Detritos de rochas plásticas, formadas a partir de lixo marinho, alcançam ninhos de tartarugas e podem perdurar no ambiente
Formações rochosas compostas por polímeros derretidos e sedimentos foram observadas pela primeira vez na ilha de Trindade, no litoral capixaba

Ao longo da última década, geólogos que atuam em diferentes partes do globo vêm relatando a ocorrência de amostras de rochas contendo um material inusitado, ainda que cada vez mais abundante na Terra: o plástico. Desde 2014, esse novo tipo de formação geológica foi observado em pontos do litoral de Portugal, Estados Unidos, Reino Unido, China, Bangladesh, Colômbia, Japão e Brasil.
Na esteira dessas descobertas, pesquisadores buscam explicar o processo de formação das rochas plásticas, sua composição e, mais recentemente, a longevidade de seus fragmentos no ambiente. A geóloga Fernanda Avelar Santos é uma dessas cientistas. Em 2019, ela registrou a primeira ocorrência dessas rochas no Brasil, na distante ilha de Trindade, a mais de mil quilômetros do litoral do Espírito Santo. Os estudos de Fernanda, que atualmente está em estágio de pós-doutorado na Unesp, no câmpus de Presidente Prudente, têm apontado uma perfeita integração entre os detritos plásticos e o chamado ciclo da rocha. Esse fato chama a atenção dos cientistas não apenas pelo fato de que o impacto ambiental do plástico já alcançou áreas tão remotas, como também pela capacidade do material antrópico de integrar, de forma permanente, os processos geológicos.
Para muitos geólogos, a possibilidade de que tais fragmentos plásticos – produtos diretos da atividade humana – se acomodem perpetuamente nas camadas terrestres pode ser um indicativo de que estaríamos vivendo uma nova época geológica, denominada Antropoceno. O nome sugere que a ação do homem está deixando marcas irreversíveis na Terra, mas divide a comunidade de estudiosos entre críticos acerbos e defensores entusiasmados. Daí o valor de pesquisas como a que está sendo desenvolvida pela pós-doutoranda, que talvez possa ajudar a avançar a discussão sobre o Antropoceno.

Um novo tipo de poluição marinha
À primeira vista, as amostras encontradas pela pós-doc da Unesp na ilha de Trindade, quando ainda era estudante de doutorado da Universidade Federal do Paraná (UFPR), parecem reproduzir a composição da maioria das rochas encontradas em regiões costeiras, que agregam em um mesmo material diferentes sedimentos, como restos de conchas, areia ou cascalho. Análises feitas em laboratório e publicadas na revista Marine Pollution Bulletin, em 2022, entretanto, apontaram diferentes formas de ocorrência e composição. Enquanto algumas dessas rochas têm o plástico atuando como um cimento que agrega diferentes materiais, como pedaços de conchas, areia e outros sedimentos, outras são compostas majoritariamente por plástico derretido.
No artigo de 2022, que recebeu ampla projeção internacional, Santos destaca a presença do polietileno e do polipropileno, que são predominantes nas amostras. Ambos os polímeros são amplamente usados pelas indústrias em virtude de sua versatilidade e do baixo custo de produção. A gênese desse novo tipo de rocha, explica a pesquisadora, decorre da interação entre o plástico, abundante no lixo marinho, os processos geológicos clássicos de deposição sedimentar e a ação humana, principalmente a queima do polímero.
A presença humana na ilha de Trindade, entretanto, não produz tanto lixo plástico a ponto de gerar matéria-prima para formar novos tipos de rochas. Apenas cientistas e militares são autorizados a ingressar no local, e eles não costumam somar mais que algumas dezenas de pessoas, que ali se instalam por períodos de até quatro meses. Ocorre que, por estar no caminho de diversas rotas marítimas e em meio a um sistema de circulação oceânica chamado Giro do Atlântico Sul, a remota ilha acaba se tornando destino de descartes provenientes de praticamente todo o planeta, ou seja, muito lixo, formado majoritariamente por materiais plásticos.
Em seu pós-doutorado, que conta com apoio da Fapesp, Santos tem se aprofundado no detalhamento da composição dessas rochas antropogênicas por meio de novas tecnologias analíticas. “Trata-se de um novo tipo de poluição marinha. Um material geológico aparentemente comum, em que se observa a ocorrência de rochas vulcânicas, areia de praia e materiais biogênicos, mas com a diferença de que tudo isso é cimentado por plástico”, descreve a pesquisadora. “Ao mesmo tempo em que as rochas plásticas são uma ocorrência nova e interessante, também despertam muita preocupação quanto à quantidade de lixo que produzimos e à forma como o descartamos”, afirma ela.
A partir do engajamento com pesquisadores da área de ciências dos materiais no Laboratório de Materiais Nanoestruturados para Análises Ambientais e Biológicas (NanoAmBio), no câmpus de Presidente Prudente, Santos detalhou a caracterização físico-química das amostras com o uso da espectroscopia micro-Raman, que combina espectroscopia vibracional e microscopia óptica, entre outras técnicas. Os resultados, publicados neste ano na mesma revista Marine Pollution Bulletin, revelaram a presença de aditivos e corantes na composição dos fragmentos plásticos, elementos que aumentam a durabilidade desse material no ambiente. A técnica também permitiu identificar a assinatura química desses polímeros, revelando que a origem da maior parte do plástico incrustado nas rochas provém de cordas marítimas de polietileno de alta densidade, muito usadas na navegação comercial e na pesca industrial, projetadas para suportar intempéries agressivas.
A pesquisadora explica que os resultados obtidos no laboratório da Unesp estão em linha com as análises do primeiro registro desses aglomerados, realizado pela geóloga Patricia Corcoran, na praia de Kamilo Beach, no arquipélago do Havaí (EUA), em 2014. “Ali, as análises também apontaram a predominância de fragmentos dessas cordas cimentadas nos sedimentos. As cordas marítimas são uma grande preocupação ambiental, e há toda uma linha de pesquisa dedicada exclusivamente a elas no campo dos estudos sobre a poluição marinha”, relata ela.
O caminho dos fragmentos das rochas plásticas
Em outra frente de pesquisa, Santos busca compreender a dinâmica dos fragmentos dessas rochas plásticas no ambiente da ilha de Trindade ao longo dos últimos cinco anos de atividades de campo. Uma das constatações foi que a área inicial de ocorrência dessas rochas, que no ano da descoberta, em 2019, era de 12 m², foi reduzida em 45% em virtude de processos erosivos. Segundo a pesquisadora, os fragmentos (que são classificados como microplásticos e mesoplásticos, devido às suas dimensões que variam entre 1 mm e 65 mm) dessa porção inicial estão se depositando de diferentes maneiras ao longo da costa da ilha, sendo deslocados pela ação do vento e da maré, replicando de forma idêntica processos que ocorrem com os sedimentos naturais.

Nessa dinâmica, uma parte dos fragmentos ficou mais próxima da água do mar, onde foram retrabalhados e ganharam contornos arredondados. Outros fragmentos, de formato um pouco maior e mais alongado, foram encontrados no interior de cavidades de ninhos de tartaruga, o que os protegeu do desgaste físico e promoveu seu soterramento. A ilha de Trindade – em especial a Praia das Tartarugas – é um Monumento Natural (MONA) de grande presença das tartarugas-verdes, que ali estabelecem seus ninhos e depositam seus ovos sob a areia. Na área dos ninhos, Santos encontrou fragmentos plásticos a até 10 cm de profundidade.
“As cordas chegam pelo mar em grande volume e, depois de queimadas, na maioria das vezes pela ação humana, fundem-se ao material natural que está ali na praia. No caso de uma ilha vulcânica, o material presente ali não se limita a pedaços de conchas ou areia, mas também a fragmentos de rocha maiores. Ao longo do tempo, esse material é erodido pela ação das ondas, da maré, do vento e transportado pelo mar, chegando a outras praias”, resume a pesquisadora. Após serem transformados em mesoplásticos e microplásticos, esses fragmentos se depositam e acabam soterrados. “Essa é a mesma abordagem que observamos na geologia sedimentar”, diz.
Pesquisas com rochas plásticas e o Antropoceno
Mais recentemente, em 2025, a pesquisadora iniciou um estágio no Canadá, no qual investiga a capacidade de que tais formações perseverem no ambiente por tempo suficiente a ponto de se tornarem registros estratigráficos. A estratigrafia é o ramo da geologia que analisa camadas de sedimentos formadas durante milhares ou milhões de anos para determinar as características de uma época geológica e, de certa forma, “contar a história da Terra”.
Nessa perspectiva, os fragmentos das rochas plásticas poderiam se tornar uma marca deixada pela humanidade na história da Terra e uma evidência de que estaríamos causando efeitos irreversíveis sobre o planeta, o que constitui um forte argumento a favor dos defensores da proposta de que já estaríamos vivendo no Antropoceno.
Entre os membros da Comissão Internacional de Estratigrafia (ICS), órgão responsável por reger a escala do tempo geológico, não existe consenso sobre o tema. Na última reunião do grupo, em que o debate foi travado, em 2024, decidiu-se que a discussão poderia voltar à mesa dentro de uma década. Até lá, há tempo para que novas pesquisas sejam conduzidas e novos argumentos sejam produzidos para ajudar a elucidar o debate.
Esse é justamente o foco da atuação de Santos na Western University, no Canadá, onde a pesquisadora está desde o início de 2025, colaborando com o grupo da geóloga Patricia Corcoran, pioneira e referência mundial no estudo das rochas plásticas. No laboratório canadense, as pesquisadoras vêm realizando experimentos que usam câmaras especiais para entender se essas novas rochas podem, de fato, preservar o plástico em camadas profundas da Terra.

Santos explica que essas câmaras têm a capacidade de simular o envelhecimento de materiais sob diferentes contextos por meio da exposição severa à radiação ultravioleta, umidade, calor, entre outros elementos climáticos. “Durante o último ano, nós simulamos o clima de ilhas oceânicas sobre as amostras provenientes das ilhas da Trindade, Fernando de Noronha e do Havaí. Queremos simular o que acontece com essas rochas ao longo do tempo na superfície e em grandes profundidades da Terra”, destaca. Os resultados devem ser publicados ao longo de 2026.
Ainda vai demorar até que os especialistas encerrem o debate sobre o Antropoceno. Os críticos do termo levantam dúvidas, como a extensão e a duração dos impactos associados ao ser humano, ou os eventos que podem marcar o início desse período. Santos e sua colega canadense estão entre os cientistas que acreditam que já estamos vivendo esse momento. “Do ponto de vista de uma geóloga que, nos últimos anos, esteve indo a campo e viu plásticos se incorporarem ao processo geológico, o Antropoceno já está aí”, diz a geóloga.
Matéria: Marcos do Amaral Jorge | Jornal da Unesp.




