No plano da polêmica, religião e ciência sempre se confrontaram, como se fossem confrontáveis. De uma maneira um tanto quanto infantil, os criacionistas e os evolucionistas de hoje estabelecem formas de embates entre si que se assemelha muito aos extremos políticos no Brasil.
Segundo eles demonstram em seus momentos exacerbados, se um lado existe, o outro deve ser eliminado. No entanto, a disputa entre ambos só faz sentido em campo de estranhamento dogmático, que se retroalimenta, e não da ciência. Por isso, a preocupação com a ciência quando ela se torna dogmática.
A Igreja católica, desde Constantino, passou a se consolidar como uma estrutura de controle social, perseguindo o que ela classificava como herege ou fora dos padrões do Deus único. O pensamento livre foi se tornando um problema para os burocratas de baixo intelecto que se posicionavam nessa estrutura de poder.
Ou seja, parcela expressiva das pessoas ligadas a essa estrutura não era capaz de compreender a complexidade do conhecimento lógico, muito menos do conhecimento científico, e via nesse campo do saber uma fonte permanente de inimigos à Igreja e seus dogmas.
Isso não significa que os filósofos e cientistas deixaram de pensar à margem do sistema religioso. Tornou-se, evidentemente, mais perigoso pensar “o que não era permitido pensar”. Temos muitas histórias, como a de Giordano Bruno, de Galileu Galilei, de Descartes, etc, que sofreram com perseguições. Até mesmo São Tomás de Aquino foi punido por não compactuar com certos cânones da igreja. Mas o tempo é o senhor da razão.
O filósofo escocês Duns Scotus (também conhecido como Doutor Sutil) inicia de forma radical, no século XI, um processo de ruptura com o pensamento em voga (entenda, compreensível e aceito pela Igreja), predominantemente aristotélico. Scotus percebe e teoriza de forma complexa a questão de que não era mais possível explicar a natureza apenas pela lógica de causa e efeito, de ato e potência... Eram necessárias novas chaves de conhecimento.
O debate maior ao qual ele se envolveu foi sobre os universais e particulares. O que nos faz captar algo da natureza como sendo diferente um do outro e ao mesmo tempo tendo algo em comum. É a continuidade de uma discussão que se origina com Platão. Há ainda a dificuldade de se explica se uma coisa particular é captada como de fato ela é ou não. Embate que ele vai estabelecer com os nominalistas.
Segundo os nominalistas, da natureza percebemos as particularidades das coisas, mas que seria indiferente a tudo o que acontece ao nosso intelecto em termos universais. Abre-se aí o mundo para o desenvolvimento de outras formas de pensar, que vai redundar em Kant e na ciência moderna.
Ou seja, tudo o que pensamos sobre a natureza é importante para compor um entendimento que construímos sobre ela, o que nada tem a ver com a natureza propriamente dita, mas com sua aparência para nós ou o que entendemos sobre ela.
A literatura afirma que o pensamento protestante foi mais habilidoso em captar estas nuances e abrir o mundo da lógica para um novo patamar. Qual seria? Deus existiria para além da capacidade de pensamento dos homens e os homens não precisariam necessariamente pensar conforme cartilhas religiosas para serem considerados filhos e Deus e crerem em uma força superior, nessa dimensão.
O protestantismo, nesse sentido, amplifica o potencial do pensamento científico moderno, não significando, necessariamente, que a religiosidade em si fosse um impeditivo para o pensamento científico. Vale reforçar que tanto Scotus como Guilherme de Ockham, que estavam na vanguarda deste debate filosófico, eram franciscanos, ordenações religiosas da Igreja Católica.
Ockham era um forte defensor da liberdade humana e da separação entre o poder humano e o poder divino. Demorou para cair a ficha da Igreja Católica. Tanto é que o protestantismo de Lutero veio com força para dividir a Igreja e o mundo do pensar. O maior erro foi a limitação humana. Hoje tais questões são superadas.




