Revista de Domingo, número 9
17 de maio de 2026: confira tudo o que preparamos para você
“Como Nossos Pais”: a canção de Belchior é destaque na matéria de RCF, “País e Pais desmoralizados”, nesta edição da Revista de Domingo
EDITORIAL
Copo meio cheio ou meio vazio
Nesta edição, parodiando Cazuza, “contradições, aporias e paradoxos, nos interessam”. Não querendo dizer, como fez ele na canção “Maior abandonado”, que “estamos perdidos, sem pai nem mãe, bem na porta da sua casa”, mas que usamos estas figuras de pensamento (entre outras, é claro) para expressar, nos textos da Revista de Domingo número 9, um momento bem singular do mundo, do país e por que não dizer, do nosso quintal. Para o qual olhamos e vemos, entre outras coisas, é claro, um endereço onde fazem entregas do Mercado Livre. Bem na porta de nossas casas.
Calma. As três palavras lá do início só amedrontam, mas nem por isso precisam meter medo. Três ideias que expressam, na ordem:
Contradição: conceitos opostos que se negam mutuamente, presentes na mesma palavra ou texto;
Aporia: ideia que é um beco sem saída, inconclusiva;
Paradoxo: situação ou declaração onde há oposição de conceitos que se anulam ou não se sustentam juntos.
Vejam que as três são aparentadas, ligadas por aparente negatividade. À primeira vista, poderia aparecer um mistura de um Caos de Nada com Coisa Nenhuma. Mas muito mais nos aguarda, em se colocando microscópios: vemos que espaços vazios, o negrume de um poço sem fundo e ideias que se chocam (como treminhões cheios de cana se batendo numa estrada de terra) podem se ligar a abordagens diversas, que trazem resultados que podem, como tudo nesta vida, ser positivos, neutros ou negativos.
Uma delas é a maneira imaginativa, tão ampla como os Grandes Sertões de Rosa, o papel carbono que marca negativos para trazer positivos: infinitos particulares, repleto de aporias e paradoxos como o de Jorge Luis Borges, frases de Graciliano Ramos e Nietzsche, ou (ai de nós, citando de novo, e de novo, “O Guardador de Rebanhos”!), frases e palavras gastas, sejam citações de Fernando Pessoa, sejam ideias pra lá de óbvias do Fábio San Juan (para quem não sabe, um dos autores desta Revista).
Outra abordagem possível é aquela que bate na porta do inferno e encara o Capeta de frente. Nesta edição, Romualdo Cruz Filho traz, na análise da política da semana (não de forma explícita, mas nos vãos e frestas das metáforas) a imensa charada, de uma graça triste, porque é um imenso paradoxo, ou melhor, uma aporia: o que é que tem cara de país, limites e fronteiras de país, povo, constituição, poderes executivo, legislativo e especialmente judiciário de um país, mas não é bem um país?
Como a resposta é o aparente beco sem saída no qual vivemos (especialmente na dificílima escolha que ele nos aponta e que se aproxima perigosamente, a do próximo presidente da República), também à questão implícita de “Se não é um país, o que é então?”, deixamos que leiam os textos da Revista de Domingo desta semana – que tem as análises afiadas sobre política brasileira do Romualdo (nosso RCF) e as críticas e divagações literárias do Fábio (nosso FSJ), e cheguem às suas conclusões, por sua conta e risco. Ou a mais uma aporia de dimensões continentais.



