Pessoas se gabando porque descrevem a tristeza de quando o cachorrinho morreu, quando tinha seis anos de idade. Ou na semana passada.
Autores no Facebook ou no Substack, dizendo que “jamais uma IA” vai escrever um texto tão cheio de emoção como o meu.
Emoções tão complexas como a que sentiu quando a mãe ou o pai morreu, a namorada ou namorado lhe deu um pé na bunda, sobre a dor de ser traída ou do orgulho de se sentir “empoderada” depois de uma majestosa “volta por cima”.
Vejam, não é o evento em si a ser deplorado. Não estou zombando das suas emoções. E sim, da forma como as descrevem, como se fosse a coisa mais original do mundo. Ou pelo menos, algo tão irreplicável por um algoritmo, algo que “as máquinas não conseguem captar”.
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Comparar textos humanos e gerados por IA para se gabar que “o meu texto é humano, porque tem emoções, coisa que uma IA jamais faria” é uma furada.
Sabe por que?
Porque a IA foi treinada por humanos.
Ou seja, os modelos dos quais ela parte são bilhões, de textos. Todos 100% escritos por humanos.
Tá, já chegamos no ponto em que temos milhões de textos online gerados por IAs. Mas o padrão, a baliza, são humanos.
Não há outro padrão de referência. Não há textos alienígenas, de culturas não-humanas, para compararmos e dizer: isto é texto que nenhum humano faria. Não há como distinguir uma laranja de uma jaca se você só tem laranjas como referência.
No início da difusão massiva das IA’s, ainda era possível detectar inconsistências em textos feitos por IA’s, como erros de continuidade. Eram as “AI Slops”, as tais das “alucinações de IA”, em textos.
Hoje, o que é apontado como possível sinal de AI Slop nada mais são que erros muito cometidos por pessoas reais escrevendo de forma ruim ou péssima.
Veja só: diz o Gemini que um vício comum de texto feito por IA é usar clichês ou termos batidos, como iniciar um texto assim: “No mundo acelerado de hoje…” ou “Hoje, vamos explorar o tema de…”. Mas quem nunca cometeu algo assim, trabalhando em jornal ou com textos diários, que atire a primeira pedra…
Outro exemplo de uma alucinação de IA, desta vez em uma história ficcional:
Em uma noite escura e tempestuosa na cidade de Nova York, o detetive John olhou pela janela. O perigo estava à espreita nas sombras. Ele sabia que precisava encontrar o culpado antes que fosse tarde demais. John pegou sua capa de chuva e saiu correndo pela porta. Ele nunca desistiria. A cidade dependia dele.
Olha, já vi muitos pretensos escritores, que conheci pessoalmente (atesto, são pessoas de carne e osso), que têm um texto que não chega nem aos pés deste…
A principal promessa da IA é a eficiência maximizada. Máximo de resultados, entrega rápida, com custo mais baixo. E com o máximo de qualidade. Mas os exemplos acima de AI Slops são de imperfeições, clichês, chavões.
Com quem será que a IA aprendeu a ser imperfeita desse jeito?
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Emoções eram, na Antiguidade, consideradas como algo imperfeito. O homem ou mulher perfeitos, com um caráter semelhante aos deuses, ou a Deus, era aquele que não demonstrava suas emoções. É por isso que as estátuas gregas clássicas tem fisionomias impassíveis, sem demonstrar emoções. Porque são de pessoas perfeitas, ou melhor, deuses e semideuses. (E sim, filósofos e escritores, retratados dessa forma, eram considerados quase divinos, como semideuses).
Daí vem a definição do Deus cristão, que diz que Ele é imutável, e que as expressões do Antigo Testamento que dizem que “Deus se encolerizou”, “Deus se arrependeu”, são só forma de expressão para que nós, seres humanos imperfeitos e lotados de emoções, possamos entendê-Lo. Se Deus é perfeito, logo, não só não demonstra emoções, mas também não as têm.
Mesmo assim, as emoções estão transbordando nos textos que escrevemos desde a Antiguidade. Mesmo que elas sejam demonstrações de almas perturbadas, como nas tragédias gregas. Emoções que precisam ser domadas, e se possível, vencidas.
É também por isso que, na filosofia e teologia cristãs, as emoções são identificadas com as “paixões”, impulsos da psiquê que precisam ser domadas, na forma que deem lugar aos vícios - paixões descontroladas - e gerem virtudes - paixões, impulsos, controlados.
Somente a partir do Romantismo é que na cultura do Ocidente, as emoções passaram a ser valorizadas, e também suas representações. Como uma forma de reação ao cristianismo, os vícios passaram, pouco a pouco, a terem o sinal trocado, e passaram a ser virtudes. Como o amor, que passou a ser identificado com a paixão sexual, em vez do sentimento elevado e controlado que era ensinado pela teologia cristã.
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Voltando à IA: na forma como é somos formados nas emoções, cada um de nós somente as identifica, na vida e nos textos, porque fomos ensinados a identificá-las, e também suas representações.
Desculpe destruir a sua ilusão, mas não nascemos sabendo que quando algo vai contra nossa vontade, isso vai nos deixar “tristes” ou com “raiva”. Aprendemos isso com os nossos pais, irmãos, parentes, amigos, e hoje, com o TikTok.
E o que as pessoas ainda não perceberam - pelo menos os pretensos escritores “emocionais” ou emocionados das redes sociais - que a IA também foi educada para isso. Pelo menos, para representar emoções em um conteúdo textual. Não quis dizer que a IA foi treinada para sentir emoção, e sim, para simulá-la. E por ter essa capacidade, usada hoje na prática, real e concretamente, está sendo usada por pessoas de má-fé, para enganar e aplicar golpes.
E ela consegue fazer isso muito bem - simular emoções -, porque aprendeu com os melhores, e únicos, mestres: nós mesmos, pessoas, que derramamos, há séculos, nossas emoções na forma de textos, vídeos, fotos, ilustrações, músicas...
Se você acha que o seu texto é extremamente original só porque descreve a sua tristeza ou raiva do fim de um namoro, ou a emoção de ter tido o seu primeiro filho, a IA fará igual, ou talvez melhor que você. Porque tem bilhões de pessoas que vieram antes, e contaram para a IA: para representar tal emoção, faça assim ou assado.
Inteligência Artificial: sabemos nada, inocentes.




