Presença de pastagens e lavouras no entorno de rodovias eleva o risco de atropelamento de mamíferos
Estradas cujas margens abrigam áreas de pastagem e de produção agrícola apresentam maior risco para a ocorrência de atropelamentos envolvendo animais selvagens, inclusive de espécies classificadas como vulneráveis ou ameaçadas de extinção no estado de São Paulo. É o que mostra um estudo conduzido por pesquisadores da Unesp que envolveu análises de sete anos de dados de uma das principais rodovias do estado, a Rodovia Dom Pedro I.
Os resultados podem ajudar a redefinir os parâmetros das atuais para a instalação das infraestruturas de segurança, que visam bloquear o acesso dos mamíferos às vias. De forma geral, a decisão do local para a instalação dessas estruturas ainda é pautada principalmente pela proximidade de remanescentes florestais e pela identificação de hot spots, os trechos da via com alta incidência de atropelamentos de animais. E estas ocorrências podem variar de acordo com a época do ano.
O atropelamento de animais em rodovias representa uma das principais ameaças à conservação da fauna no país. Embora a escassez e a má distribuição dos dados obtidos a partir do monitoramento das vias prejudique um levantamento mais preciso, estimativas apontam para cerca 9 milhões de vertebrados vitimados no Brasil anualmente. No contexto paulista, o Departamento de Estradas e Rodagem (DER) de São Paulo divulgou que, em 2025, foram registrados 5.150 atropelamentos de animais silvestres nas rodovias sob sua administração.
O problema chama a atenção das autoridades uma vez que, para além das questões preservacionistas, as colisões de veículos com médios e grandes mamíferos também representa um risco à vida de motoristas e passageiros. Entre as estratégias adotadas para evitar esses acidentes estão a instalação de cercas e a construção de passagens de fauna. O novo estudo procurou entender como a paisagem do entorno das rodovias pode influenciar na ocorrência de atropelamentos, de forma a contribuir com medidas de mitigação dessas colisões.
Entre os resultados já esperados pelos pesquisadores está a constatação de que a presença de remanescentes florestais próximo às rodovias aumenta o risco de atropelamento de espécies cujo estilo de vida está associado a tais habitats. Porém, os estudiosos se surpreenderam ao verificar que áreas de pastagem e de produção agrícola próximos às vias terrestres também merecem atenção, pois elas são visitadas por espécies classificadas como generalistas, isto é, menos associadas a habitats específicos.
Os autores do trabalho, publicado na revista científica Wild, argumentam que o trabalho pode colaborar na elaboração de novos critérios para a instalação de estruturas de proteção da fauna nas rodovias, especialmente no contexto da Mata Atlântica, um bioma marcado pela fragmentação e pela diversidade no uso da terra. Atualmente, a construção dessas proteções prioriza principalmente a presença de áreas florestais no entorno da via e os locais com maior índice de ocorrências fatais.
Para entender os fatores que influenciam na colisão com os mamíferos, os pesquisadores recolheram dados de atropelamentos de fauna obtidos pela concessionária da rodovia Dom Pedro I, a Rota das Bandeiras, entre 2014 e 2021. A rodovia, uma das mais importantes do estado de São Paulo, tem 145 km de extensão e liga os municípios de Jacareí e Campinas, recebendo cerca de 450 mil veículos diariamente.
Além da relevância econômica, a Dom Pedro I também apresenta grande importância ecológica, pois atravessa o Corredor Cantareira-Mantiqueira, uma iniciativa de planejamento territorial criada em 2010 com o objetivo de conectar diversos fragmentos florestais de Mata Atlântica ainda existentes entre o Parque Estadual da Cantareira e a Serra da Mantiqueira.

O levantamento apontou que mais de 24 espécies diferentes de mamíferos de médio e grande porte foram vítimas de acidentes com veículos na rodovia. Algumas delas estão ameaçadas de extinção ou são classificadas como vulneráveis no estado: é o caso do tamanduá-bandeira, da jaguatirica, do lobo-guará e da onça-parda. E uma espécie que não é considerada em risco, a capivara, esteve envolvida em 60% das ocorrências de atropelamento.
Para o autor principal do artigo, o biólogo Francisco de Assis Alves, o registro de atropelamentos de capivaras não preocupa tanto do ponto de vista conservacionista, mas representam um alerta para a segurança viária, já que colisões com este roedor de grande porte costumam causar prejuízos materiais consideráveis e até mesmo vítimas humanas.
Já os atropelamentos de grandes felinos ou de animais ameaçados chamam a atenção dos pesquisadores porque essas espécies costumam integrar populações com um número reduzido de indivíduos, muitas vezes com baixa taxa de reposição e de reprodução. “Essas costumam ser espécies que ocorrem em menor densidade na natureza. Portanto, se a gente perde um macho ou uma fêmea em idade reprodutiva, o impacto dessa perda para a população como um todo é muito grande”, explica o pesquisador.
Hábitos das espécies colaboram para ocorrência de acidentes
Além da contagem dos atropelamentos por espécie, o estudo classificou os animais por grupos funcionais, levando em consideração o tamanho da área de vida e sua tolerância a ambientes antropogênicos. “As espécies de mamíferos compartilham muitas características em comum. Então dividi-las de acordo com essas características funcionais pode ser útil na hora de pensarmos medidas de mitigação, já que essas ações podem ser aplicadas a cada grupo como um todo, ao invés de elaborarmos planos específicos para cada espécie”, explica Alves.
Para entender como esses acidentes se relacionam com o entorno das rodovias, os pesquisadores buscaram os mapas de uso e ocupação do solo da região do entorno da rodovia Dom Pedro I. Para cada ponto de atropelamento, os pesquisadores delimitaram uma circunferência em torno do local e calcularam os tipos de paisagem com maior proporção dentro da área do círculo. As variáveis de paisagem avaliadas foram floresta, pastagem, agricultura, silvicultura, áreas urbanizadas, mosaico de usos e corpos d’água.
Os resultados mostram que a ocorrência de atropelamentos de mamíferos de médio e grande porte não depende apenas da presença de áreas florestais ou das características da rodovia, mas da forma como as áreas do entorno das vias são ocupadas e seus respectivos usos. “Um ponto de atenção que o trabalho trouxe é que tanto as áreas com cultivos agrícolas como áreas de pastagens também são relevantes e afetam positivamente na ocorrência dos atropelamentos”, explica Alves.
Parte dessa tendência pode ser explicada pelo hábito generalista de algumas espécies vítimas de atropelamentos que, por apresentarem maior flexibilidade ecológica, acabam se deslocando para além do contexto florestal e explorando uma maior variedade de paisagens. Tal perfil flexível é observado nos animais com mais mortes no levantamento, como o gambá, a capivara, a lebre europeia e o cachorro do mato. “Já as espécies que são mais ‘especialistas’ têm requerimentos ambientais mais sofisticados e dependem mais de condições específicas do ambiente. Até por isso são mais raras”, afirma o pesquisador.

Alves destaca outras características que também podem colaborar para vitimar determinada espécie, como sua ocorrência na região e o seu comportamento biológico. O pesquisador cita o caso do tamanduá-bandeira, que costuma ser uma vítima recorrente de atropelamentos nas rodovias do país por ser característico de áreas abertas – o que é compatível com regiões agrícolas e de pastagem –, ter hábitos tanto diurnos quanto noturnos, e se deslocar mais lentamente.
Além da atuação acadêmica, que inclui um mestrado pelo Programa de Pós-Graduação em Animais Selvagens da Unesp, no câmpus de Botucatu, o pesquisador trabalha como analista ambiental em uma empresa concessionária e tem experiência em ecologia de rodovias, atuando na área enquanto esteve vinculado à Dersa (Desenvolvimento Rodoviário S.A). O trabalho sobre atropelamento de mamíferos na rodovia Dom Pedro I é parte de seu doutorado no Programa de Pós-Graduação em Ecologia, Evolução e Biodiversidade, no câmpus de Rio Claro.
Novos critérios para construção de passagens de fauna
Na perspectiva do pesquisador, o trabalho pode provocar uma mudança de paradigma na gestão de fauna em rodovias, em especial nos critérios para a instalação das passagens de fauna. Atualmente, essas travessias são construídas associadas a cercas diretrizes, grades que impedem o acesso dos animais ao asfalto e os direcionam de forma segura para as passagens. De forma geral, a decisão do local para a instalação dessas estruturas ainda é pautada principalmente pela proximidade de remanescentes florestais e pela identificação de hot spots, os trechos da via com alta incidência de atropelamentos de animais.
Para Alves, além de os acidentes não estarem necessariamente concentrados nos trechos da rodovia próximos a remanescentes florestais, como foi observado pelo trabalho, muitas vezes os hot spots podem mudar de local de acordo com o período do ano ou por uma alteração no uso dos terrenos no entorno da via. “A estratégia de priorizar hot spots, embora faça muito sentido na perspectiva financeira, em termos de conservação da biodiversidade é insuficiente. Precisamos avançar para um delineamento que considere determinados números de passagens por quilômetro para efetivamente reduzir o número de atropelamentos”, afirma.
O pesquisador também chama a atenção para um problema enfrentado por muitas concessionárias que atendem à legislação e investem na proteção da fauna. Frequentemente, as cercas diretrizes, que são instaladas a alguns metros de distância do acostamento, às vezes no meio da mata, são furtadas. “Em minha atuação profissional eu já vi muitas vezes a concessionária instalar longos cercamentos que em pouco tempo são roubados. Isso gera um problema duplo porque o investimento é perdido e as estruturas de passagem perdem a finalidade”, lamenta o pesquisador. “É um problema socioambiental presente na questão da gestão da fauna em rodovias que ainda é muito pouco discutido”.

Alves reconhece a importância da instalação de estruturas que permitam a passagem dos animais, mas acrescenta que a proteção efetiva da fauna e dos passageiros de veículos depende de uma articulação conjunta entre concessionárias, proprietários rurais e prefeituras, já que decisões locais sobre o uso da terra têm impacto direto na mortalidade da fauna e na segurança viária. “A questão do atropelamento de animais silvestres precisa ser olhada como um todo. Não devemos priorizar uma área em detrimento da outra porque cada região tem características próprias. É preciso formular estratégias adaptadas para cada contexto”, finaliza.
Matéria: Marcos do Amaral Jorge | Jornal da Unesp.





