
Estudei numa escola pública, que já exibia qualidade de ensino na minha época. Dia desses, li uma notícia que tinha ficado em primeiro lugar num desses rankings do governo. Era, naquele ano, a que tinha alcançado a melhor pontuação em todo o Brasil.
A escola em questão é a “Honorato Faustino”, ali no bairro São Dimas. Não me entendam mal, a escola não é boa porque estudei lá. Como diria Millôr, Fernando Sabino ou Ivan Lessa, antes muito pelo contrário: apesar de eu estar lá, a escola oferecia boa educação.
Claro que tudo isso é uma grande brincadeira. Uma escola com excelentes professores, diríamos naquela época e ainda hoje, infelizmente, com nível de escola particular. Num bairro de classe média, em que a maioria das crianças podia ter uma lancheira com personagens, algo caro na época, com lanches tão bons, que nem precisavam comer merenda. Mas comiam, porque era muito boa. Merenda enviada pelo Estado. Deixo para analistas políticos dizerem quem estava no governo na época, que vai de 1981 a 1988. Decidam vocês se isso era bom ou não.
Outra coisa é que eu, sendo de classe média baixa, com um tanto menos de dinheiro que meus colegas, não tinha acesso a muitas coisas que eles tinham. Mas dois elementos mudaram minha vida, e que ganhei estudando no “Honorato”: uma excelente professora de português entre a 5.a e a 8.a série, dona Elecyr Gorga (todas as professoras eram “donas”, assim como em determinadas épocas eram “tias”, e hoje são “profes”), e uma biblioteca escolar.
Não sei exatamente o que há nas bibliotecas das escolas públicas hoje em dia. Dois dos meus filhos estudaram em uma escola estadual que, em determinada época, esteve trancada a cadeado. Eu e minha esposa fomos constatar, e realmente, estava trancada. A direção alegou que era para os alunos não depredarem os livros. Justamente os livros que, talvez, reforçassem o aprendizado de que não se devem destruir, e sim, lê-los, e aprender com eles. Talvez seja algum elemento dessas novas “pedagogias ativas”, que tenha a ver com a educação moderna. Sei lá. Quem sabe, assim se queira atraí-los para os livros, ao se negar acesso a eles, propondo um desafio.
Voltando à biblioteca do “Honorato”: eu e meu irmão crescemos numa casa em que livros, gibis e jornais eram devorados, como as paçoquinhas que pendurávamos na conta do meu pai no Bar do Renato. Assim, fui formado a partir dos cronistas da coleção “Para gostar de ler”, da editora Ática, que depois descobrimos, eram os maiores e melhores da imprensa brasileira: Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Rubem Braga, Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Resende. E também com romances, especialmente de Machado de Assis, influência da minha mãe, que o adorava.
Nos jornais de Piracicaba – o JP, “O Diário” e “A Província” - líamos Henrique Cocenza, Salvador de Toledo Piza e Marco Toledo Piza, Nair Barbosa, Guilherme Vitti. Cecílio Elias Netto, que escrevia quase sozinho “A Província”, com uma pequena ajuda de João Chiarini e Roberto Cera. Ainda há muitos outros, foi uma época de ouro para a imprensa piracicabana, eram dezenas de colaboradores, distribuídos entre quatro jornais na cidade, em determinado momento da década de 1980. Do Lino Vitti, não gostávamos, nem das poesias da coluna da Bonachela. Também tinha o Rocha Netto, com a História do XV, colunas de Filatelia e Numismática. Líamos, sem distinção, as colunas da Igreja Católica e da Maçonaria. E adorávamos os suplementos infantis, o “Jornalzinho” e o “Diarinho”. Edson Rontani com o “Você Sabia”, os cartuns e quadrinhos da Carla Vogelsanger. Não tínhamos acesso à Tribuna Piracicabana nesta época, senão a leríamos também.
Essa é a edição “raiz” do livro do Cecílio. Do tempo em que não havia “raiz” nem “nutella”, e se dizia “largue mão de tanta frescuraiada”.
Quando, no entanto, a biblioteca da casa materna se esgotou, e já não me satisfazia mais os gibis comprados no Sebo do Silas (que descobrimos graças a uma reportagem do JP), duas fontes se abriram: a biblioteca municipal e a biblioteca do “Honorato”. Não sei qual delas veio primeiro, ou se foi simultânea a frequência a elas: só sei que, para resumir bem a história, tive que pedir para acessar a biblioteca, em determinado momento, pois como a biblioteca da escola de meu filho, ela ficava fechada, embora não com cadeado. Era só pedir na secretaria que abriam-na para eu escolher o que fosse ler.
Não sei se foi o primeiro livro que escolhi, mas foi um dos primeiros. Lembro-me que estava na quinta série, ou seja, devia ter entre 10 e 11 anos de idade. Era “Eu, Robô”, de Isaac Asimov, numa edição de bolso, da editora (olha só) Edibolso.
Esta é a edição, velha e judiada, da obra, que consegui encontrar à venda, e hoje é minha; não mencionei que a edição de bolso foi impressa em papel jornal vagabundo, como era comum, para ser vendida em bancas de revistas; o papel envelheceu, está quebradiço e se partindo em pedaços. Mesmo assim, para mim, é um tesouro.
Notem o detalhe, que fui perceber somente anos depois: embora a edição seja brasileira, de 1976, a grafia do título na capa é “Robot”. Como se fosse em inglês. Talvez um cochilo de revisão? Ou será que foi proposital, para chamar a atenção?
Tudo nesta edição do livro me fascinou: a capa com um robõ, numa ilustração “realista”; o nome exótico do autor, “Isaac Asimov” – diferente dos brasileiros a que estava acostumado; abrindo a capa, no frontíspicio, vinham as Três Leis da Robótica:
AS TRÊS LEIS DA ROBÓTICA
1. Um robô não pode ferir um ser humano ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.
2.Um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.
3. Um robô deve proteger sua própria existência, desde que tal proteção não entre em conflito com as Primeira e a Segunda Lei.MANUAL DE ROBÓTICA
56.a edição, 2058 A.D.
E na contracapa:
ROBOT - o ser mecânico criado pelo homem à sua imagem e semelhança.
• VOCÊ TERIA UM ROBOT como ama de seus filhos?
• O QUE FAZER COM UM ROBOT BÊBADO?
• SERIA POSSÍVEL UM ROBOT FILOSOFAR?
Nesta fascinante série de nove estórias, Isaac Asimov – com seu talento inigualável – revela a sensacional visão de um futuro onde os Robots foram tão aperfeiçoados para o bem da humanidade que poderiam até governar o mundo...
Isaac Asimov – EU, ROBOT
E advertência, que avalizava a honestidade do editor, e garantia um entretenimento completo:
ESTE LIVRO CONTÉM O TEXTO COMPLETO DA EDIÇÃO ORIGINAL. NENHUMA PALAVRA FOI OMITIDA.

É claro que, para um menino de 10 anos, formou-se uma imensa expectativa. Que foi plenamente atendida: embora os nove contos tenham sido escritos sem uma ordem definida, o autor, ao reuni-los em volume, escreveu uma introdução e textos entre cada conto, amarrando-os para contar a biografia de Susan Calvin, a robopsicológa mais famosa do mundo, e que acompanhou a evolução dos robôs desde o início, na década de... 1980. O primeiro robô humanóide, na história, é comercializado no distante ano de 1996; a dra. Susan ingressa em seu emprego na US Robôs & Homens Mecânicos, no ainda mais longínquo ano de 2008.
Lendo tudo isso em 1985, ainda era muito plausível. Numa época em que, quando queríamos que um evento estava longe no futuro, ou que nunca ia acontecer, dizíamos: “nossa, isso vai ficar para o ano 2000...”
Fascinaram-me as histórias com dilemas éticos, onde robôs se disfarçam de pessoas (o contrário da charge vencedora deste ano, no Salão de Humor), fogem do trabalho e se escondem, enlouquecem (hoje diríamos “alucinam”) para não prejudicar pessoas, projetam naves espaciais, e os Cérebros Eletrônicos, que nada mais eram, na versão asimoviana, que computadores superavançados com inteligência artificial, versões mastodônticas de cérebros de robôs, que passam a governar o mundo, no final do século XXI, sem que os seres humanos tivessem percebido.
Em um dos contos, a dupla de personagens Powell & Donovan (parece nome de dupla de cantores da década de 1970, tipo Simon & Garfunkel; mas os contos originais são da década de 1940), em uma de suas aventuras com robôs, são obrigados a uma dieta exclusiva de ervilhas em lata e leite; lembro-me que encasquetei de me submeter ao mesmo regime durante algum tempo, só para ver como era. Não passou de uma noite, a mistura no paladar até era boa, mas provou ser enjoativa, e o sistema digestivo também não gostou muito da ideia.
Sei, depois de ter-me tornado um leitor compulsivo de contos e romances de ficção científica (para os íntimos, FC ou Sci-Fi), que um dos conceitos que tentam explicar nosso fascínio por histórias que antecipem o futuro é o tal do sense of wonder, o que pode ser traduzido, literalmente, como “senso de maravilhamento”. Esse conceito é muito usado por quem escreve a respeito do gênero FC, mas hoje percebo o quanto é um recurso, ou efeito, de muitas obras da literatura de todos os gêneros, embora não de toda ela.
Assim, a “Odisseia” e a “Ilíada”, “Dom Quixote”, as “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, ou mesmo literatura que não seja explicitamente fantástica, como “Moby Dick” de Melville, não tendo nenhuma pretensão de antecipar o futuro, maravilham o leitor.
Obras tão diferentes como “Os Lusíadas”, “O Hobbit” e “O Senhor dos Anéis”, “O Morro dos Ventos Uivantes”, “Hamlet” e “Crônicas de Nárnia”, têm o poder de causar assombro, espanto, encantamento, como se fosse livros mágicos de um feiticeiro ou bruxa dos antigos contos de fada.
É claro que obras como “As Aventuras de Gulliver’ e “Robinson Crusoe”, ambas de Defoe, o Micromegas, de Voltaire, assim como “A Luneta Mágica”, de Joaquim Manuel de Macedo, e todas as obras de Julio Verne, estão navegando explicitamente nessa corrente de maravilhamento que os norte-americanos ligam mais ao gênero da ficção científica.
Pensando melhor, percebo que o sense of wonder é a matéria-prima dos antigos mitos e fábulas, e que todas as melhores histórias, de uma forma ou de outra, possuem esse ingrediente. Cabe aos autores moldá-lo, com suas mãos e a roda de oleiro da imaginação, de forma que nos encante com seu engenho e arte,
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Em tempo: o filme com Will Smith, “Eu, Robô”, não tem nada a ver com o livro de Asimov, a não ser a presença de uma personagem feminina chamada Susan Calvin - que não tem absolutamente nada a ver com a doutora do livro. Para falar a verdade, quando soube que filme e livro não se conversavam, nem perdi o meu tempo; essas informações, aliás, tive que as confirmar na internet.
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Iniciei-me em tudo isso, a partir de um livro que descobri na biblioteca da minha escola de 1.o grau.
Descobri outros livros nesta coleção de livros destinados a escolares, que foram não só importantes, mas capitais, em minha formação: Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley, que li pela primeira vez aos 12 anos, e 1984, de George Orwell, livros que ainda releio, de tempos em tempos, sempre descobrindo novo entendimento, de acordo com a idade nova e anos de velhice.
Ambas as obras as li, daquela biblioteca, na edição escolar da Editora Globo, de Porto Alegre; ainda hoje procuro estas edições para comprar, e não as encontro. Talvez porque fossem destinadas a bibliotecas de colégios públicos.
(Noutro dia, conto sobre a influência de dona Elecyr, que me indicou “Sagarana”, de Guimarães Rosa, para que o lesse, aos 14 anos. Num outro dia, numa outra crônica, a quem interessar possa.)
Escola boa, biblioteca boa, bons livros. Só não digo “época boa” para não soar ainda mais nostálgico do que já estou soando.
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Hoje, leio o texto da contracapa de “Eu, Robot”, no exemplar da Edibolso, que consegui encontrar para compra, mais de trinta anos depois que o li pela primeira vez, e vejo o quanto estamos próximos dessa realidade: robôs circulando por aí, sendo babás dos nossos filhos e netos, o Rumble fazendo trabalhos domésticos e a Alexa e o ChatGPT fazendo terapia e conversando conosco, substituindo amigos e familiares.
Quando mal nos dermos conta, estarão governando o mundo... se já não o governam.





