao supermercado. É preciso um recorte para não ficar perdido no meio de tantos produtos. Em um bolo de milho, por exemplo, não vai tomate nem sabão, muito menos feijão e linguiça.
Sendo assim, você pensa, pode ir trigo, pode ir fermento, pode ir açúcar, pode ir milho, claro. Enfim, com este recorte, você faz a seleção e compra os ingredientes. Compõe uma massa e faz o bolo. Por facilitar a figura de linguagem, o bolo ganhou forma em uma forma. Mas sem a noção do que você queria, nada feito. É só mistura e confusão. Para o pensador, a maioria das pessoas vivem no plano do sensível, por isso não conhecem a verdade das coisas.
Na natureza exige a mesma estratégia, para Platão. Você precisa fazer um recorte. A díade é exatamente a referência aos limites do recorte. Por isso, pode se dizer que há díade no UNO. Estou vendo animais que se assemelhavam. Vou selecioná-los e pensar sobre eles. Com a ajuda das minhas competências naturais, chego ao plano das ideias e, com a ajuda de um daimon (uma espécie de homem/deus), uma força divina que está presente em todo filósofo, chego à forma e percebo um padrão, um modelo de cavalo, por exemplo. Com este modelo (cavalaridade) consigo perceber todas os cavalos do mundo real.
Para Platão, o UNO é um conhecimento possível apenas com a ajuda do divino. Ele entendia que apenas os filósofos eram capazes dessa elevação. Filósofos são seres sensíveis, que conseguem acionar o mecanismo para o conhecimento maior das coisas. Hoje dizemos a palavra gênio.
A essência da questão, é que a razão formula a realidade e a torna compreensível. Se você não consegue ver sentido nisso, imagine o que fez Albert Einstein. Ele pensou uma natureza composta por um tecido que se curva diante dos objetos compactos, que sintetizava espaço e tempo em uma só estrutura e correlacionados.
Poderíamos dizer sem erro que Einstein era um platônico. Porque não viu a realidade como ela nos apresenta, mas elevou seu pensamento para propor um entendimento sobre a realidade. Esta é a proposta de Platão. Nada mal para um pensador que não tinha nada como referência para fazer isso, a não ser dois gênios do seu tempo, Parmênides e Heráclito, que ele uniu e os reformulou, abrindo as portas para uma nova fase da filosofia.
Por isso eu não gosto de ouvir falar que Platão não faz mais sentido para os dias atuais. Eu digo, vai ler antes de falar bobagem. Mas leia a pessoa certa. Reale é um bom ponto de partida.




