Rosarinho, uma obra que encanta como o salto do Rio Piracicaba
Sobre o mais recente romance histórico de Marly Therezinha Germano Perecin
O mais recente livro da historiadora piracicabana Marly Therezinha Germano Perecin, o romance Rosarinho (Fox Tablet - 2023), é uma obra de arte, cuja leitura, para um piracicabano que conhece algo da cultura regional, é mais do que um deleite. É o reencontro com um passado recente de forma viva e expressiva, que revela a Piracicaba do final do século XIX e de Itu, a cidade-mãe da Noiva da Colina.
Marly Perecin afirma que se trata do último romance de sua tetralogia denominada “Encontro das Águas, uma saga paulista (1723-1904)”.
Passagens históricas, como são construídas por Marly, compõem cenários que parecem ter acontecido de fato, conforme seu olhar, tamanha a familiaridade da escritora para com os registros documentais. Temos a impressão de que está sendo recuperada a realidade da região a partir de indícios, que nos revela tudo aquilo que precisávamos saber.
Acompanhar Luiz de Queiroz, por exemplo, chegando da Europa com o propósito de montar uma fábrica de tecido na cidade, à margem do rio Piracicaba, nos aproximam de tal forma desse passado recente, do século XIX, que sentimos integrados à engrenagem do tempo e torcermos pela sua aventura. Marly tem esse dom.
As cenas em que os imensos maquinários de tecelagem encontram como barreira o ribeirão Itapeva para chegar ao seu destino tornam-se flashes de uma visão quase épica da história local, ainda viva no imaginário de muitos piracicabanos de velha cepa que já ouviram essa mesma batalha contra as intempéries do tempo contada de boca-a-boca.
Vemos Prudente de Moraes lutando no parlamento para dar vida aos seus ideias abolicionistas e republicanos. Vemos as lideranças do PRP enfrentando de alguma forma os defensores do império e suas políticas de controle de poder. Vemos os últimos momentos de escravidão em Piracicaba.
Marly Perecin traz à tona o trato da elite abolicionista ou não com os seus escravos. As dúvidas sobre o futuro dos negros libertos, que não foram preparados para ingressar no mercado de trabalho livre. O livro é profícuo em demonstrações tristes e amorosas sobre essa população tão martirizada.
A obra circula em torno de Rosarinho, filha da elite local e ituana, e suas aventuras para ser feliz. Sua fuga com um gaúcho de nome Carlos, homem envolvido com o comércio de muares e de produtos essenciais vindos do sul do país.
É assustadora e cruel a cena da morte brutal de Carlos pelos seus inimigos, diante dos olhos de Rosarinho. Traumatizada e sem rumo, ela é obrigada a voltar para casa, onde reencontra com boa parte dos seus familiares e amigos, todos envelhecidos.
O livro se encerra praticamente em 1888, ano da abolição da escravatura, das festas dos negros libertos na praça da Santa Cruz, local estigmatizado também como sendo o ponto de convergência de um novo mundo de sofrimento que apenas estava se desenhando.
Marly traça na obra um período que vai de 1845 a 1904. Mas o desdobramento posterior à abolição é mais para dar alguns detalhes sobre destinos, uma vez que Rosarinho teve que se tornar comerciante de equipamentos agrícolas para sobreviver, e seu filho Carlos acabou se formando na Esalq, na turma de 1904.
Se a obra vale a pena ser lida? Esta é no mínimo uma obrigação de que quem gosta de saber com certa segurança o que foi Piracicaba na segunda metade do Século XIX, cidade onde Rosarinho deveria ser uma cartilha escolar do ensino fundamental, para dizer o mínimo. Trata-se, portanto, de uma obra que encanta como o salto do Rio Piracicaba em seus períodos mais exuberantes.
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