Em 2007, um relato clínico publicado no Journal of Neuropsychiatry and Clinical Neurosciences chamou a atenção de pesquisadores. Uma paciente, que tratava um tumor benigno na glândula hipófise, passou a apresentar delírios paranoides e atitudes impulsivas que a levaram a perder US$ 700 mil em jogos de azar ao longo de nove anos. Esses comportamentos foram associados ao uso da cabergolina, um medicamento agonista da dopamina utilizado no tratamento desses tumores e em quadros de excesso de prolactina no sangue. No caso da paciente, após dois meses de suspensão da cabergolina, os delírios e a compulsão desapareceram, o que sugere a existência dessa associação.
A dificuldade no controle dos impulsos já era observada em pacientes que utilizavam a cabergolina no tratamento da doença de Parkinson, mas o caso de 2007 foi o primeiro relato clínico que associou esse sintoma ao uso do medicamento para tratar o prolactinoma, tumor benigno que afeta a hipófise e causa a produção excessiva de prolactina. Por ser raro, acometendo entre 60 e 100 indivíduos por milhão de pessoas, pesquisas relacionadas a essa condição costumam envolver grupos pequenos de pacientes.
Um estudo desenvolvido na Faculdade de Ciências Médicas (FCM) da Unicamp encontrou evidências que corroboram a associação entre o uso da cabergolina para tratamento de prolactinoma e aumento da impulsividade. O estudo avaliou o comportamento de 131 pacientes tratados com o fármaco e identificou que eles relataram 11% mais dificuldade de atenção e em manter o foco na tomada de decisões e 4,47 vezes mais probabilidade de efetuar compras por impulso em relação ao grupo controle. Embora não permita estabelecer uma relação de causa e efeito entre o fármaco e a impulsividade, o estudo reforça a importância de que médicos e profissionais de saúde estejam atentos a esse possível efeito colateral. A pesquisa foi realizada por Karla Borges Daniel, médica endocrinologista doutoranda em Clínica Médica, e por Heraldo Mendes Garmes, professor da FCM, e os resultados foram publicados na revista Pituitary.
Estímulo da dopamina
O aumento nos níveis de prolactina causado pelo tumor pode levar ao bloqueio das funções dos testículos e dos ovários, reduzindo a produção de testosterona e estrogênio, espectivamente. Ele também pode prejudicar os ossos, trazer riscos cardiovasculares e, no caso de tumores maiores, comprimir estruturas cerebrais, entre elas o nervo óptico. A cabergolina atua no tratamento como um agonista da dopamina, neuro-hormônio que atua como um regulador da produção de prolactina pela hipófise. “Ela [a cabergolina] se liga aos receptores D2 de dopamina e bloqueia a síntese de prolactina. Isso faz com que o tumor regrida de tamanho”, resume a endocrinologista. “De todos os tumores que afetam a hipófise, o prolactinoma é o que tem melhor tratamento.”
Entretanto, a dopamina cumpre uma série de outras funções no cérebro, entre elas regular nossa cognição, motivação, sensação de prazer e sistema de recompensa. Por isso, o mesmo agonista dopaminérgico que age na produção de prolactina e reduz o tumor pode agir nessas outras áreas. “Muito provavelmente, pacientes que têm uma predisposição à ação do agonista dopaminérgico acabam desenvolvendo um aumento na impulsividade”, aponta Garmes. O artigo menciona que, nos casos de tratamento do Parkinson, existe uma hipótese bem estabelecida na medicina de que a estimulação excessiva dos receptores dopaminérgicos pode levar a comportamentos impulsivos e que a possibilidade de isso também ocorrer no tratamento do prolactinoma deve ser considerada.
O estudo envolveu 262 pessoas, sendo 131 pacientes com prolactinoma tratados com cabergolina no Ambulatório Geral de Endocrinologia do Hospital de Clínicas (HC) da Unicamp e 131 pessoas saudáveis de um grupo controle. Os participantes responderam a dois questionários: o primeiro, chamado Escala de Impulsividade de Barratt (BIS-11), avalia o grau de impulsividade em três dimensões: motora, atencional e de não planejamento. A pontuação varia entre 30 e 120 pontos, sendo que a média geral que indica impulsividade é de 60 ou mais pontos. O segundo questionário foi adaptado de uma pesquisa utilizada para o tratamento de Parkinson e avalia quadros como hipersexualidade, compras, jogos e comportamentos repetitivos (punding).
No quadro geral, 59,5% dos pacientes apresentaram pontuação maior que 60, frente a apenas 39,7% do grupo controle. Após o ajuste de fatores estatísticos, como idade, sexo e escolaridade, os pacientes que utilizavam cabergolina ainda apresentavam 2,6 vezes mais chances de terem comportamentos impulsivos. Entre as três dimensões avaliadas, a impulsividade atencional era 11% maior entre o grupo de pacientes. Já entre os impulsos específicos, as chances de fazer compras compulsivas eram 4,47 vezes maiores entre os tratados com cabergolina. Os pesquisadores reforçam que é importante considerar a influência de outros fatores que podem aumentar a predisposição à impulsividade. Por exemplo, pacientes com menor escolaridade estavam associados a uma maior probabilidade de agir por impulso.

Mais impulsivos
Ainda que traga resultados consistentes, a pesquisa ainda não permite afirmar que a cabergolina é responsável pelo comportamento impulsivo dos pacientes. Para isso, seria necessário um estudo longitudinal, em que os pacientes são avaliados antes, durante e depois do tratamento com o fármaco. “Nesse caso, teria que ser um estudo multicêntrico, com vários centros de pesquisa ao mesmo tempo”, comenta Daniel.
Porém, os achados da pesquisa são importantes para que os pacientes que venham a apresentar esse tipo de efeito colateral durante um tratamento recebam o acompanhamento necessário. “Até poucos anos atrás, nós, médicos, prescrevíamos a cabergolina sem informar aos pacientes sobre essa possibilidade, e com certeza muitos apresentavam esses comportamentos e não conversavam sobre eles com os médicos”, reflete Garmes, que chama a atenção para o fato de 40% do grupo controle ter apresentado pontuação elevada para a impulsividade. “Hoje em dia, com os problemas que temos com o vício em apostas no Brasil, é algo que preocupa muito.”
Matéria: Felipe Mateus | Jornal da Unicamp.





