Este texto foi escrito em 2005, ano de nascimento do meu filho. Publiquei em um jornalzinho que tinha o singelo nome de GiraPira. M.A.S.C. estava ainda no HFC quando achei necessário registrar minha emoção naquele momento. Procurei não ser ridículo, mas pai de primeira viagem, sabe como é. Vamos ao registro.
Meu filho nasceu sábado, 1º de outubro, 10h55, no Hospital Fornecedores de Cana (HFC). Assisti ao parto. Foi uma experiência que me recolocou em contato com a natureza, no sentido schopenhaueriano do termo.
Era a vida desafiando os sentimentos do Homem para se manifestar. Sim, Homem, como H maiúsculo, como síntese de humano.
Fiquei sabendo que a maioria dos pais não tem coragem de participar desse momento. Eu tive. E vi sair da barrigona linda da Mônica Santana uma criança.
Fomos pegos de surpresa. Depois de um exame, que para nós seria de rotina – apesar de terem avançado alguns dias além das 40 semanas normais –, veio a notícia do médico: “Vai nascer agora”.
O doutor ficou preocupado com a possibilidade de a mãe não ter dilatação suficiente para dar à luz a uma criança de 57 centímetros e mais de quatro quilos de muita expectativa.
Os preparativos, quem nunca assistiu imagina, porque são recorrentes em filmes e novelas: o barulho do ferramental cirúrgico, o burburinho entre médicos e assistentes, as orientações para que a paciente não se estresse. Tudo segue script previsível. E eu ali, ao lado da mamãe, dando a maior força.
Depois de tudo pronto e das apresentações dos profissionais que tratariam da nobre missão, uma movimentação rápida para cá e outra para lá; aparelho aqui, pressão ali, mercúrio por todo o corpo; um corte preciso, um barulho aquático e eis que surge o filho do Homem.
Este som aquático é a senha para a incursão no momento sagrado. Na sequência vem o choro: “Nunééééé”. E o médico alça o recém-nascido segurando-o pelas pernas e o mostra aos pais.
Fiquei bobo e disse à Moni: “É pintudão”. A mamãe é levada à sala de repouso, onde dá mamá ao bebê pela primeira vez.
Quando ela consegue mexer as pernas, imobilizadas pela anestesia, já pode ir ao quarto para cuidar do filho e receber as visitas.
Da minha parte, saí do hospital desnorteado. Depois de uma noite solitária e tranquila, acordei com uma ideia fixa: precisava de um ritual de iniciação que me sintonizasse ao tempo e ao espaço e simbolizasse um diálogo com meus ancestrais. Como se eu quisesse provar a mim mesmo que era herdeiro de uma tradição e, ao me tornar pai, deveria passá-la aos meus filhos.
Decidi então fazer uma coisa que meu pai fazia quando eu era criança e que me marcou muito por representar uma atitude adulta, de homem responsável. Decidi me barbear com uma lâmina, daquelas que se prende em um aparelho de metal e exige muito mais cuidado para não se cortar todo.
A troca dos aparelhinhos descartáveis por um aparelho daquele seria o meu rito de passagem. Enquanto me barbeava, sentia a transformação. Como Buck Mulligan, personagem de James Joyce, em “Ulisses”, aquele rito silencioso me fortalecia. Conservador ou não, segui sobranceiro e fornido ao hospital para reencontrar com minha família. Entrei na maternidade e ouvi as enfermeiras comentando: “Olha lá, o pai bobão chegando”. Dei tchauzinho. No quarto, cumprimentei a Moni.
Com espírito paternal, antes de voltarmos para casa, decidi ajudá-la a trocar nosso filho. Meio sem jeito, virei a criaturinha pra cá, para lá. Limpa aqui, limpa ali. Pega roupinha nova. Ajusta tudo para dar o fecha final e... um novo cocozão na roupa nova.
Viiiichi!
“Vamos ver se você aprendeu, papai”, pensei. De novo. Limpa aqui, limpa ali, ajusta tudo para prender e... um mijão, bem na minha cara.
Olhei firme para o menino e percebi que seu jeito irônico de tratar a situação escondia alguma mensagem decifrável somente por nós dois. Tentei desvendar o enigma durante toda a viagem de volta.
Ao colocar as mãos no portão de casa, caiu minha ficha: aquele era o ritual de iniciação do meu filho e que marcou para mim o início de sua vida social.
Estava ali o primeiro grande aprendizado da nova fase: os rituais de iniciação nos acompanham a vida inteira e começam a partir do primeiro contato com a vida. E não são os mais velhos que transmitem aos mais jovens como os valores devem ser preservados. Mas, sim, ocorre uma troca de entendimento em relação ao mundo, onde cada um deixa sua marca no tempo, conforme determina a natureza.




