Tão lidas e comentadas quanto as atuais resenhas das séries de TV e filmes na internet, as críticas literárias publicadas em jornais britânicos do século 19 buscavam estabelecer critérios para avaliar o romance, gênero literário que vinha se consolidando desde o século anterior. Visto inicialmente como uma forma inferior de expressão, o romance não se adequava às normas clássicas da teoria literária. No lugar de feitos heroicos da realeza, as novas histórias narravam o cotidiano de pessoas comuns e abriam espaço para representá-las como personagens trágicas – algo que, previamente, era reservado somente a figuras de posição social elevada. Em busca de parâmetros de análise, os críticos da época se voltaram então para outras formas artísticas, como o teatro de William Shakespeare (1564-1616) e a pintura holandesa seiscentista, conhecida por retratar cenas comuns da vida em estilo realista.
A história desses debates literários foi o objeto da pesquisa de Júlia Mota Silva Costa em sua tese “Entre o trágico e o prosaico: a ideia de fidelidade à natureza em Emily Brontë, George Eliot e Thomas Hardy”, desenvolvida no Instituto de Estudos da Linguagem (IEL) da Unicamp. “Eu quis explicar por que a retórica dos críticos foi tão importante para nossa atual relação com o romance, uma forma literária que foi ‘canonizada’, mas que no seu início não detinha essa reputação. A legitimação foi conquistada gradativamente”, afirma a autora.
De acordo com Costa, no Reino Unido do século 19, o cânone clássico da arte vinha perdendo status junto à crítica enquanto a “fidelidade à natureza” adquiria um papel importante. Esses dois fatores permitiram que o romance começasse a conquistar uma autonomia estética, até alcançar o lugar de gênero mais lido e consumido do mundo.

A crítica aos romancistas
Para Jefferson Cano, professor do IEL e orientador da tese, o trabalho de Costa conta a história da literatura a partir de um problema que, nesse caso, era a forma como os críticos elaboravam a narrativa sobre os romances. “Ou seja, você faz a análise da crítica, e não apenas da obra ou do autor propriamente ditos. A originalidade do trabalho foi conseguir fazer esse cruzamento, que não é arbitrário e está historicamente ancorado.”
Depois de apresentar panoramas históricos da crítica de romances, da crítica de Shakespeare e da teoria da arte, a pesquisadora analisou as obras de três romancistas britânicos: Emily Brontë (1818-1848), autora de O morro dos ventos uivantes (1847), George Eliot (1819-1880), pseudônimo de Mary Ann Evans, que escreveu Adam Bede (1859) e O moinho às margens do Floss (1860), e Thomas Hardy (1840-1928), autor de Judas, o obscuro (1895).
Enquanto a crítica promovia uma disputa entre os sistemas estéticos, romancistas como Brontë, Eliot e Hardy exploravam a complexidade de pessoas comuns, enquadrando-as em situações trágicas. “Esses romancistas foram muito importantes para romper com certas normas literárias que limitavam muito do que se considerava apropriado fazer na literatura, num processo que vai culminar nas experimentações modernistas do começo do século 20, como Ulisses, de James Joyce, e Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf”, conclui Costa.
A maior parte das resenhas literárias, publicadas na imprensa britânica ao longo do século 19, foi acessada remotamente por Costa no acervo de documentos históricos da Biblioteca Britânica, em Londres. “Elas atestam como esses livros foram lidos e avaliados”, destaca Costa, que analisou a ideia de fidelidade à natureza tanto na crítica como nos romances.

Fidelidade à natureza
“Quando falo em fidelidade à natureza, no título da tese, não quero dizer natureza como meio ambiente. Falo no sentido estético, em que o termo se refere à totalidade da realidade, incluindo o comportamento humano”, acrescenta a autora. Até o século 18, segundo ela, predominava o sistema estético clássico, “uma certa forma de avaliar a arte”, incluindo a literatura. “Era uma herança da Antiguidade, da redescoberta da poética de Aristóteles, que via na tragédia e na comédia formas de imitação da natureza.” Nesse sistema, o papel do artista era representar o mundo de uma forma idealizada e aperfeiçoada.
Na Inglaterra, Shakespeare teve um papel importante em romper com esse padrão, pois o dramaturgo não se adequava a essas normas. Gradualmente, a partir de um novo sentido estético de natureza, mais abrangente que o clássico, Shakespeare foi elevado ao status de poeta da natureza. Críticos argumentavam que ele era fiel à natureza por representar as coisas como elas eram – misturando o cômico e o trágico, o rico e o pobre, a tristeza e a alegria, por exemplo.
“A crítica britânica precisou conceber outro sistema estético para acomodar Shakespeare, um sistema que viria a ser chamado posteriormente de romântico”, destaca Costa. “Shakespeare ajudou a ampliar as possibilidades de representação literária, mas ainda não se preocupava com o cotidiano, como começou a acontecer mais tarde no romance.”
Caminho pavimentado
Os argumentos retóricos que elevaram Shakespeare à posição de maior poeta da nação ao longo do século 18 foram apropriados pelos críticos de romances no século 19. “Postulei na tese que os valores estéticos legitimados na recepção de Shakespeare de certa forma pavimentaram o caminho para a recepção positiva do romance”, explica Costa.
Assim como existia um discurso literário influenciado pela herança clássica, predominava uma teoria da arte que era partidária dos mesmos ideais, tendo se consolidado sobretudo no Renascimento. “Rafael e Michelangelo, por exemplo, com suas pinturas e esculturas de figuras idealizadas e de temas elevados, obedeciam às normas de harmonia, simetria e proporção”, exemplifica a pesquisadora.
Por outro lado, os pintores holandeses, entre eles Johannes Vermeer e Rembrandt van Rijn, já no século 17, pintavam cenas de gênero, retratando o cotidiano de um modo realista. Por não respeitarem os ideais renascentistas, suas obras eram consideradas um tipo de pintura inferior.
Pessoas comuns
O que essas formas artísticas tinham em comum era o protagonismo dado a elementos prosaicos. “Eram pessoas comuns que apareciam nas telas, muitas vezes em espaços domésticos, como uma cozinha”, descreve. Nos romances, por exemplo, entre os protagonistas dos livros analisados por Costa há um carpinteiro, a filha de um moleiro, um aprendiz de pedreiro, pequenos fazendeiros e um forasteiro sem lugar social bem definido.
Para Costa, enquanto as comparações entre romances e Shakespeare eram positivas – na medida em que o dramaturgo já se tornara, no século 19, um modelo de excelência indiscutível –, as analogias com os pintores holandeses eram mais ambíguas. “Havia essa persistência da ideia de que [a pintura] podia até ser boa, mas não tanto quanto outras formas mais elevadas de arte. Quando o argumento sobre um romance era negativo, os críticos tendiam a comparar à pintura holandesa.”
Matéria: Adriana Vilar de Menezes | Jornal da Unicamp.




