Mesmo em níveis baixos, poluição do ar aumenta internações por doenças renais
Em dez anos, concentrações de material particulado na cidade de São Paulo chegaram a mais de quatro vezes além do limite recomendado pela Organização Mundial da Saúde

Um estudo apoiado pela FAPESP e publicado na revista Scientific Reports mostrou uma forte correlação entre a concentração de material particulado no ar da cidade de São Paulo, emitido sobretudo pela queima de combustíveis por veículos, com doenças renais.
O estudo estimou o risco de internações por três condições renais de acordo com os níveis desse tipo de poluição do ar entre 2011 e 2021. Homens, de diferentes faixas etárias, foram os que mostraram maior risco de hospitalização.
Mesmo a exposição a baixas concentrações desse poluente, considerando o limite estipulado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) de 15 micrômetros por metro cúbico (μg/m3) de material particulado fino em 24 horas, é suficiente para aumentar o risco de hospitalização em homens por injúria renal aguda, uma das condições analisadas. O risco não aumenta para mulheres nesse caso.
“A exposição do paulistano a esse material chegou a 65 μg/m3, mais de quatro vezes o máximo tolerável segundo a OMS. No entanto, mesmo concentrações dentro do limite ainda mostraram relação com internações por doenças renais, um resultado que indica a necessidade da intensificação de políticas para redução da poluição do ar”, afirma Iara da Silva, primeira autora do estudo, parte de seu doutorado no Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP) e atualmente realizando pós-doutorado na Universidade Tecnológica Federal do Paraná (UTFPR).
O estudo é parte do projeto “A poluição do ar é o motor do envelhecimento renal prematuro”, apoiado pela FAPESP e pela Organização Neerlandesa para a Pesquisa Científica (NWO), coordenado por Lucia Andrade, professora da Faculdade de Medicina (FM) da USP.
O trabalho teve ainda apoio da FAPESP por meio do projeto “Área Metropolitana de São Paulo: abordagem integrada mudanças climáticas e qualidade do ar” (Metroclima Masp), coordenado por Maria de Fátima Andrade, professora do IAG-USP.
Risco aumentado
O material particulado fino é composto de partículas, sólidas ou líquidas, com menos de 2,5 micrômetros (μm) – um micrômetro equivale a um milímetro dividido por mil. Os resultados apontam que a exposição a esse tipo de poluição aumenta em até quatro vezes o risco de hospitalização por doença renal crônica, entre diferentes faixas etárias e níveis de exposição.
Para a doença renal crônica, a exposição de longo prazo ao nível mais alto encontrado no período analisado no estudo, 65 μg/m3, aumentou consideravelmente o risco para indivíduos entre 19 e 50 anos, sendo até 2,5 vezes maior para homens entre 51 e 75 anos.
A exposição prolongada a altas concentrações aumentou o risco de hospitalização para injúria renal aguda, outra condição que afeta os rins, para homens entre 19 e 50 anos. O risco de glomerulopatias, que afetam as estruturas responsáveis pela filtração do sangue, foi maior para homens com menos de 40 anos, especialmente para aqueles expostos a concentrações de 15 μg/m3 a 65 μg/m3 , respectivamente o limite de exposição recomendado pela OMS em 24 horas e o valor mais alto encontrado no estudo.
Esse nível de exposição também aumentou o risco cumulativo de hospitalização para nefropatia membranosa, uma das formas de glomerulopatia, independentemente de idade e sexo.
“A hipótese é que o material particulado que respiramos pode ir para a corrente sanguínea e se depositar em tecido renal, onde é tomado pelo sistema imune como corpo estranho, o que faz com que o organismo produza uma série de mediadores inflamatórios, de fibrose e de envelhecimento precoce [senescência]”, explica a pesquisadora.
Em um trabalho anterior, seu grupo comparou a resposta à injúria renal aguda em camundongos de dois grupos, um exposto ao ar de São Paulo e outro que respirava o mesmo ar depois de passar por uma série de filtros para purificá-lo.
“Nos animais, observamos que aqueles expostos ao material particulado tiveram uma doença mais grave. Houve diminuição da filtração glomerular, mais inflamação nos rins, mais vias de necroptose [morte celular], além de apresentarem marcadores de senescência e fibrose. Em longo prazo, há mais chance de a condição evoluir para doença renal crônica”, afirma.
Para as pesquisadoras, os dados são preocupantes em termos de qualidade de vida e custos de saúde provocados por essas doenças, evitáveis ou menos severas com menores níveis de poluição. Em casos graves, esses pacientes precisam ser submetidos a hemodiálise, procedimento que filtra o sangue fora do corpo, e mesmo ao transplante de rim, órgão pelo qual há mais pacientes esperando na fila.
Num próximo estudo, o grupo brasileiro e neerlandês vai acompanhar pacientes transplantados e comparar os desfechos de saúde em diferentes exposições a material particulado.
“Existem políticas públicas para redução da poluição do ar em andamento, que não têm sido suficientes. Precisamos mesmo de um novo modelo de desenvolvimento que não demande a queima de combustíveis fósseis, também maior responsável pelo aquecimento do planeta”, encerra Silva.
O trabalho ainda teve apoio da FAPESP por meio de Bolsa de Doutorado para Caroline Fernanda Hei Wikuats no IAG-USP, com estágio na Universidade de Amsterdã, nos Países Baixos.
O artigo Chronic PM2.5 exposure and increased risk of hospitalization for kidney disease in São Paulo, Brazil está disponível em: nature.com/articles/s41598-026-39558-5.
Matéria: André Julião | Agência Fapesp


